
Em um mundo que valoriza a velocidade, a produtividade e as notificações constantes, um movimento silencioso tem seguido na direção oposta. Agulhas, novelos, bastidores e linhas voltaram a ocupar espaço nas casas, nas rodas de conversa, nas bibliotecas, nas passarelas e até nas redes sociais. O fazer manual, antes associado principalmente às gerações mais velhas, ganhou novos significados e hoje atrai jovens, artistas, empreendedores e pessoas que buscam uma pausa em meio à rotina acelerada.
O crochê deixou de ser apenas lembrança das mantas feitas pelas avós para vestir celebridades, aparecer em coleções de grandes marcas e inspirar pequenos negócios espalhados pelo país. O bordado ganhou linguagem contemporânea e virou arte. O tricô encontrou espaço entre adolescentes. A costura voltou a ser descoberta como hobby, profissão e ferramenta de expressão. Mais do que uma tendência estética, o retorno das manualidades revela uma mudança de comportamento: todas elas exigem tempo, concentração e presença.
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Foi a necessidade que levou a brasiliense Tamara Souza, 25 anos, a transformar o crochê em profissão. Ao lado da irmã, Slanvy Souza, 20 anos, ela criou uma marca que hoje traduz identidade, criatividade e pertencimento por meio das peças produzidas artesanalmente. "A marca Slanvy nasceu de um momento de necessidade. Eu já sabia fazer crochê e comecei a confeccionar alguns tops para o carnaval durante a pandemia", conta. A relação com as agulhas começou muito antes: "Eu aprendi a crochetar com 6 anos de idade com a minha mãe, mas também fiz cursos durante a infância em institutos da Estrutural", diz.
Para Tamara, o crochê nunca ficou preso ao passado. "É uma matéria-prima que se adapta. Materiais, pontos, formatos e cores podem se adaptar e se transformar em peças clássicas, bem como se encaixar na moda atual", afirma. "As técnicas vão se aprimorando ao longo dos anos conforme a necessidade surge. Uma mesma crocheteira pode vestir desde princesas até jovens periféricos", destaca.
As peças carregam referências das próprias criadoras. "A identidade surge do local onde vivemos, das nossas vivências na periferia. Nossos amigos e clientes nos ajudam a ter uma ideia do que somos de fato", reforça. Ela vê tradição e inovação como aliadas: "Usando os pontos tradicionais, eu crio peças autorais que inovam o cenário do crochê", diz.
Segundo Tamara, o valor está justamente no que a indústria não alcança. "As indústrias ainda não foram capazes de criar uma máquina que faça o crochê. E não foi por falta de tentativa. Mas o crochê é um trabalho imprevisível, em que você precisa achar novas soluções a cada momento. O desejo pelo artesanal surge da falta que o industrial causa quanto à durabilidade e à versatilidade", analisa.
Bordar o tempo, costurar memórias
É o caso da artesã Roberta Ferreira Barros, que encontrou no bordado muito mais do que uma atividade manual: uma forma de expressão, um refúgio criativo e, mais recentemente, uma profissão. "Eu comecei a me interessar pelo bordado livre em 2013, quando vi nas redes sociais um grupo de jovens se encontrando para bordar juntas! Era um bordado bem contemporâneo, em um formato diferente do que a gente costumava ver (pano de prato, toalhas e almofadas) porque os bordados viravam quadros decorativos no próprio bastidor", conta.
Só anos depois concluiu o primeiro trabalho: "Em 2020, uns dias antes da pandemia se tornar uma realidade para nós no Brasil, eu comprei o material, fiz um desenho no tecido e, pela primeira vez, fiz um bordado do começo ao fim, e nunca mais parei", relata.
"Durante a pandemia e no período do doutorado foi o meu hobby, meu descanso, uma válvula de escape criativa para o estresse, mas foi só em 2024 que eu vi a possibilidade de transformar o bordado em fonte de renda", relata. "Aceitei algumas encomendas, mas sem saber nada sobre negócios, sobre precificação, atendimento, embalagem… eu só sabia bordar mesmo", diz.
A relação com os trabalhos manuais vem de família. "A minha avó paterna era artesã, fazia crochê, tricô, tapeçaria, pintura. Eu cresci vendo ela crochetando tapetes enormes e tricotando roupas para os netos, mas quando eu era criança não tinha interesse em ficar sentadinha mexendo com linhas", diz. "Eu fui perceber a importância do saber manual só depois de adulta mesmo, tanto na saúde mental, porque é bom demais para a autoestima, como modo de vida, pois pode ser uma fonte de renda", reflete.
Aprendeu a técnica sozinha, pela internet: "O bordado eu aprendi assistindo a vídeos no YouTube, depois fazendo cursos on-line bem organizados, com uma boa didática, com passo a passo para projetos específicos. Depois, eu fui adaptando para o que eu queria bordar, para o meu estilo e, assim, acabei desenvolvendo o meu próprio", reflete.
Para Roberta, o bordado ocupa um lugar especial no imaginário das pessoas. "Isso diz muito sobre a posição do bordado no mundo do consumo de produtos, porque é algo que as pessoas consideram muito especial, tão especial que dificilmente alguém encomenda um bordado para si próprio, é sempre para presentear, porque veem como um objeto de luxo, carregado de emoção, que traz consigo uma mensagem para além do produto", destaca.
Uma única obra pode consumir quase uma semana de trabalho. "Para criar uma ilustração bordada, eu levo cerca de cinco dias de trabalho só bordando esse desenho. Quando eu faço a mesma ilustração, só que digital, em um tablet ou no computador, eu levo algumas poucas horas", compara. Ainda assim, nem sempre esse tempo é percebido: "O tempo que uma peça demora para ser feita não necessariamente vai ser reconhecido como um fator que agrega valor, a não ser que fique muito óbvio, por meio do nível de detalhe e de refinamento, que o produto levou muito tempo para ser feito", diz.
Hoje, Roberta trabalha principalmente com bordado realista em duas modalidades. O fineline é como se fosse uma ilustração de nanquim no papel, só que usando tecido como base e a linha de costura como tinta. Na pintura de agulha, a artesão usa muitas cores de linha para criar uma imagem realista com sombra, luz e volume. "É como se estivesse pintando um quadro, mas, no caso, o meu pincel é uma agulha", explica.
Uma comunidade entre novelos
Quando decidiu mudar completamente de carreira, Viviane Rodrigues não imaginava que o hobby que a acompanhava depois do expediente se transformaria em um ponto de encontro para centenas de pessoas em Brasília. "Sempre gostei de trabalho manual. Era jornalista, cobria política e economia e costurava como hobby. Até que tive um burnout e resolvi mudar o rumo da minha vida profissional", lembra.
Depois de pedir demissão, mudou-se para os Estados Unidos, onde conheceu um conceito que mudaria seus planos: "Morei três anos em Washington DC, e lá conheci um conceito novo para mim, o das LYS, as local yarn shops. Era algo que lembrava os nossos tradicionais armarinhos, mas com uma carinha de boutique e uma curadoria mais cuidadosa dos fios e produtos", conta.
Ao voltar, a decisão já estava tomada: abriu a Casa da Vivi, loja inaugurada em 2019. A pandemia acelerou o negócio. "Naquele momento, muitas pessoas se interessaram por aprender tricô, crochê ou costura", justifica. "Passei a oferecer cursos e produtos on-line e, assim, conquistei novos clientes. Tenho orgulho disso, pois sei que as manualidades ajudaram muitas mulheres a atravessarem aquela fase difícil de tanta ansiedade e incertezas", relata.
Viviane percebeu que as pessoas buscavam pertencimento. "Entendi que o que as pessoas queriam eram formar comunidades e desejavam pertencimento. O manual é perfeito para isso", reforça. Hoje, a loja atende públicos variados: "Atendemos desde idosas até crianças e adolescentes. Aos sábados de manhã, por exemplo, temos uma turma de crochê apenas para jovens. É uma maravilha ver o que essas meninas produzem", diz.
Para ela, há uma satisfação que nenhuma tela reproduz. "Os processos são lentos e, ao terminar as peças, há o prazer incomparável de poder dizer: 'foi feito por mim'", afirma. E a ciência confirma os benefícios: "Falando especificamente do tricô, que é minha especialidade, podemos afirmar que os movimentos repetitivos dos pontos coordenados com a leitura atenta das receitas ajudam a manter o cérebro em uma atividade saudável. Há uma espécie de meditação ativa, em que atenção, foco, concentração e relaxamento caminham juntos", explica.
Mais do que agulhas e linhas
Na Biblioteca Escolar Comunitária Valéria Jardim, em Brasília, o crochê ganhou um significado ainda maior. Ali, as agulhas dividem espaço com livros, poemas e histórias de vida. A coordenadora Sandra Emília Barros de Sousa conta que o projeto nasceu para ampliar o papel da biblioteca dentro da comunidade.
"A ideia nasceu do desejo de transformar a Biblioteca Escolar Comunitária Valéria Jardim em um espaço cada vez mais aberto à comunidade. A ideia era mostrar que a biblioteca vai muito além dos livros: ela pode ser um lugar de convivência, aprendizado e troca de experiências", explica. "O crochê surgiu naturalmente, por ser uma prática acessível, afetiva e capaz de reunir pessoas de diferentes idades em torno de um mesmo propósito: aprender, ensinar e conviver", diz.
Para Sandra, literatura e artesanato compartilham a mesma essência. "Assim como os livros preservam histórias e saberes, o crochê também carrega uma tradição passada de geração em geração. Unir estas duas culturas faz muito sentido, porque fortalece a cultura, incentiva a convivência e aproxima a comunidade", afirma.
Muitos participantes procuram mais do que aprender uma técnica. "Na última turma, tivemos participantes que vieram por orientação médica, utilizando o crochê como uma atividade complementar para promover o bem-estar e estimular a saúde mental, inclusive em casos de demência e doença de Alzheimer", destaca. "O projeto fortalece vínculos, cria amizades, melhora a autoestima e oferece um momento de bem-estar em meio à rotina. Muitas pessoas chegam procurando aprender crochê, mas acabam encontrando um espaço de acolhimento, escuta e pertencimento", resume.
Os encontros inspiraram até uma iniciativa literária. "Aproveitamos esse rico compartilhamento de histórias para aproximar a literatura da arte do crochê, incentivando as participantes a registrarem suas memórias e experiências por meio da escrita. Ainda este ano lançaremos um livro de contos escritos pelas próprias participantes", conta.
Entre tantas histórias, uma marcou Sandra especialmente. "Uma das participantes nos contou que era muito tímida, enfrentava um quadro de depressão e tinha dificuldade em encontrar um propósito para a vida. Quando chegou ao grupo, buscava apenas uma atividade para ocupar o tempo, mas encontrou muito mais do que isso. Hoje, ela se sente feliz, conquistou uma profissão confeccionando peças de crochê, criou laços de amizade e, o mais bonito: passou a ensinar outras pessoas", relata.
Entre tradição e inovação
Especialistas afirmam que esse movimento está longe de ser apenas uma moda passageira. A física, professora e pesquisadora Anna Elisa de Lara encontrou no bordado um caminho para unir ciência e criatividade. "Venho de uma família que cultiva diversos tipos de manualidades e já tinha contato com bordado em ponto cruz desde a adolescência. Mas o bordado livre só chegou na minha vida em 2019, durante um período difícil no puerpério do meu primeiro filho. Ali, o bordado livre me resgatou. Ele me ajudou a encontrar o caminho de volta para mim mesma, num momento em que eu não me reconhecia mais", relembra.
Durante a pandemia, notou uma dificuldade comum entre bordadeiras: escolher e combinar cores. Sua formação em física apontou uma solução. "Como sou mestre em ensino de física, comecei a pensar sobre formas de estudar isso, sistematizar, criar um método e facilitar o acesso a esse conhecimento", diz. A ideia virou um aplicativo que mediu, com um colorímetro, as 444 cores da principal marca de linhas do Brasil. "Paramos de escolher cores na sorte e passamos a ter um caminho objetivo que nos leva à harmonia", afirma.
Para ela, tecnologia e artesanato podem ser aliadas. "A tecnologia pode não apenas oferecer formas de facilitar os processos mais desgastantes, como a criação dos riscos ou a escolha de cores. Mas, principalmente, aproximar os entusiastas do conhecimento e da oportunidade de começar uma nova atividade", afirma. "Vejo a busca por atividades manuais como uma forma de reencontro, de resgate do prazer de fazer e de criar. Essas atividades devolvem a regulação, proporcionam benefícios semelhantes à meditação, permitem a expressão humana criativa e contribuem para a saúde mental", explica.
Replicando tendência
Já para a consultora de imagem e designer de moda Niágara Tavares, o retorno do artesanal acompanha transformações no consumo. "A moda é um fenômeno que reflete um comportamento social", diz. "Se as passarelas trazem o handmade como microtendência, em termos de comunicação visual, a réplica dessa tendência é imediata para a massa", destaca. Ela cita a Copa do Mundo de 2026: "Aqui no Brasil, grande parte da população faz renda com artesanato, algo forte em nossa cultura, e teve destaque agora na Copa com a trend Brasilcore, que evidencia as potências do nosso país, e as manualidades são uma delas", afirma.
Para Niágara, escolher uma peça feita à mão é também um posicionamento. "Valorizar o slow fashion é respeitar o tempo de produção de uma peça, a cadeia produtiva e a valorização de todos os profissionais envolvidos nela até chegar na peça pronta para uso", diz. "Esse lifestyle passa pela roupa em expressão de identidade, atravessa os hobbies e as manualidades para fazer fora da tela, o que culmina em muitos jovens se reunindo em clubes do crochê ou grupos de leitura e crochê", observa. Ainda assim, pondera sobre o consumo: "Que o crochê e o artesanal são atemporais quando se trata de tendência, já sabemos. Mas, em termos de consumo, infelizmente não tenho tantas esperanças, pois requer uma reeducação mundial", afirma.
O coordenador do curso de psicologia do Centro Universitário Uniceplac, professor Wladimir Rodrigues da Fonseca, explica o sucesso das manualidades pelo modo de vida contemporâneo. "Porque essas atividades oferecem exatamente o que a vida digital tira da gente. O celular vive nos puxando para todos os lados, com notificação atrás de notificação. O trabalho manual faz o caminho contrário: é uma coisa de cada vez", afirma.
Para ele, os benefícios emocionais são consistentes. "As pessoas relatam mais calma, melhora no humor e até a sensação de pensar com mais clareza. O ato de criar ajuda a tirar a pessoa daquele turbilhão de pensamentos repetitivos, dá uma sensação de controle e competência e ajuda a transformar uma angústia difusa em algo organizado e concreto", diz. "O tricô e o crochê são quase perfeitos para isso, porque misturam o movimento repetido, que embala, com o pequeno desafio de cada ponto, que mantém o interesse", explica.
Há, ainda, um benefício coletivo. "Esses grupos criam um espaço que não é nem a casa nem o trabalho, mas um terceiro lugar, onde a convivência acontece de um jeito mais leve. Quem sabe ensina, quem está começando aprende, e isso cria papéis, troca e vínculo", conclui.
Ao longo da reportagem, as histórias de artesãs, empreendedoras, professoras e pesquisadoras mostram que, embora utilizem linhas, agulhas, tecidos e novelos, todas costuram algo muito maior do que peças de roupa ou objetos decorativos. Elas criam memórias, fortalecem comunidades, preservam conhecimentos ancestrais e encontram, no ritmo paciente das mãos, uma forma de resistir à velocidade do mundo. No fim das contas, talvez o verdadeiro valor do fazer manual seja lembrar que algumas das coisas mais importantes da vida, como o afeto, o pertencimento e a criatividade, também são construídas ponto por ponto.

Revista do Correio
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