
O vitral já foi símbolo de uma arquitetura marcada pelo excesso de ornamentos e por referências históricas. Durante anos, ficou restrito à memória afetiva de casas antigas e igrejas, distante dos projetos contemporâneos. Agora, ele reaparece com outra leitura, mais leve, autoral e, principalmente, mais conectada ao jeito atual de morar.
No lugar de desenhos figurativos e composições pesadas, entram traços limpos, geometrias sutis e uma paleta que dialoga com interiores modernos. Mais do que um elemento decorativo, o vitral volta à cena como uma ferramenta capaz de transformar a luz, criar atmosferas e trazer identidade aos espaços.
A designer de interiores Aline Silva diz que, ao pensar em um vitral em casa, o imagina como uma joia dentro do ambiente. "Ele traz cor, luz e personalidade, principalmente quando recebe iluminação natural. Mais do que decorar, o vitral cria atmosfera, porque transforma a luz e muda a sensação do espaço", detalha.
Onde e como usar
Mas onde colocar um vitral? Apesar de não ser um elemento muito comum, quem deseja investir nele tem um leque de opções, não se limitando apenas às janelas. "Hoje, gosto muito de trabalhar em portas de passagem, principalmente quando a ideia é manter a integração entre os ambientes sem perder a privacidade", diz Aline.
A designer também destaca que o vitral funciona bem em divisórias, criando uma separação mais leve e cheia de personalidade, sem pesar visualmente o espaço. Em mobiliário, ele aparece como detalhe em portas de armários, cristaleiras ou até em painéis decorativos, trazendo um toque artístico único. "O mais interessante é que o vitral deixa de ser apenas um elemento funcional e passa a ser protagonista, quase como uma peça de arte dentro do ambiente", elogia.
A arquiteta Anne Egídio, da NIAH Arquiteto, destaca que o vitral é um elemento bastante versátil, podendo ser utilizado de diferentes formas e tipos de projetos. "Em casas, é comum aparecer em fachadas, halls de entrada e escadas para aproveitar bem a luz natural. Já em apartamentos, funciona em portas internas, divisórias ou detalhes pontuais que tragam personalidade", explica.
Para a arquiteta, não existe uma regra de melhor lugar para integrar esse elemento. "Preferimos pensar no vitral como forma de criar cenas e experiências dentro da casa. Um corredor simples, por exemplo, pode deixar de ser só passagem e se tornar um caminho mais agradável, interessante e até instagramável", explica. Muito comum também é a presença do vitral em peças de mobiliário e iluminação, como os tradicionais abajures inspirados no estilo art déco, que são um charme à parte.
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Cor, luz e atmosfera
A escolha das cores do vidro são um detalhe importante, que pode alterar toda a percepção do projeto final. Aline explica que o ponto de partida para a decisão sempre deve ser a base do ambiente. "Observar os tons já presentes nos móveis, nas paredes e nos revestimentos ajuda a definir se o vitral vai seguir essa paleta ou entrar como contraste", resume.
Se a ideia for um espaço mais leve e contemporâneo, vale apostar em cores suaves ou neutras. Já em propostas marcantes, o vitral pode trazer cores intensas e se tornar o grande destaque. "Eu gosto de pensar no vitral como um filtro de luz: as cores escolhidas não aparecem só no desenho, mas também na forma como a luz se espalha pelo ambiente. Por isso, é importante que elas conversem com a atmosfera que se quer criar", detalha Aline.
Nesse contexto, luz e cor caminham sempre juntas e têm um papel essencial na forma como se percebe o ambiente. A mesma paleta pode transmitir sensações completamente diferentes, dependendo da iluminação. "No caso dos vitrais, isso fica ainda mais evidente, porque a luz atravessa o material e projeta as cores no espaço, criando um efeito vivo, que muda ao longo do dia".
O arquiteto Hiago Carvalho, também da NIAH Arquitetos, destaca que, assim como todo material empregado em um projeto, o vitral precisa conversar com a proposta do ambiente. "Usando um vitral colorido em uma divisória mais escura ou em uma película jateada, por exemplo, ganhamos um elemento que deixa passar uma luz suave e, ao mesmo tempo, preserva certa privacidade", ensina.
De forma geral, o vitral é produzido a partir do corte de peças de vidro que são montadas conforme o desenho escolhido e unidas por estruturas metálicas, mas, atualmente, vem surgindo opções como películas e até vidros inteligentes. Mas os vidros texturizados seguem sendo os queridinhos.
Função além da estética
Quando bem pensado, esse elemento pode se tornar não apenas bonito, mas útil. Em alguns casos, pode substituir o uso de cortinas com muita elegância, principalmente quando se quer evitar excesso de tecido e manter o ambiente mais leve e contemporâneo. Outra proposta menos óbvia é aplicar em portas de correr ou painéis móveis, que mudam a configuração do espaço ao longo do dia — além de funcionais, viram um ponto de destaque.
Outro uso interessante é no conforto térmico e controle de incidência solar. "Quando o vitral é combinado com tecnologias atuais, como vidros laminados, duplos ou películas de controle solar, ele pode ajudar a filtrar a luz, reduzir o excesso de claridade e tornar os ambientes mais confortáveis", explica Hiago.
Linguagem estética
Em projetos atuais, o vitral ganha novas leituras ao surgir com desenhos mais limpos, composições geométricas e uma abordagem menos figurativa. "Ele funciona muito bem em ambientes contemporâneos, trazendo personalidade sem pesar", explica Aline.
Para o escritório NIAH Arquitetos, a chave está na sutileza. Em vez de apostar em cores intensas ou composições muito marcantes, muitas vezes é possível trabalhar com texturas, transparências e variações delicadas de tonalidade. "Brincando com esses elementos, conseguimos uma composição elegante, versátil e que conversa com diferentes estilos arquitetônicos, do clássico ao industrial", destaca Anne.
Ao mesmo tempo, o interesse crescente por peças artesanais e autorais impulsiona ainda mais essa retomada — o vitral se destaca por carregar processo, tempo e identidade. Cada peça é única, feita à mão, e capaz de transformar não só o espaço, mas a experiência de quem o habita.
Cuidados e limitações
O vitral não exige uma manutenção complexa, mas alguns cuidados fazem toda a diferença no dia a dia. A limpeza pode ser feita com pano macio e produtos neutros, evitando abrasivos que possam danificar o vidro ou o acabamento. Também é importante ter atenção com impactos, principalmente em áreas de circulação. Outro ponto é a instalação bem feita — isso já evita futuros problemas, como folgas ou infiltrações, especialmente em áreas externas.
O arquiteto Hiago ressalta que, como originalmente o vitral não foi pensado para ser algo estrutural, mas, sim, de valor estético, existem limitações em relação à segurança e à resistência. "Geralmente, são usadas lâminas de vidro mais finas e, por isso, acabam não sendo tão resistentes a impactos." Portanto, a durabilidade depende de uma boa instalação e de cuidados e revisões periódicas.
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

Revista do Correio
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