Fitness e Nutrição

O corpo em movimento, mente em equilíbrio: os benefícios da dança

Perda de peso, coordenação motora e bem-estar. A dança é uma ferramenta poderosa, capaz de transformar vidas e promover a saúde integral

É no momento de expressão artística em que muitos encontram liberdade para ser quem são. Onde, depois de um dia de trabalho, podem descansar a mente e movimentar o corpo. Mas, mais do que um momento de lazer, a dança tem se consolidado como uma ferramenta poderosa de saúde integral, capaz de unir estímulo cognitivo, convívio social e promover o bem-estar daqueles que amam esse universo. Além disso, ela pode ser essencial para o combate à ansiedade e benéfica para a perda de peso. 

A prática regular da dança atua diretamente na estrutura física, sendo uma alternativa democrática para combater o sedentarismo em qualquer idade. O ex-bailarino, profissional de educação física e neurocientista Lindon Johnson Rodrigues destaca a versatilidade da atividade para o organismo. "A dança é uma forma de movimentar o corpo com saúde em todas as fases da vida. Ela contribui para o condicionamento físico, o fortalecimento muscular, a flexibilidade, o equilíbrio e s postura", explica.

De acordo com ele, a prática também ajuda a reduzir dores ligadas à falta de movimento. "A dança ensina a pessoa a habitar melhor o próprio corpo, com música, prazer e convivência, tornando a atividade física algo mais leve e possível no dia a dia. Como digo sempre: movimento é vida", completa Lindon. Além do condicionamento, a complexidade dos passos atua diretamente no sistema neurológico e motor. 

"A dança é um dos melhores treinos de coordenação motora porque exige que o corpo inteiro se organize ao mesmo tempo: braços, pernas, tronco e olhar se movem em sincronia com a música", ressalta o professor. Ao aprender passos, giros e mudanças de direção, a pessoa desenvolve ritmo, equilíbrio, noção de espaço e precisão dos movimentos. "Com a prática, isso se traduz em gestos mais firmes, postura mais estável e maior controle do próprio corpo, tanto na dança quanto nas atividades do dia a dia", acrescenta.

Da periferia para o palco

Para muitos, a dança deixa de ser um hobby e passa a ser uma missão de vida e uma carreira profissional. É o caso de Rafael Nino, fundador e diretor da Have Dreams (@estudiohd), localizada na Asa Norte, cuja trajetória começou na periferia do Distrito Federal. "A dança surgiu na minha vida desde criança, a partir da minha mãe vendo alguns filmes. Aí veio Michael Jackson, com muita influência, e em 1998 eu tive a oportunidade de entrar em um grupo chamado Egípcios, em Ceilândia Norte. Ali começou a minha vida mesmo com a dança", relembra Nino.

Em 2010, o desejo de expandir esses horizontes o levou a criar seu próprio projeto, visando a profissionalização do setor. "Decidi abrir um grupo meu com o intuito de viver disso. Queria criar possibilidades para as pessoas que estavam ali, para a gente não se resumir a um grupo que vai fazer apresentações, mas podermos dar aulas, ensinar outras pessoas. O projeto veio dessa necessidade de profissionalizar e de mostrar que isso também é uma profissão. Nós saímos de Ceilândia Norte e conseguimos chegar no Plano Piloto fazendo isso."

Atualmente, a Have Dreams aposta na diversidade de ritmos para atrair o público. Jazz, funk, dancehall, house, hip-hop e heels, que é uma dança de saltos, são alguns dos estilos oferecidos pelo espaço. E ainda tem o balé, hoje de forma mais tímida, mas com algumas turmas que devem crescer com o passar do tempo. Para os praticantes, a dança funciona como um refúgio e uma forma autêntica de expressão. O jovem Francisco Robson Alves de Lima, 28 anos, encontrou no ritmo a sua identidade desde a infância.

"Meu amor pela dança começou ainda quando pequeno, imitando os DVDs da Beyoncé. Entrei na dança porque sempre senti que era uma forma de me expressar de verdade. Começou como algo que eu gostava, mas aos poucos virou uma parte muito importante da minha vida. A dança me trouxe propósito, conexão comigo mesmo e também oportunidades de crescimento pessoal e profissional", conta Francisco, que se vê mais livre para dançar no hip-hop. 

Ele relata que os impactos positivos são sentidos diariamente no bem-estar mental. "Fisicamente, a dança me ajuda muito com resistência, disciplina, consciência corporal e preparo físico. Mentalmente, é onde consigo descarregar sentimentos e me sentir mais leve. A dança acaba sendo uma terapia também, porque me ajuda a enfrentar momentos difíceis e a manter o equilíbrio emocional", detalha.

Arquivo pessoal - Francisco é apaixonado pelo universo da dança

O poder social 

Para vencer a timidez e superar a socialização, Thiago da Silva Quintiliano, sócio da escola Muvon Dance (@muvondance), localizada no Sudoeste, usou o amor pela dança para fazer disso sua missão de vida, em 2008. "O espaço foi idealizado por dois amigos e, posteriormente, acabei entrando na sociedade. O nosso intuito sempre foi promover o bem-estar físico, social e mental de todos. Com o tempo, percebemos que as pessoas nos procuram muito mais pela convivência e pelo aspecto social do que apenas para aprender a dançar", conta Thiago.

A escola oferece ritmos que vão do forró, samba, bolero e zouk, até estilos internacionais, como salsa, bachata, kizomba, tango e o heels dance. Ele reforça que os benefícios da atividade têm forte embasamento científico: "A meta-análise Effect of Dancing Interventions on Depression and Anxiety Symptoms mostra que a dança se destaca por unir o exercício ao estímulo cognitivo e à expressão emocional. Portanto, a dança melhora a saúde mental por meio do exercício físico, estimula a interação e aprimora a socialização", comenta o idealizador. 

E quem sabe bem desses benefícios é Romário Araújo da Rocha, 38, que está presente na Have Dreams. O início na dança aconteceu de forma despretensiosa, em 2020, motivado por um relacionamento amoroso com alguém que já dançava. "Desde então, eu me apaixonei por este mundo mágico e levo como estilo de vida até hoje. A atividade me traz muitos benefícios: melhorei minha coordenação, flexibilidade, postura corporal, equilíbrio e me sinto muito mais leve depois que passei a conhecer melhor o meu corpo quando estou dançando", celebra.

Os reflexos psicológicos também foram transformados durante o processo. "Além de me proporcionar bem-estar, sou uma pessoa alegre, extrovertida, menos ansiosa, com a autoestima lá em cima. Eu me sinto mais confiante, mais ativo e de bem com tudo", afirma.
O praticante revela sua paixão pelo ritmo nordestino e seus planos futuros. "Minha dança preferida é o forró. Porém, sou apaixonado por todos. É desafiador dominar ritmos variados e isso me atrai. Ser um profissional reconhecido é meu objetivo e, por isso, estou decidido e investindo nesse propósito."

Reprodução/ Instagram (@muvondance) - Na Muvon Dance existem vários estilos de dança

Benefícios

A professora de educação física do Centro Universitário de Brasília (CEUB) Leandra Batista confirma a eficácia da dança no emagrecimento, destacando a constância como fator primordial para a perda de peso. "A prática já se diferencia pela sua alta eficiência energética, amplamente consolidada na literatura, mas, principalmene, pelo prazer que proporciona. Muitas vezes, exercícios físicos como a musculação podem ser entediantes e ter menor adesão. E sem constância, não há resultado", esclarece a especialista. 

Leandra aponta que os benefícios vão muito além do que mostra a balança. "Um estudo com mulheres de meia-idade e idosas mostrou que a prática regular de dança reduziu não apenas o peso e o Índice de Massa Corporal (IMC), mas também o percentual de gordura corporal, a frequência cardíaca em repouso, a pressão arterial, o colesterol e os triglicerídeos, além de melhorar a capacidade pulmonar", complementa. 

Assim, trata-se de um pacote completo para a saúde metabólica. Isso, sobretudo, se houver frequência e regularidade, sem deixar a dança de lado. "Seis semanas de sessões estruturadas já são suficientes para produzir melhorias na composição corporal e na função cardiovascular equivalentes às de outros tipos de exercícios O segredo está em encontrar um movimento que você queira repetir",  discorre Leandra. 

No campo neurológico, a professora ressalta que o impacto é profundo e capaz de retardar o envelhecimento cerebral. "Um estudo realizado com idosos mostrou redução significativa da depressão, além de melhora na motivação, na memória, na cognição social e na redução do sofrimento emocional. A dança induz a neuroplasticidade ao combinar exercício aeróbico — que aumenta o fluxo sanguíneo cerebral e libera proteínas essenciais para a sobrevivência e a manutenção dos neurônios — com desafio cognitivo, interação social e estimulação sensorial."

Reprodução/ Instagram (@muvondance) - Romário tem o forró como seu ritmo preferido

 


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