Especial

Depois que eles se vão: silêncio, recomeços e redescobertas no ninho vazio

A saída dos filhos marca uma ruptura na rotina das mães e abre caminho para redescobertas, autonomia e novos significados

"A gente acha que está preparada, mas nunca está, né?". É assim que a aposentada e mãe de duas filhas, Denise Dias, 53, retrata o sentimento diante da síndrome do ninho vazio, experimentada por diversas mães após os filhos saírem de casa. A transição emocional é conhecida por causar sensação de perda de propósito ou de função parental, gerando ansiedade, melancolia e, em alguns casos, quadros depressivos. Na maioria dos casos, o acompanhamento profissional e novos objetivos ajudam a preencher o espaço na rotina das mães.

Ana Beatriz, filha mais nova da Denise, escolheu sair de casa aos 19 anos. Para a mãe, a decisão da caçula foi muito repentina: três meses depois do anúncio da partida, a caçula já havia encontrado um lugar para morar. "Sofri bastante. Foi a primeira vez que não tinha uma filha em casa", comenta Denise. "Ela colocou a mochila nas costas e foi. Naquele momento senti o baque, precisei de medicação para a ansiedade."

No mesmo ano, a mais velha, Maria Clara, aos 25, e já com um emprego fixo, também resolveu se mudar para morar com o namorado. O silêncio da casa vazia trouxe um impacto profundo para Denise. Primeiro com a saída da filha mais nova e, depois, de forma ainda mais intensa, quando os dois quartos ficaram vazios.

Mesmo diante da dor, a aposentada buscou não transferir esse sentimento para as filhas. Para denise, era importante respeitar o momento de independência das jovens. "Eu me sentia muito só, mas nunca joguei isso para cima delas. Era a vida delas, não a minha", afirma.

Arquivo pessoal - De início, Denise demorou a se adaptar sem Ana e Maria em casa

Ajustes são necessários 

O período de adaptação coincidiu com outras mudanças significativas: a aposentadoria e a chegada da menopausa. A soma desses fatores intensificou a sensação de deslocamento. "Eu não sabia o que estava acontecendo comigo", diz. Foi nesse momento que ela decidiu retomar a terapia, em busca de entender e aceitar essa nova fase.

A tentativa de preencher o vazio veio por meio da ressignificação da rotina. Denise passou a investir em si mesma e buscou novos caminhos, um deles foi o estudo. "Eu sempre quis fazer algo na área da saúde e apareceu a acupuntura. Isso me ajudou bastante", explica. 

Além disso, mudanças concretas no ambiente fizeram parte do processo. A casa, antes organizada em função das filhas, ganhou uma nova configuração — e um novo significado. "Eu mudei tudo. Reformei, abri os espaços, transformei os quartos. Foi a forma que encontrei de não ficar presa ao que já passou", relata. Externamente, decidiu mudar o visual, realizando a transição capilar, e assumir uma nova fase da própria identidade. "Eu pensei: agora chegou a minha vez." 

Hoje, a rotina é guiada por novos propósitos. O relacionamento com as filhas permanece próximo. "A relação mudou, mas continua profunda", afirma. Com o  tempo, o que antes era ausência foi sendo transformado em adaptação. "Essa fase agora está muito boa. A poeira já baixou", resume. Para Denise, a saída das filhas não significou um rompimento, mas uma reorganização dos laços. "É uma nova fase, com um novo significado, mas continua o mesmo amor."

Fotos:Arquivo pessoal -
Arquivo pessoal -

Saudade e recomeços 

Para a psicóloga perinatal Juliana Benevides, a saída dos filhos é uma oportunidade de transformação. Mulheres encaram a maternidade como um dos papéis centrais da vida e, quando esse ciclo se modifica, é comum que surja um sentimento de vazio e perda de função. "Muitas mães se sentem inválidas, como se tivessem dado tudo e, de repente, recebessem a solidão em troca", explica.

A especialista elucida que esse processo não é necessariamente patológico, mas faz parte de uma transição emocional significativa. A síndrome do ninho vazio pode provocar uma sensação de desencaixe na rotina. "Ela fica com um vazio que pode fazer com que se perca, tentando encontrar uma maternidade que já não existe mais daquela forma", afirma.

Esse impacto está diretamente ligado à forma como a identidade da mulher foi construída ao longo da vida. Juliana destaca que a maternidade é apenas um entre vários papéis sociais — e quando ela se torna o único, o risco de sofrimento aumenta. "Exercer apenas um papel é adoecedor. A mulher precisa existir para além de ser mãe."

Ainda assim, a psicóloga reforça que cada experiência é única. Há mães que sentem intensamente a saída dos filhos, enquanto outras lidam com mais naturalidade. "A dor é subjetiva. Mesmo mulheres que tinham outras atividades podem sofrer, porque o vínculo construído com os filhos é muito profundo", diz.

Outro ponto importante é o comportamento diante dessa mudança. Em alguns casos, a dificuldade de aceitação pode levar a tentativas de manter o controle sobre a vida dos filhos, mesmo não vivendo na mesma casa. "Algumas mães ainda querem orientar ou decidir, como se o filho não tivesse autonomia. Isso pode gerar conflitos e até impactar as relações deles", alerta.

Apesar dos desafios, Juliana ressalta que esse momento pode abrir espaço para redescobertas. "É possível se reinventar em qualquer fase da vida. Buscar hobbies, investir em si mesma e fortalecer outros vínculos ajuda a ressignificar esse vazio", afirma. Segundo ela, o autoconhecimento é peça-chave para atravessar essa etapa de forma mais saudável e construir novos sentidos para além da maternidade.

Essa reinvenção pode surgir de diversas formas até que essa mãe consiga retomar seu próprio lugar como indivíduo. Isso inclui respeitar seu tempo e abrir espaço para interesses que vão além da maternidade. "A mulher precisa se permitir viver outras experiências, seja por meio de hobbies, atividades físicas, encontros com amigos ou até o convívio com um pet, que pode trazer afeto e estimular uma nova rotina", sugere. Segundo Juliana, o mais importante é que essas escolhas partam do desejo da própria mulher. "Não pode ser algo imposto. Precisa fazer sentido, dar prazer e ajudar essa mãe a se reconectar com quem ela é fora do papel materno."

Ebulição emocional

Embora popularmente seja chamada de síndrome do ninho vazio, o termo não se refere necessariamente a um quadro clínico. Para a psicanálise, trata-se de uma travessia emocional marcada por rupturas, reorganização interna e, muitas vezes, pela necessidade de reconstruir a própria identidade para além da maternidade.

"Não é propriamente uma síndrome, mas uma etapa natural do ciclo da vida que implica uma ruptura. Quando os filhos partem, um espaço fica subitamente desocupado, o que pode produzir uma sensação de vazio e até certa vertigem", explica a psicanalista Octavie Laroque. Segundo ela, esse momento pode reativar questões profundas, ligadas à separação, ao envelhecimento e até a percepção da própria finitude. "É uma espécie de crise no sentido psíquico do termo: os referenciais habituais deixam de funcionar, e se torna necessário inventar novos equilíbrios."

Adaptação às mudanças 

"A casa cheia, a mesa cheia." É assim que a balconista Adriene Galego, 60 anos, começa a relembrar de quando as filhas ainda moravam com ela. Receitas, pães caseiros, bolos e lancheiras preparadas com cuidado, o dia a dia era marcado por pequenos gestos de afeto. "Quando abriam, o cheiro exalava amor. Até as professoras comentavam", conta.

O tempo, no entanto, foi avançando quase sem aviso. Primeiro vieram as descobertas da adolescência, os segredos guardados em agendas e os pedidos para festas com amigas. Depois, a vida adulta se impôs de vez. "Eu vi tudo de perto, vivi cada fase com elas. E, de repente, cada uma foi seguindo seu caminho: trabalhar, viajar, construir a própria vida", relembra.

A saída das filhas, Mariana, Gabriela e Amanda, aconteceu aos poucos, em "gotas homeopáticas", como Adriene define. Ainda assim, o impacto foi inevitável. O silêncio tomou o lugar das risadas e da rotina compartilhada. "Eu chorei, chorei muito. Cheguei a adoecer", admite. O sentimento se intensificou especialmente com a partida da filha mais nova, cuja filha também morava com a avó Adriene. "A gente era muito apegada. Foi bem doído."

Com o tempo, Adriene encontrou formas de lidar com a ausência. Mesmo com o "buraquinho" que diz ainda sentir, passou a redefinir a relação com as filhas e a rotina. Hoje, atravessa a cidade para manter tradições que antes aconteciam dentro de casa. "Eu vou até elas e continuo fazendo o café, os pães, os lanches. Alimenta o coração delas e o meu também", diz, emocionada.

A vida, aos poucos, foi ganhando novos contornos. O trabalho, que sempre fez parte da sua trajetória, ajudou a organizar sentimentos e a enfrentar a mudança. Conversas com amigos também foram fundamentais nesse processo. "Aprendi a controlar minhas ansiedades. E hoje, quando volto para casa, sinto paz, não solidão", afirma.

Adriene construiu uma nova rotina com viagens, encontros e momentos de lazer. Sai com amigos, frequenta shows, recebe pessoas em casa e investe em atividades simples, como fazer caminhadas e assistir a séries. "Tudo foi se encaixando", resume. A casa já não é mais a mesma — mas segue sendo um espaço de descanso, agora preenchido por novas formas de viver e de se reatar consigo mesma.

Arquivo pessoal - Adriene chegou adoecer após a saída das filhas de casa, mas, com o tempo, aprendeu a lidar com a situação

Entre luto e novas conquistas 

Aos 56 anos, a serventuária da Justiça Carla Lessa Rabello aprendeu, de forma intensa e dolorosa, que a maternidade é feita de encontros, despedidas e recomeços, muitas vezes todos ao mesmo tempo. Mãe de quatro filhos, ela viu sua vida mudar profundamente nos últimos meses, após a morte da filha mais velha, Fernanda. E, enquanto ainda enfrentava o enorme luto, precisou lidar com a partida casa outra filha, Fabiana, 22, que deixou a casa logo após se formar para iniciar a carreira profissional. 

Em casa, atualmente, moram Carla, o marido, Silvio Fonseca, a segunda filha do casal, Flávia, 28, Lorenzo, o caçula de 10, e o neto Bernardo, 9, filho de Fernanda. Longe deles também está a neta mais nova, Helena, de apenas 4 anos, que após o falecimento da mãe foi morar com o pai. 

Carla explica que as as perdas são realidades completamente diferentes. Ela conta que a ausência de Fernanda é uma dor que parte no meio, sem aviso ou alívio, e que nunca vai embora de vez. Mas a saída de Fabiana, para voar, crescer e realizar o sonho dela, é uma dor com gostinho de realização. "Uma mãe se prepara para esse dia", resume. 

Quando primeiro soube da mudança, um misto de sentimentos a preencheu: medo e preocupação. Mas também uma boa dose de orgulho. No momento definitivo, ela conta que se deixou contagiar pela empolgação de Fabiana para não se sentir triste, fez questão de ajudar, orientar e estar junto até que a filha se estabelecesse. 

Apesar da casa ainda cheia, o clima e a rotina mudaram de forma significativa, mesmo com coisas simples, como chamar a filha para almoçar. "A casa ficou mais silenciosa, sinto falta dela indo atrás de mim, pedindo um beijo", conta. 

Arquivo pessoal - A família de Carla permanece unida

Misto de emoções

Ao mesmo tempo em que aprende a conviver com a saudade, Carla acompanha os outros filhos seguindo seus próprios caminhos e entende que, mesmo diante de uma perda tão repentina, a vida continua em movimento. "A gente sempre sabe que um dia os filhos voam. Tento estar presente na vida deles, mesmo com a saudade batendo. A gente se apoia em todos os momentos", afirma.

Ela reconhece que a dor do luto também transformou sua forma de enxergar a maternidade. Se antes a ideia de ver um filho sair de casa poderia parecer mais difícil, hoje Carla diz compreender que amar também passa por permitir. "Se eu não tivesse perdido minha filha, a mudança da outra seria muito mais traumática. Hoje, eu sei que não adianta querer segurar todos perto de mim. Não sou capaz de evitar o pior, e só Deus controla os nossos destinos. Só nos resta rezar e entregar nas mãos Dele."

Em meio a tantos sentimentos, os netos também passaram a ocupar um lugar ainda mais especial no coração da avó. Se a ausência deixou marcas profundas, a presença das crianças trouxe afeto e novos motivos para seguir em frente. Carla diz que cuidar deles também se tornou uma fonte diária de força e propósito. Para ela, a maternidade ganha uma nova camada nessa fase da vida, mais madura, mas não menos intensa. "É um amor que eu pensei que nunca sentiria."

A força para seguir, segundo ela, vem da fé e da rede de apoio construída dentro de casa. "Minha maior força vem de Deus. Ele me mantém e me conforta. E também dos meus filhos, netos, genros e do meu marido. Formamos uma concha de proteção mútua, sempre um ajudando o outro quando alguém está mais para baixo."

Quando olha para a própria família hoje, Carla diz que dois sentimentos falam mais alto: amor e solidariedade. “Estamos sempre um pelo outro. Nossa frase é: ‘Por você, faria isso mil vezes’. E quem nos ensinou isso foi minha filha que já se foi.”

Depois de tantas despedidas, dores e recomeços, Carla resume o maior aprendizado dessa fase com a simplicidade de quem vive a maternidade em tempo integral. "Ser mãe é uma mistura de amor e dor, alegria e frustração. É doar sem esperar nada em troca. É amar e cuidar, independentemente da idade dos filhos." E deixa um recado para outras mães que, como ela, vivem diferentes tipos de despedida: "A vida é um sopro. Hoje a casa está cheia, amanhã pode não estar. Então viva seus filhos, seja amiga, companheira, respeite as escolhas deles e apoie, para não ter arrependimentos futuros."

Giovanna Rodrigues CB/D.A Press - Carla Lessa com seus filhos e netos

Vocações e sonhos 

E quando a saída de casa tem um propósito maior, como fica o coração da mãe? É o caso de Maria Aparecida, 52 anos, que teve uma mudança drástica na dinâmica familiar, quando seu filho mais velho, Matheus Wilian, saiu de casa aos 17 anos, rumo à vida religiosa. 

Durante a infância, nem passava pela cabeça de Matheus ser padre. O desejo e a vocação vieram por volta dos 15 anos de idade. Quando saiu de casa definitivivamente, não pensou muito nas consequências; a empolgação e as novidades inibiram as preocupações. Mas foi cerca de um mês depois, que surgiram os "sintomas" de estar longe de casa.

Nos primeiros anos, a saudade aparecia nas pequenas memórias do cotidiano, das conversas, das risadas em família e, principalmente, das comidas feitas pela mãe. "Sentia falta do pão de queijo com café pela manhã, do bolo de chocolate depois da janta… até das discussões."  

Para Maria, o momento decisivo foi marcado por sentimentos intensos, pois, embora sentisse um profundo orgulho, e a sensação de honra, também sentiu a dor da perda e pela separação física. Com o passar do tempo, ela diz que precisou entender que amar também significava deixar ir. "Em alguns momentos, bate a tristeza, reconhecendo que meu filho não me pertence mais, choro sozinha, sinto solidão, mas, ao mesmo tempo, muito honrada de ter um filho cristão", detalha. 

Com o tempo, porém, a relação entre mãe e filho também amadureceu. Maria conta que, com a distância, o vínculo se transformou. "Hoje, nossa relação é de igualdade. Passei a ser conselheira e amiga." O contato continua frequente, com ligações e conversas constantes. "A gente fala sobre tudo." Matheus, hoje com 28 anos, confirma. "Minha relação com minha mãe sempre foi muito boa, feita nem tanto de palavras, mas de compreensão mútua. Hoje, procuro ligar sempre que posso."

Arquivo pessoal - Maria e o filho Matheus se entendem bem, apesar da distância

Silêncio e saudade

Ao longo dos anos, Maria viu, também, seus outros dois filhos deixarem o lar para seguirem os próprios caminhos. Leonardo, 26, mora com o pai, e Stella, 24, saiu para formar a própria família. Após essas despedidas, a casa mudou completamente. "Virou um cenário de silêncio e saudade. Nos primeiros dias, a ausência do barulho, das refeições compartilhadas, de toda aquela movimentação… tudo pesa." A rotina, antes agitada, deu lugar a um silêncio que exigiu adaptação.

Apesar das dúvidas que admite sentir, Maria diz que a experiência transformou sua maneira de enxergar a maternidade e até a si mesma. Passou a dedicar mais tempo ao autocuidado, à vida a dois e a compreender que os filhos não foram feitos para permanecer. "Aprendi que a gente cria os filhos para voar e serem felizes." 

Hoje, cada nova conquista de Matheus renova esse sentimento. "Tenho orgulho todas as vezes que ele vence uma etapa." E, para outras mães vivendo despedidas semelhantes, ela deixa um conselho simples, mas cheio de fé: "Ore pelos seus filhos. No fim, o que importa é vê-los felizes, com saúde e realizando seus sonhos."

Arquivo pessoal - Matheus diz que sente falta das pequenas coisas do dia a dia de quando morava em casa

Ponto de virada

Apesar de muitas mães associarem a síndrome do ninho vazio à tristeza,  a psicanalista Octavie Laroque lembra que não existe uma resposta única. “Não há uma mistura padrão de sentimentos. Pode existir saudade, vazio, melancolia, mas também orgulho, alívio e até curiosidade em relação ao que essa nova etapa pode proporcionar.”

Quando a maternidade ocupou um lugar central na construção da identidade, porém, a saída dos filhos pode tocar camadas mais profundas. “Em certa medida, existe um processo de luto, não pelo filho, mas pela presença cotidiana e por funções que durante muitos anos organizaram a vida.” O impacto pode ser ainda maior quando coincide com outras transformações do meio da vida, como menopausa, aposentadoria ou mudanças conjugais.

Ainda assim, a especialista reforça que essa fase também pode marcar um ponto de virada. “A maternidade nunca foi uma função fixa. Ela exige adaptações desde o nascimento até a vida adulta dos filhos. Essa mesma capacidade de reinvenção pode ser mobilizada novamente agora.” Para ela, quando o sofrimento persiste ou impede a retomada da própria rotina, buscar ajuda profissional pode ser fundamental. “Os filhos se afastam, mas não se perdem.”

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

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