Tomei a decisão de viajar para a Rússia no ano passado, apesar da guerra contra a Ucrânia, depois de conversar com um amigo diplomata que havia passado férias em Moscou. "A cidade está um espetáculo", resumiu. Pesquisei preços, roteiros e condições de viagem. Apesar do conflito fratricida e das sanções ocidentais, Moscou aparecia como um destino financeiramente acessível, comparável a Istambul ou ao Vietnã.
Estivera na antiga União Soviética em maio de 1990, quando o regime comunista agonizava. Assisti ao desfile do Dia do Trabalho na Praça Vermelha e vi milhares de manifestantes vaiando Mikhail Gorbachev diante do Mausoléu de Lenin. Em São Petersburgo, os comunistas estavam sendo desalojados do Instituto Smolny, quartel-general da Revolução de Outubro. A implosão da União Soviética ocorreria no ano seguinte.
Desde então, ouvira relatos contraditórios sobre a Rússia pós-soviética. Depois das privatizações selvagens de Boris Yeltsin, que produziram uma nova oligarquia econômica e profunda desorganização social, Moscou e São Petersburgo pareciam ter reencontrado estabilidade com o capitalismo de Estado, apesar do regime iliberal de Vladimir Putin e seus oligarcas. Resolvi conferir.
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A guerra da Ucrânia era um risco e uma possibilidade. Não existem voos diretos entre a Rússia e o Ocidente. Cartões internacionais não funcionam. Reservas de hotéis exigem pagamento em rubros no check-in. Nada, porém, era intransponível. Formamos um grupo de três casais: eu e Eliana Fachini, ortodontista de Brasília (DF); Stoessel Luiz Vinhas e Terezinha Lellis, educador e psicóloga de Uberlândia (MG); Flávio Fraislebem e Elza Fraislebem, engenheiro e terapeuta ayuverda, de Campinas (SP). Com seis meses de antecedência, compramos passagens e reservamos os hotéis. A rota era Lisboa, Istambul, Moscou e São Petersburgo.
A capital turca serviu de ponto de encontro do grupo. De lá, partimos para Moscou pela Turkish Airlines. As reservas de hotel foram feitas pelo Ostrovok, equivalente russo do Booking, com pagamento em rublos no check-in. Por indicação de amigos, contratamos como guia o historiador brasileiro Rodrigo Ianhez, residente em Moscou, estudioso da história soviética e tradutor para o português do famoso relatório de Nikita Kruschev denunciando os crimes de Stálin. Um dos donos de uma pequena agência de viagens no Brasil, a Estrela Vermelha, seu desempenho como guia foi decisivo para o sucesso da viagem.
Primeira parada: Moscou
Às vésperas da partida, um ataque de drones nos arredores de Moscou quase nos levou a desistir. Prevaleceu um cálculo de risco: em toda guerra, só morreram quatro pessoas nos arredores da capital russa; no estado do Rio de Janeiro, são 10 mortes violentas por dia. Depois de dois dias em Istambul, chegamos a Moscou em 25 de maio. O voo de quase quatro horas contornou o espaço aéreo da Ucrânia. A guerra parecia realmente distante da rotina da capital russa, talvez porque os ataques ucranianos visam principalmente a infraestrutura, talvez devido à censura oficial.
Iniciamos, então, uma intensa maratona turística, cultural, histórica e gastronômica. A transformação da cidade impressiona. Modernos arranha-céus contrastam, sem agredir nem substituir, a arquitetura medieval, imperial e stalinista. Moscou está limpa, organizada, arborizada e muito segura. O metrô continua sendo uma das maravilhas urbanísticas do mundo, com verdadeiro palácio subterrâneos, como as estações Mayakovskaya, Kievskaya e Konsomolskaya, com seus lustres de cristal, dourados, mosaicos e estátuas do chamado "realismo socialista". Algumas estações são tão profundas que as escadas rolantes parecem uma viagem ao centro da Terra. O centro histórico foi restaurado com cuidado e os parques são amplos e bem conservados.
Mas a grande atração continua sendo o conjunto arquitetônico da Praça Vermelha. Percorremos o coração simbólico da Rússia. Ali estão o Kremlin, a Catedral de São Basílio, o Mausoléu de Lenin e o GUM, transformado em sofisticado centro comercial. Visitamos a Galeria Tretyakov, que reúne a maior coleção de arte russa, incluindo obras de Kandinsky, Chagall e Malevich.
Além de flanar pela famosa Rua Arbat, que nessa época do ano ostenta floridos jardins no seu calçadão, fomos ao Museu da Grande Guerra Patriótica, ao espetacular Museu Memorial da Astronáutica e assistimos ao balé Cinderela no icônico Teatro Bolshoi, um templo do balé clássico. Coreografado originalmente por Rostislav Zakharov com a magnífica trilha sonora de Sergei Prokofiev, a obra estreou em 1945 no Teatro Bolshoi, porém, a polêmica versão moderna que presenciamos, longe da tradição de seu balé clássico, foi frustrante. O espetacular Balé Folclórico Igor Moiseyev, que assistimos antes, para a maioria de nós, foi mais interessante.
A gastronomia foi uma agradável surpresa. Os restaurantes combinam tradição russa, gastronomia das antigas repúblicas soviéticas e o refinamento contemporâneo. O ponto alto foi o jantar no restaurante Sakharin, com cardápio inspirado no Extremo Oriente. Rodrigo cuidou dos ingressos, transportes e reservas. Mais do que guia, foi um professor de história em tempo integral. Todo ano organiza excursões para as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central, como Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão, por ocasião dos jogos nômades, e para outro destino exótico: uma viagem pela Transiberiana, a maior ferrovia do mundo, com visita a oito cidades, de Moscou a Vladivostok, no Mar do Japão.
O Kremlin e a Praça Vermelha
Engana-se quem pensa que o gabinete do presidente russo Vladimir Putin é o mais imponente do Kremlin. Não chega nem perto dos salões do Museu das Armas. O acervo reúne 4 mil objetos que datam do século 12 até 1917. Os mais interessantes estão no Salão II, onde se destaca a coleção de 10 ovos de Páscoa de Fabergé , criados para os czares pelo fabuloso joalheiro Peter Carl Fabergé, que se tornou o ourives da corte em 1885. O mais impressionante é o ovo de prata no qual foi gravado um mapa com o trajeto da Ferrovia Transiberiana. A “surpresa” no interior dessa peça é uma miniatura dourada de uma locomotiva, com janelas de cristal e um pequenino rubi figurando como farol.
É preciso comprar um ingresso à parte para ver as impressionantes joias da coroa dos Romanov na Almazny Fond (Câmara dos Diamantes), entre as quais o cetro de Catarina, a Grande, encimado pelo diamante Orloff, um presente do conde Orloff, seu amante, e sua coroa, incrustada de diamantes. Lá também está o diamante Xá, que o czar Nicolau I recebeu de presente do xá do Irã.
Mas nada se comparar à sensação de parar no centro da Praça Vermelha. O conjunto arquitetônico antecede à Revolução de 1917, mas a praça acabou associada ao comunismo e aos desfiles militares do Exército soviético. A oeste se avista o Kremlin e o Mausoléu de Lenin, onde o corpo embalsamado do líder comunista russo permanece exposto à visitação pública.
Na extremidade mais distante da praça situam-se os pináculos e as cúpulas em forma de cebola da Catedral de São Basílio, uma das construções mais conhecidas de Moscou, erguida por ordem de Ivan, o Terrível em meados do século 16. Do lado oposto ao Kremlin, avista-se o GUM (iniciais em russo de “Loja de Departamentos do Estado”), que lembra as grandes estações ferroviárias europeias, com suas estruturas de aço e vidro, herança também do czarismo. Com o capitalismo, as antigas e mal abastecidas lojas estatais soviéticas foram substituídas por franquias de grandes marcas do Ocidente; depois da guerra da Ucrânia, com o bloqueio econômico, as lojas mudaram de nome, mas mantiveram o luxo e, em alguns casos, os mesmos produtos importados.
GASTRONOMIA
Sakharin ($$$$), Moscou — Frutos do mar e visão panorâmica
Smolenskaya St., 8 Azimut Hotel, Moscou 121099
Tel: +7 495 647-64-79
Duo Ásia ($$$) — Asiática contemporânea e fusion
Rubinshteyna St., 20 segundo andar, São Petersburgo 191002
Tel: +7 911 928-81-89
A elegância de São Petersburgo
O destino seguinte foi São Petersburgo. Na plataforma de chegada do trem, nos recebeu a tradutora e guia turística Nádia Khristova, que fala português fluentemente. A antiga capital imperial possui atmosfera muito diferente de Moscou. Menos monumental e mais elegante, planejada por Pedro, o Grande, para ser uma porta para o Ocidente, influenciou a reforma de Paris, a construção de Manhattan e outras reformas urbanas pelo mundo, como a Pereira Passos, no Rio de Janeiro. Para nossa alegria, nosso grupo foi ampliado pelo humorista Marcelo Madureira, Cláudia e Patrícia, a filha do casal, que mora e trabalha em Amsterdam. A partir daí, a viagem ficou ainda mais divertida.
Começamos pelo magnífico Teatro Mariinsky, onde assistimos, agora sim, um clássico do balé russo: O Lago dos Cisnes, de Piotr Ilitch Tchaikovski. No dia seguinte, formos ao Museu Hermitage, um dos maiores do mundo, instalado no magnífico Palácio de Inverno. No novo Hermitage, está a maior coleção de impressionistas franceses e de peças do famoso joalheiro Peter Karl Fabergé. A Fortaleza de Pedro e Paulo, a Igreja do Salvador do Sangue Derramado, e o Palácio de Catarina, onde se encontra a lendária Sala de Âmbar, toda restaurada após a Segunda Guerra Mundial.
Estávamos no Palácio de Peterhof, a Versalhes de Pedro, o Grande, defronte ao Mar Báltico, quando houve o ataque de drones a uma refinaria nos arredores de São Petersburgo. Soubemos pelas mensagens preocupadas dos amigos, alarmados pelas notícias das agências internacionais, e confirmamos com a tradutora. Mas nada vimos nem ouvimos sobre as explosões, exceto algumas nuvens mais carregadas ao passear pela famosa Avenida Nevsky.
A vida em São Petersburgo, por causa das Noites Brancas de junho, nessa época do ano, é uma grande festa. A Avenida Nevsky permanece como a alma da cidade. A gastronomia é diversificada, com destaque para as culinárias russa tradicional, a georgiana e a uzbeque. A cozinha contemporânea foi muito bem representada pelo restaurante Duo Asia, cujo chef nos atendeu pessoalmente. Os passeios pelos canais de São Petersburgo nos dão a dimensão urbana e histórica da cidade e justificam plenamente o apelido de "Veneza do Norte". Nos dias em que a cidade não escurece, São Petersburgo parece suspensa entre o dia e o sonho. Como em Moscou, a cidade esquece a guerra.
O trauma da guerra
Poucas cidades concentram tanta história, arte, literatura e poder quanto Moscou e São Petersburgo. Visitar ambas é percorrer séculos da trajetória russa — de Ivan, o Terrível, a Pedro, o Grande; de Tolstói e Dostoiévski à Revolução de 1917; da Guerra Fria à Rússia contemporânea. A guerra da Ucrânia é uma ferida aberta. Mas a vida segue. Cafés, museus, teatros e parques estão cheios. Moscou e São Petersburgo exibem uma vitalidade que desafia os estereótipos e revelam um país muito mais complexo do que aquele retratado diariamente.
A guerra da Ucrânia também é um drama russo. O povo quer o fim do conflito, que já dura quatro anos. Nádia nos falou sobre esse trauma. Quase todas as famílias russas possuem parentes na Ucrânia, assim como famílias ucranianas têm parentes na Rússia. O conflito é vivido como uma dramática guerra civil, muito além da disputa geopolítica. Suas observações me fizeram lembrar o escritor judeu-russo Ilya Ehrenburg, correspondente de guerra na batalha de Stalingrado e autor de Moscou não crê em lágrimas (Editora Vitória), que fala dos amores, das frustações, da resiliência e das esperanças de três mulheres russas. O título acabou sintetizando minha impressão da viagem.
Ao longo da história, russos e ucranianos enfrentaram invasões, revoluções, guerras civis e enormes perdas humanas. Somente na Segunda Guerra Mundial morreram cerca de 20 milhões de soviéticos. Essa memória coletiva ajuda a compreender a resiliência que ainda hoje marca as sociedades russa e ucraniana. Entretanto, desta vez não se trata de uma guerra defensiva contra os nazistas, mas de uma invasão russa.
Rússia e Ucrânia compartilham uma história comum desde o Principado de Kiev, de Vladimir I, que os converteu ao cristianismo ortodoxo, e Jaroslau, o Sábio, que criou o primeiro código de leis eslavo e construiu a monumental Catedral de Santa Sófia na capital ucraniana. Autores ucranianos, como Nicolau Gogol, autor de Almas Mortas e Inspetor Geral, e Vassili Grosmann, autor de Stalingrado e Vida e Destino, estão entre os maiores da literatura russa.
O Hermitage
Um visitante precisaria de cerca de nove anos para dar uma olhada, por mais breve que fosse, nas 150.000 obras no interminável labirinto do Museu Hermitage, o famoso Palácio de Inverno que foi palco da Revolução de 1917, com suas mais de 1.000 salas — e mesmo assim ele estaria vendo somente 5% do acervo! A altíssima qualidade de suas coleções (24 Rembrandts, 40 Rubens — só para dar um exemplo) é realçada pela incrível beleza dos próprios salões: o Hermitage foi o Palácio de Inverno de todos os czares e czarinas desde Catarina, a Grande.
Assoalhos com padrões elaborados, lustres de cristal, trabalhos de marchetaria, tetos com pinturas, objetos de jade, lápis-lazúli e âmbar por pouco não ofuscam as obras de arte. Destaque para o Salão de Malaquita, quase que inteiramente decorado com essa pedra verde extraída de minas nos Urais.
Palácios de Pedro e de Caterina
Petrodvorets era a “janela para a Europa” do czar Pedro, o Grande. Ele o ergueu seu palácio defronte ao Mar Báltico no início do século XVIII para que a arquitetura dessa construção e a vida social de sua corte fossem comparáveis às de Versalhes e impressionassem a realeza europeia. Pedro traçou as linhas gerais do palácio de verão com 120 ha de jardins, com 66 fontes que funcionam por gravidade, 39 estátuas e 19 km de canais artificiais. Arquitetos e engenheiros franceses e italianos atuaram na sua construção.
Nos arredores de São Petesrburgo, também se encontra o Palácio da Catarina. Em 1710, Pedro, o Grande, presenteou sua futura esposa, Catarina I, com uma mansão chamada Sarskaya Myza. Mais tarde, em meados da década de 1750, foi reconstruído pelo arquiteto italiano Bartolomeo Francesco Rastrelli, para ser s residência de verão da imperatriz Elizabeth Petrovna, a filha de Pedro I e Catarina I, que gostava de exibir sua riqueza.
Durante a ocupação nazista, tanto o Peterhof quanto o Palácio da Catarina foram ocupados e saqueados pelos alemães. Durante os quase 900 dias de cerco que sofreu durante a Segunda Guerra, a então Leningrado esteve perto de ser aniquilada pelas tropas alemãs. Ambos foram reconstruídos após a guerra.
No Palácio da Catarina, entre seus luxuosos salões, destaca-se a Câmara de Âmbar. Luminoso e frágil, o âmbar é uma resina fossilizada cobiçada para a fabricação de objetos reais e religiosos na Europa Oriental. As paredes revestidas por seis toneladas de âmbar e adornados com folhas de ouro, mosaicos e espelhos foram inteiramente saqueados e levado para a Alemanha. O paradeiro é um mistério até hoje. Mas a sala foi inteiramente restaurada, com todo a sua riqueza em âmbar e ouro.
Uma aventura no Expresso Transiberiano
Para quem gosta de aventura e dispõe de tempo e recursos para isso, a mais longa estrada de ferro contínua do mundo proporciona uma das maiores viagens do planeta. O Expresso Transiberiano percorre mais de 9.600km — um terço do diâmetro da Terra — e cruza áreas com sete fusos horários diferentes entre Moscou e Vladivostok, no Mar do Japão, que era um lugar fechado aos estrangeiros e à maioria dos russos durante a era soviética.
Uma das maiores obras de engenharia do século 20, a ferrovia atravessa quatro biomas: a taiga, a estepe, o deserto e as montanhas. No passado a viagem épica durava meses; hoje, a aventura pode ser feita em até duas semanas em vagões modernos e confortáveis. Rodrigo, nosso guia, todo ano organiza uma viagem em agosto, partindo de Moscou ou São Petersburgo. A aventura dura 25 dias e 24 noites, com paradas em Kazan e Ekaterinburgo (dois dias cada), Novosibirsk, Irkutsk, Lago Baikal, Ulan-Ude, Buriátia, Khabarovsk (três dias) e Vladivostok, cruzando toda a Sibéria até o Extremo Oriente.OX
Serviço
Data: Moscou, 03/08/2026 a 27/08/2026; opcional: São Petesburgo, de 25 de junho a 31 de julho de 2026
Custo: € 3.199,00* (em até dez parcelas sem juros) ou 10% de desconto caso o pagamento seja à vista no PIX.
Contato: Estrela Vermelha Viagens (estrelavermelha.com)
Telefone: +55 (85) 99185-5505
A viagem é feita em vagões de segunda classe, com cabines para quatro pessoas, mas também há possibilidade de reservar cabine de duas pessoas na primeira classe. As passagens aéreas não estão incluídas.
*O valor é convertido na cotação do Euro Turismo + IOF no valor de R$ 6,35.
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