Especial

Julho das pretas: identidade, memória e futuro

Mês reforça a importância da identidade afro-latino-americana, homenageia Tereza de Benguela e destaca a luta histórica de mulheres que transformaram o Brasil e seguem abrindo caminhos para as próximas gerações

Lydia e Ialê Garcia  -  (crédito:  Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Lydia e Ialê Garcia - (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Julho é mais do que um mês de homenagens. Conhecido como Julho das Pretas, o período se consolidou como um momento de mobilização política, valorização da memória, fortalecimento da identidade e reconhecimento da contribuição das mulheres negras para a construção da América Latina e do Caribe. O ponto alto da celebração ocorre em 25 de julho, quando é comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, data criada em 1992 durante o 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana.

No Brasil, a data também marca o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, instituído em 2014. A homenagem reconhece a trajetória da líder quilombola que comandou o Quilombo do Quariterê, no atual Mato Grosso, durante o século 18, tornando-se símbolo da resistência negra e da liderança feminina na luta contra a escravidão.

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    Para a cientista política Thais Cardoso, o 25 de julho representa um importante instrumento de reflexão sobre democracia, direitos e reconhecimento Arquivo pessoal

Mais de três décadas após a criação da data internacional, o debate sobre pertencimento, ancestralidade e representatividade segue crescendo. Para mulheres negras brasileiras, reconhecer-se, também, como latino-americana significa compreender que as histórias de colonização, escravidão, racismo e resistência ultrapassam as fronteiras nacionais.

Pioneirismo

A ativista Graça Santos, de 73 anos, acompanha essa construção desde o início. Militante do movimento negro desde 1976 e uma das fundadoras do Centro de Estudos Afro-Brasileiros (Ceab), primeira organização negra de Brasília, lembra que esse sentimento de pertencimento não fazia parte da formação da maioria das brasileiras.

"Por não ter essa formação (de letramento racial) nem no sistema educacional nem na sociedade, a maioria dos brasileiros e brasileiras não tinha o entendimento de ser uma mulher latino-americana. Comecei a ter este entendimento na militância negra", afirma.

Graça participou do histórico processo de redemocratização brasileira, integrou a Convenção Nacional do Negro e a Constituinte e foi uma das mulheres que assinaram o documento entregue aos constituintes em 1987. Entre as reivindicações defendidas pelo movimento estava o reconhecimento do racismo como crime inafiançável, incorporado à Constituição de 1988.

Para ela, as conquistas atuais são resultado de décadas de organização coletiva. "Foi mais uma luta do movimento de mulheres negras brasileiras a instituição das leis que criam o Dia Tereza de Benguela e o Dia da Mulher Negra. Essas datas são importantes, porque ajudam o povo brasileiro a conhecer sua história."

A trajetória de Graça também se conecta à própria história de Brasília. Nascida em Floriano, no Piauí, mudou-se para a capital ainda jovem, ingressou no Banco do Brasil, formou-se em psicologia pela Universidade de Brasília e, há 34 anos, mantém o primeiro salão afro da capital federal, o Afro N'zinga Cabelo e Arte. Hoje, segue atuando na Frente de Mulheres Negras do Distrito Federal.

Ao olhar para essa caminhada, ela resume o legado deixado pelas gerações anteriores. "Somos continuidade de nossos antepassados por um país verdadeiramente democrático."

Memória e mobilização

A cientista política Thais Cardoso destaca que o 25 de julho ultrapassa o caráter comemorativo e representa um importante instrumento de reflexão sobre democracia, direitos e reconhecimento. "O 25 de julho é uma data de celebração, mas também de memória, denúncia e mobilização política. Ela marca a importância das mulheres negras, afro-latino-americanas e caribenhas que fazem a sociedade girar todos os dias."

Para ela, a homenagem vai além das lideranças conhecidas nacionalmente e alcança mulheres que sustentam comunidades, famílias e redes de cuidado sem, muitas vezes, receber reconhecimento público. "Estamos falando das mulheres que vencem batalhas diárias e que, muitas vezes, não aparecem nos livros, nas homenagens ou nos espaços institucionais."

Na avaliação da pesquisadora, discutir essa data significa perguntar quem ocupa os espaços de poder, quem escreve a história e quem permanece invisibilizado. "Celebrar o 25 de julho é reconhecer que não há justiça social possível sem enfrentar o racismo, o sexismo e as desigualdades que estruturam a nossa região."

Embora o Brasil tenha desenvolvido uma identidade nacional muito própria, Thais acredita que as brasileiras começam a reconhecer, cada vez mais, sua inserção na América Latina. "A circulação de produções culturais, intelectuais e o diálogo entre mulheres negras de diferentes países têm ajudado a aproximar essas experiências. Hoje, é mais comum percebermos que compartilhamos histórias de colonização, escravidão, desigualdade e resistência."

A cientista política ressalta que autoras como Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento foram fundamentais para ampliar essa compreensão afro-latino-americana da identidade negra brasileira. "Essas referências mostram que a identidade das mulheres negras brasileiras não é construída apenas pela violência sofrida, mas também pela força histórica, pela produção de pensamento e pela capacidade de recriar caminhos."

Afro-latinidade

Para a consultora de imagem e palestrante Lorena Moraes, esse reconhecimento também foi amadurecendo ao longo da vida. "Acho que por muito tempo eu me reconheci primeiro como mulher negra brasileira. Mas, com o amadurecimento, fui entendendo que a minha história conversa com a história de tantas mulheres espalhadas pela América Latina."

Ela acredita que mulheres latino-americanas compartilham uma capacidade comum de transformar dificuldades em força. "Eu me reconheço nessa força silenciosa, nessa capacidade de transformar dor em potência e afeto."

Lorena também atribui sua identidade às mulheres que vieram antes dela. "Hoje entendo que muita da coragem que as pessoas enxergam em mim não nasceu comigo. Ela foi sendo passada de geração em geração até chegar às minhas mãos."

Na memória afetiva, pequenos gestos preservam esse vínculo com a ancestralidade. "Tem uma lembrança que mora em mim e que parece simples, mas carrega um mundo inteiro: dizer 'bença, vó'. Mais do que um cumprimento, era um gesto de respeito, de amor e de reconhecimento de quem veio antes."

Ela observa que ainda existe pouca identificação das brasileiras como latino-americanas, consequência de referências culturais historicamente voltadas para fora do continente. Ainda assim, acredita que basta ouvir outras mulheres da região para perceber as semelhanças. "Compartilhamos dores, alegrias, desafios, ancestralidades e uma enorme capacidade de recomeçar."

Para Thais Cardoso, esse sentimento coletivo também aparece nas desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras em diferentes países latino-americanos e caribenhos. "Muitas dessas experiências passam pelo racismo, pela desigualdade social, pela violência de gênero, pela sobrecarga do cuidado, pela informalidade no trabalho e pela invisibilização política."

Ao mesmo tempo, ela destaca que justamente essa vivência concreta fortalece novas formas de pensar políticas públicas. "Quando mulheres negras participam das decisões, novas perguntas aparecem, novas prioridades são colocadas e outras soluções se tornam possíveis", destaca.

O fortalecimento da ancestralidade também passa pelo reconhecimento das intelectuais, artistas e lideranças negras brasileiras. "Antes de buscarmos referências apenas em outros países, precisamos olhar com mais atenção para o Brasil, para a América Latina e para o Caribe. Somos gigantes em produção intelectual, política, cultural e histórica."

Para a cientista política, valorizar essas trajetórias significa disputar memória, currículo e produção de conhecimento. Já Lorena acredita que conhecer as próprias raízes ajuda a construir o futuro. "A ancestralidade não existe para prender ninguém ao passado. Ela existe para lembrar que vocês nunca começaram sozinhas."

Sua mensagem para as próximas gerações resume o espírito do Julho das Pretas. "Escutem as histórias da família, perguntem os nomes das mulheres que vieram antes, honrem as raízes de onde vocês nasceram. Quando a gente sabe de onde vem, fica muito mais fácil escolher para onde quer ir."

Quem foi Tereza de Benguela?

Conhecida como a Rainha Tereza, Tereza de Benguela foi uma importante líder quilombola do século 18. Após a morte do companheiro, assumiu o comando do Quilombo do Quariterê, também chamado de Quilombo do Piolho, localizado às margens do Rio Guaporé, na região que hoje pertence ao estado de Mato Grosso.

Sob sua liderança, o quilombo reuniu negros e indígenas em uma comunidade organizada, com sistema próprio de produção agrícola, comércio, defesa e decisões coletivas. Tereza resistiu por décadas às investidas das tropas coloniais, tornando-se um dos maiores símbolos da luta contra a escravidão no Brasil.

Em sua homenagem, o dia 25 de julho foi instituído pela Lei nº 12.987/2014 como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, reforçando a importância de reconhecer a contribuição histórica, política e cultural das mulheres negras para a formação do país.

Da resistência ao pertencimento

A construção da identidade afro-latino-americana ocorre de maneiras diferentes para cada mulher. Para a bacharel em direito e criadora dos projetos Pretitudes e Pretitudes Educa, Nonny Gomes, 37 anos, reconhecer-se como uma mulher latino-americana foi resultado de um processo de aprendizado. "É um processo, e esse processo envolve estudo, sentimento de pertencimento. Talvez seja muito óbvio, geograficamente falando, para muitas pessoas, mas o tornar-se, o assumir essa identidade envolve muita construção."

Ela explica que foi por meio do trabalho com educação que passou a compreender melhor temas como latinidade e ancestralidade. Em sua família, as raízes também são parte essencial da identidade. "As mulheres da minha família são nordestinas, a maioria esmagadora do Maranhão, são quebradeiras de coco, benzedeiras. As presenças indígenas e negra são muito fortes para a gente", destaca.

Essa herança aparece especialmente na espiritualidade. "Todas as mulheres da minha família sabem fazer alguma garrafada, e isso nos aproxima muito de nossas raízes indígenas e negras."

Nonny acredita que as brasileiras conhecem a existência da América Latina, mas ainda aprofundam pouco essa relação. "Poderíamos explorar mais esse saber, saber mais sobre o Brasil, sobre o continente e sobre como foram formadas as coincidências latinas que carregamos", diz. 

Ao falar de sua própria vivência, ela lembra que identidade também é plural. "Sou uma mulher brasileira, latino-americana, negra e também uma mulher com deficiência auditiva unilateral. Em algum ponto minha experiência é semelhante à de algumas mulheres latinas, mas em diversos outros ela é diferente."

Para ela, homenagear Tereza de Benguela é também enfrentar o apagamento histórico. "É de suma importância justamente por contar sobre a resistência de quem veio antes e permitiu que estivéssemos aqui hoje. Tereza foi uma, mas existem tantas outras pioneiras que contribuíram de diversas formas."

Sua mensagem para as novas gerações é um convite permanente ao conhecimento. "Invistam em conhecimento. Não somente o acadêmico, mas também o ancestral, o político, o conhecimento do próprio corpo e da própria mente."

Histórias compartilhadas

A psicóloga, professora e palestrante Kátia Lima, 46, compartilha uma percepção semelhante. Para ela, reconhecer-se como mulher latino-americana significa compreender que a história das mulheres negras brasileiras dialoga com experiências de outras mulheres do continente. "Compartilhamos uma história marcada pela diversidade, pela resistência e pelas desigualdades construídas ao longo da colonização."

Ao lembrar da própria trajetória, ela destaca o papel da mãe e das mulheres da família. "Minha mãe era uma mulher muito forte e me fortaleceu contando histórias de meus antepassados escravizados em Minas Gerais. Minhas avós e minha mãe não puderam estudar, mas abriram caminhos para que eu pudesse ocupar espaços historicamente negados às mulheres negras", ressalta. 

Segundo Kátia, a sensação de distanciamento entre Brasil e América Latina ainda existe, mas diminui quando as pessoas conhecem outras realidades do continente. "Estive na Colômbia em 2023 e pude constatar nossas semelhanças históricas, culturais, gastronômicas e de resistência."

Ela acredita que a educação continua sendo um dos principais instrumentos de transformação. "Conhecer a própria história é uma forma de fortalecer o futuro. Nunca deixem que outras pessoas definam quem vocês são", diz. 

Para a antropóloga Naira Gomes, identidade é uma construção política em permanente disputa. "Identidade é algo basilar para qualquer indivíduo. Ancestralidade é basilar para a construção de qualquer comunidade."

Ela observa que, ao longo da história, narrativas sobre mulheres negras foram reduzidas à escravidão e à subalternidade, apagando trajetórias de liderança e protagonismo. "Se existe uma narrativa que reduz mulheres negras à escravidão e ao trabalho, é porque alguém investiu em contar essa história diminuta", afirma. 

Na avaliação da pesquisadora, recuperar figuras como Tereza de Benguela significa ampliar as referências disponíveis para toda a sociedade. "Precisamos saber quem foram essas mulheres porque toda sociedade precisa de referências. Precisa saber de onde veio para saber para onde vai."

Ao analisar por que muitas brasileiras ainda não se reconhecem como latino-americanas, Naira relaciona esse distanciamento às marcas da colonização e às disputas geopolíticas. "Essa fragmentação da identidade é intencional. A identidade compartilhada é a mola propulsora de qualquer mobilização coletiva", aponta. 

Ela afirma que conhecer a trajetória de mulheres negras funciona como um fortalecimento constante. "Muitas vezes, quando me sinto incapaz diante da opressão, preciso olhar para essas mulheres. É como um alimento. Preciso me alimentar da coragem e da capacidade que elas tiveram de transformar a realidade."

Ancestralidade que abre caminhos

A história da família Garcia demonstra como esse fortalecimento pode atravessar gerações. Arte-educadora e uma das ativistas históricas do movimento negro brasileiro, Lydia Garcia, de 88 anos, atribui à educação o papel central na preservação da memória. "Educação é o que move toda essa máquina. Educação significa respeito."

Filha da estilista Isabel Francisca Garcia, conhecida como Madame Garcia, Lydia cresceu cercada por referências de protagonismo feminino e fez questão de transmitir esses valores aos filhos e netos. "Passei para meus filhos toda essa força, essa resistência da mulher negra, viver e valorizar a nossa cultura."

Ela afirma que a valorização da identidade sempre esteve presente na família, por meio da música, do teatro, do cinema, da política e das artes. "Sem política não existe cultura, e sem cultura não existe política", pondera. 

A administradora e estilista Ialê Garcia, 57, filha de Lydia, conta que cresceu em uma educação afrocentrada, cercada por referências positivas da população negra. "Desde a decoração da casa até as músicas, os livros e as conversas, tudo mostrava nossa cultura, nossa inteligência e nosso direito de ocupar espaços."

Ela lembra que seus pais faziam questão de apresentar artistas, médicos, arquitetos e intelectuais negros para que os filhos crescessem sabendo que também poderiam ocupar qualquer profissão. "Precisávamos entender que fazemos parte desse mundo e temos a mesma capacidade de chegar onde quisermos."

Hoje, ao observar a filha Yaminah, de 29 anos, ela percebe avanços importantes, mas acredita que a sociedade precisa ir além da representatividade. "Não queremos apenas uma pessoa negra em um comercial ou em uma sala de empresários. Queremos equidade, acesso aos mesmos direitos, às mesmas oportunidades e aos mesmos espaços", ressalta. 

Para Ialê, a espiritualidade de matriz africana continua sendo um dos maiores presentes recebidos das mulheres da família. "Os ensinamentos sobre as ervas, as cantigas, os cuidados e a espiritualidade são os maiores presentes que herdei das minhas ancestrais."

Ao reunir diferentes gerações, profissões e trajetórias, as histórias dessas mulheres revelam que identidade, ancestralidade e pertencimento não são apenas memórias do passado. São ferramentas de transformação do presente e de construção do futuro. Em comum, todas compartilham a certeza de que conhecer a própria história fortalece não apenas quem veio antes, mas também quem ainda está por vir.

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postado em 12/07/2026 06:00
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