
A cena se repete em muitas casas. O pet se aproxima, encosta no tutor e pede carinho, mas o mau hálito acaba chamando mais atenção do que o afeto. Apesar de comum, esse sinal está longe de ser normal e costuma ser ignorado no dia a dia. A saúde bucal de cães e gatos ainda é negligenciada na rotina, mesmo sendo um dos fatores que mais impactam o bem-estar, o comportamento e a qualidade de vida dos animais.
Na prática, é comum encontrar pets aparentemente bem cuidados, com alimentação equilibrada e banho em dia, mas que apresentam odor forte na boca. A condição, conhecida como halitose, costuma ser ignorada ou tratada como algo natural. No entanto, ela pode indicar o início de problemas que evoluem de forma silenciosa e progressiva ao longo do tempo, sem sinais evidentes nas fases iniciais.
A médica veterinária Thaíssa Quintas explica que o cuidado com a boca deve começar dentro de casa e fazer parte da rotina. "O principal cuidado para prevenção de doenças orais nos pets é a realização de higiene oral diária ou no mínimo três vezes por semana", afirma. Segundo ela, o uso de escova adequada e creme dental veterinário é essencial para evitar o acúmulo de placa bacteriana e manter a saúde bucal em dia.
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Mesmo com orientações cada vez mais acessíveis, a baixa frequência na escovação ainda é um dos erros mais comuns entre tutores. "Escovar os dentes apenas uma vez por semana ou apenas ao levar o animal ao pet shop não previne a formação de cálculo dentário e o consequente desenvolvimento de doença periodontal", alerta Thaíssa. A prátca esporádica não acompanha o ritmo de formação da placa bacteriana, que se acumula diariamente.
Com o tempo, o acúmulo de resíduos nos dentes leva à formação do tártaro, criando um ambiente favorável para a proliferação de bactérias. A partir daí, surgem inflamações que podem evoluir para quadros mais graves, muitas vezes sem sinais evidentes nas fases iniciais e com impacto direto na saúde geral do animal.
A doença periodontal é a condição mais frequente entre cães e gatos e pode evoluir de forma silenciosa. "É uma doença inflamatória crônica causada pelas bactérias que compõem o tártaro. A nível oral, gera dor, perdas dentárias, dificuldade para se alimentar e infecções locais", explica. O impacto, no entanto, vai além da boca. "Esse processo inflamatório pode gerar comprometimento na função renal e hepática, causar anemia e até quadros cardíacos graves", completa.
Atenção aos sinais
Outros problemas bucais são recorrentes e merecem atenção. A fratura dentária pode expor a polpa do dente, causando dor intensa e risco de infecção. Já nos gatos, a lesão reabsortiva dos felinos fragiliza os dentes e pode levar à sua destruição progressiva, muitas vezes sem sinais visíveis.
Há ainda quadros inflamatórios mais severos, como o complexo gengivite estomatite faringite, que provoca lesões dolorosas na região posterior da boca. Nesses casos, o impacto na qualidade de vida é significativo, afetando diretamente a alimentação, o comportamento e até a interação do animal com o ambiente.
Os sinais de alerta exigem atenção dos tutores no dia a dia. "O principal sinal notável é a presença de mau hálito. Se o cão ou gato apresenta esse sintoma, isso indica maior proliferação bacteriana oral e pode ser um dos primeiros indicativos de problema", reforça Thaíssa. Alterações no comportamento alimentar e sensibilidade na região da boca também podem surgir com a evolução do quadro.
A recomendação é que os pets passem por avaliação bucal regularmente. "A frequência ideal é ao menos uma vez ao ano. Em pacientes com predisposição conhecida, recomenda-se a cada seis meses", orienta. O acompanhamento periódico permite identificar alterações precocemente e evitar que doenças avancem sem diagnóstico.
Cuidados que vão além da escovação
A professora de medicina veterinária do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) Manuela Paula Teixeira destaca que, apesar das diferenças entre cães e gatos, a base da prevenção é a mesma e passa, principalmente, pela rotina de cuidados. "A profilaxia que realmente funciona é a escovação, tanto em cães quanto em gatos. É o método ideal e deve ser feito com creme dental sem flúor", explica. Segundo ela, o hábito deve ser introduzido ainda na fase filhote, quando os animais tendem a aceitar melhor o processo e se adaptam com mais facilidade.
Ela ressalta, no entanto, que as diferenças aparecem quando a saúde bucal já está comprometida. "Os cães normalmente têm periodontite, que é a inflamação da gengiva e dos tecidos de sustentação do dente. Já os gatos apresentam mais lesões de reabsorção de raiz, muitas vezes com os dentes aparentemente bons", afirma. "Eles manifestam menos sinais, mas quando se faz um exame mais detalhado, como o raio-x, essas lesões aparecem com mais frequência."
A alimentação pode funcionar como aliada, mas não substitui a higiene. "A ração seca ajuda na abrasão dos dentes e na salivação. Alguns petiscos têm enzimas que auxiliam, e brinquedos mordedores também podem contribuir, mas são medidas paliativas. Nada é tão efetivo quanto a escovação regular", reforça.
Quando a doença já está instalada, o tratamento em consultório se torna necessário e pode envolver diferentes abordagens. "Os procedimentos incluem o uso do ultrassom odontológico para remoção de placas calcificadas. Em alguns casos, é preciso fazer extrações, principalmente quando há dentes com múltiplas raízes, que exigem técnicas específicas", explica.
Após a remoção do tártaro, o polimento dos dentes é uma etapa fundamental. "Esse polimento deixa a superfície mais lisa e dificulta o acúmulo de novas placas. Quanto mais lisa a superfície, menor a chance de reincidência do problema", detalha.
Sobre a anestesia, ela reforça que o receio dos tutores não deve ser um impeditivo. "Hoje, a anestesia é monitorada e personalizada, com exames prévios para avaliar o risco do paciente. O procedimento é seguro e acompanhado o tempo todo", afirma.
Adiar o tratamento, segundo ela, pode trazer consequências mais sérias. "Não é aconselhável deixar de realizar um tratamento periodontal por medo da anestesia. É mais prudente se preocupar com as consequências da infecção bucal, que pode levar a problemas cardíacos e outras complicações importantes", conclui.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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