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Eles sentem tudo: como a ansiedade dos tutores afeta os pets

Veterinárias e tutoras explicam como o humor, a rotina e até o excesso de carinho podem afetar o comportamento e o bem-estar emocional dos animais domésticos

Mudanças bruscas de rotina, excesso de carinho e comunicação contraditória estão entre os principais fatores que afetam o bem-estar emocional dos animais domésticos. Apesar de o estresse e a ansiedade serem comuns entre os pets, os responsáveis por eles nem sempre percebem.

Quando Mariana Yumi Kobayashi, 39 anos, diz que é uma pessoa ansiosa, ela não está falando só de si mesma. "Como eu sou ansiosa, as duas são ansiosas", afirma a funcionária pública de Brasília, referindo-se às cachorras Megan e Zoey. "Mesmo quando acho que estou bem, vejo no jeito delas que a minha ansiedade influenciou no comportamento ou talvez na personalidade delas."

A percepção de Mariana não é exagero nem projeção. Segundo especialistas em comportamento animal, os pets são capazes de captar alterações emocionais nos seres humanos com quem convivem e reagir a elas de formas que vão muito além do que a maioria dos responsáveis imagina.

"Os animais são extremamente sensíveis às mudanças de linguagem corporal, tom de voz, padrões de interação e até mesmo às alterações hormonais associadas ao estresse humano", explica Caroline Pollini, médica veterinária e professora da Universidade Católica de Brasília. Clinicamente, diz ela, isso pode se manifestar como hipervigilância, comportamentos compulsivos, alterações gastrointestinais, dermatites por lambedura em excesso e ansiedade de separação.

A professora Veridiane da Rosa Gomes, do curso de medicina veterinária do Centro Universitário Uniceplac, reforça: "Em alguns casos, o animal funciona quase como um espelho emocional da casa."

Entre os comportamentos mais comuns que afetam negativamente os pets, as duas veterinárias apontam a imprevisibilidade. Mudanças bruscas de rotina, punições inconsistentes e comunicação contraditória, quando o responsável permite um comportamento num dia e repreende no outro, são gatilhos frequentes de estresse. "Isso gera insegurança e aumenta muito o estresse comportamental", afirma Veridiane. "O animal precisa conseguir prever minimamente sono, alimentação, passeios, descanso e interação social."

Caroline Pollini acrescenta que o excesso de estímulos também pesa. Televisão alta, visitas frequentes, manipulação contínua e interrupção do sono deixam muitos animais em estado de alerta constante. "Você o estimula a pular e, de repente, briga porque ele pulou. Isso gera insegurança e pode favorecer ansiedade, vocalização excessiva, comportamento destrutivo e até alterações fisiológicas."

Mariana admite que é "muito grudenta" e que essa característica nem sempre foi bem recebida. "Sei que os animais não gostam de ser abraçados, que alguns toleram porque percebem que o dono fica feliz." Ela conta que Niki, cadela que morreu recentemente, não gostava de abraços. Mas, no final da vida, passou a permitir. "Como se ela soubesse que não teríamos muito tempo juntas e que deveria me dar esse carinho."

Esse tipo de superestimulação, movida por afeto genuíno, mas sem respeitar os limites do animal, é um problema mais comum do que parece. "Muitos responsáveis acreditam que amor significa interação constante, mas vários animais precisam também de pausas, autonomia e descanso", diz a professora Veridiane. "Isso pode criar um estado de excitação contínua, favorecendo ansiedade, dificuldade de autorregulação e até comportamentos compulsivos."

Caroline concorda: "O excesso do contato físico, brincadeiras intensas sem pausas acabam dificultando que o animal tenha um momento de autonomia. O ideal é um equilíbrio que inclui afeto, enriquecimento ambiental, descanso e limites consistentes."

Arquivo pessoal - A saudosa Niki

O animal que percebe tudo

Patricia Silva, bancária de 33 anos e responsável por Nick, um lulu da Pomerânia de 9 anos, descreve com precisão essa sensibilidade. "Quando ele percebe que estou agitada, chorando ou nervosa, não se aproxima. Fica deitadinho me olhando até que eu o veja e o chame."

Durante a epidemia da covid, o comportamento de Nick mudou, ele ficou mais carinhoso. Para as especialistas, não é coincidência. Os animais reconhecem padrões fisiológicos e comportamentais associados aos estados emocionais humanos, como mudanças na respiração, postura corporal, tensão muscular, velocidade dos movimentos e entonação vocal.

"Não é apenas projeção. Já existe base comportamental e neurobiológica para essa percepção", afirma Caroline. "O erro acontece quando atribuímos interpretações humanas complexas demais ao animal, como culpa moral ou intenção racional sofisticada", complementa Veridiane.

Por onde começar a mudar

Patricia reconhece que, às vezes, a agitação de Nick a incomoda. "Brigo com ele e o deixo de castigo", diz. E admite o que mudaria: "Teria mais paciência".

Para as veterinárias, o caminho não é esconder a ansiedade do animal, mas construir um ambiente mais regulado para os dois. "Quando o responsável cuida da própria saúde emocional, isso frequentemente melhora o comportamento do pet de forma indireta", diz Veridiane.

Mariana chegou a essa conclusão por conta própria. Quando adotou Zoey, há dois anos, tentou conscientemente ser mais tranquila. "A minha inquietação não é motora, é mental. Mas elas parecem perceber mesmo assim."

 

Arquivo pessoal - Nick tem 9 anos

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