
Especial para o Correio — Ricardo Pereira
O Bar do Bigode é conhecido entre seus frequentadores como o pior boteco da cidade, mas tem uma freguesia fiel. Difícil entender. É mínimo, espremido entre uma loja de pet e outra de umbanda e tem apenas duas ou três mesinhas e algumas cadeiras enferrujadas na calçada. Fica numa comercial da Asa Norte, voltado para a quadra residencial, mas o endereço não posso revelar, sob pena de ser eternamente exilado do estabelecimento.
Serve apenas duas marcas de cerveja ordinária e uma cachaça de barril, o Flagelo do Norte, que só os mais corajosos vez por outra enfrentam. Bigode, um sujeito corpulento e de poucas palavras, dispensa ajudantes e faz todo o serviço da casa, que basicamente consiste em cobrar dos fregueses. Eles próprios se servem das cervejas no único freezer, sob o olhar vigilante do proprietário, munido de um caderno de anotações.
Todos sabem: pagamento só em dinheiro. Bigode é um homem conservador e resiste a modernidades como cartões de crédito, de débito ou pix. "Dinheiro bom é em papel. Que eu posso ver, pegar e guardar na gavetinha", argumenta o nosso herói. O boteco não tem cardápio e o único alimento possível é amendoim, que o próprio Bigode torra e exagera no sal.
Nos cantos das paredes encardidas, algumas teias de aranhas parecem fossilizadas. Os fregueses se divertem ao contar a história de uma barata que foi vista entrando com muito cuidado no mictório, asinhas levantadas e nas pontas das patinhas, com nojo do sórdido cubículo.
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No balcão de madeira encardida em que alguns se escoram para ouvir a conversa alheia e por trás de onde o Bigode faz contas intermináveis e rosna reclamações, dorme esquecido um pano que ninguém ousa tocar. Deveria servir para limpar as mesas.
Mas outro dia o pessoal notou que o Bigode estava diferente, bem-humorado e solícito. O homem tinha feito a barba, deixando apenas o bigode, afinal marca-registrada. Parecia até cheirosinho. Chegaram a ouvi-lo assobiando uma música do Roberto. Logo se soube o motivo: estava namorando.
Ele acabou contando a uns e outros que a moça começava o último ano de gastronomia e tinhas algumas ideias para melhorar o botequim. Chope artesanal, gin tônica, Aperol, bolinhos de rabada, dadinhos de tapioca com melado e outras delícias. Além, é claro, de uma faxina geral no ambiente, que seria "repaginado". Bigode tentava aparentar animação, mas era evidente que escondia seus temores.
A notícia se espalhou e o pânico foi geral. A rapaziada formou uma comissão, que juntou coragem e foi pedir ao Bigode para deixar tudo como estava. Um dos integrantes do grupo explicou ao recém-apaixonado que tinha uma solução para ele não desagradar a namorada. Seu sobrinho, dono de um gastrobar no Sudoeste, topava conversar com a jovem e, quem sabe, contratá-la para a vaga de gerente.
Bigode reagiu aliviado e falou com a namorada, que gostou da ideia. O sobrinho do freguês acabou contratando a moça. Alguns bebuns mais maliciosos chegaram a insinuar que o Bigode estava sendo incauto e entregando de bandeja — coisa que não tem no seu boteco — a namorada para o tal sobrinho. Mas o tio tranquilizou: "O rapaz tem namorado. Gente fina. Funcionário concursado do BC".
Deu tudo certo. A namorada do Bigode vai muito bem como gerente no gastrobar do Sudoeste, que agora tem um trio de jazz ao vivo nas sextas e sábados. Bigode está mais leve e já aceita até pix. "É patrimônio nacional", explica ele. As baratas continuam a circular à vontade no boteco e a freguesia segue fiel e satisfeita.
Ricardo Pedreira é jornalista
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