Saúde

Lábio leporino: alteração congênita que vai além do estético

Para que o paciente com fissura labiopalatina tenha maior qualidade de vida, a condição congênita pede monitoramento contínuo e suporte de uma equipe multidisciplinar

Também conhecida como lábio leporino, a fissura labiopalatina pode ser corrigida com cirurgia
 -  (crédito: Getty Images/iStockphoto)
Também conhecida como lábio leporino, a fissura labiopalatina pode ser corrigida com cirurgia - (crédito: Getty Images/iStockphoto)

Conhecido popularmente como lábio leporino, a fissura labial é uma alteração congênita que ocorre ainda durante o desenvolvimento embrionário. A condição aparece quando as estruturas responsáveis pela formação do lábio do bebê não se unem completamente. Embora muitas vezes seja associada à aparência, a alteração pode envolver diferentes aspectos da saúde e exigir acompanhamento especializado ao longo da vida.

De acordo com a cirurgiã-dentista Geisa Cantelli, a origem das fissuras é multifatorial e pode envolver fatores genéticos e ambientais. A fissura labial atinge apenas o lábio, enquanto a labiopalatina também envolve o palato. A condição pode afetar funções como alimentação, fala, audição e desenvolvimento dos dentes e dos ossos da face, exigindo cuidados desde cedo. "O acompanhamento odontológico tem papel importante desde a infância", afirma.

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O cuidado com pacientes com fissuras labiopalatinas costuma envolver diferentes especialidades. Cirurgião, odontopediatra, ortodontista, fonoaudiólogo, otorrinolaringologista, pediatra e psicólogo são alguns dos profissionais que podem participar desse processo. "A proposta é acompanhar o paciente de maneira integral, considerando não apenas a correção anatômica, mas também a função e a qualidade de vida", explica a dentista.

A atuação conjunta permite que diferentes necessidades sejam observadas de maneira coordenada. Enquanto algumas áreas estão voltadas para questões estruturais e funcionais, outras podem acompanhar aspectos relacionados a fala, audição, desenvolvimento e bem-estar emocional. O objetivo é evitar que o tratamento fique restrito a apenas uma das consequências da condição.

Mais do que corrigir uma alteração anatômica, o acompanhamento busca preservar e desenvolver funções importantes para o cotidiano. Falar, mastigar e sorrir adequadamente são alguns dos objetivos que fazem parte do cuidado, além dos aspectos relacionados à aparência. "O objetivo final é promover saúde, função, estética e qualidade de vida, respeitando as necessidades de cada pessoa ao longo de seu desenvolvimento", conclui a especialista.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

 

Principais tipos de fissura

  • Unilateral: a abertura está presente em apenas um lado do lábio superior.

  • Bilateral: a fissura atinge os dois lados do lábio superior.

  • Mediana: localizada no centro do lábio, é uma forma mais rara.

  • Labiopalatina: a abertura ultrapassa o lábio e também envolve o palato, conhecido como céu da boca.

Fatores genéticos, ambientais e estilo de vida

  • Histórico familiar: a presença de casos de fissura na família pode aumentar a predisposição para o desenvolvimento da condição.

  • Síndromes genéticas: algumas fissuras podem estar associadas a alterações cromossômicas ou a determinadas síndromes.

  • Tabagismo e consumo de álcool: a exposição a essas substâncias durante a gestação pode aumentar o risco de alterações no desenvolvimento embrionário.

  • Uso de medicamentos: determinados medicamentos, como alguns anticonvulsivantes e derivados do ácido retinoico, especialmente no início da gestação, podem estar associados a um maior risco.

  • Deficiências nutricionais: a ausência de nutrientes importantes, especialmente o ácido fólico, pode contribuir para o risco de alterações no desenvolvimento fetal.

  • Infecções e exposição a agentes externos: algumas infecções e exposições durante o primeiro trimestre da gestação também podem estar relacionadas ao desenvolvimento das fissuras.

Alterações na mordida e na arcada dentária

  • Ausência ou posição inadequada dos dentes: alguns dentes podem não se formar ou nascer fora da posição esperada.

  • Falta de espaço na arcada: o desenvolvimento da arcada dentária pode ser comprometido, dificultando o posicionamento dos dentes.

  • Mordida cruzada: ocorre quando alguns dentes superiores se posicionam por dentro dos inferiores durante a mordida.

  • Desalinhamento dentário: os dentes podem apresentar alterações de posição e alinhamento.

  • Diferenças entre maxila e mandíbula: o crescimento dos ossos da face pode ocorrer de maneira desigual, afetando a relação entre as duas estruturas.

Tratamento e reabilitação

  • Cirurgias: a correção do lábio geralmente é realizada nos primeiros meses de vida, enquanto a cirurgia do palato costuma ocorrer posteriormente, conforme as condições de saúde e o desenvolvimento da criança.

  • Equipe multidisciplinar: o acompanhamento pode envolver cirurgiões, dentistas, fonoaudiólogos e outros profissionais, responsáveis por diferentes etapas da reabilitação, incluindo aspectos relacionados a fala, alimentação, saúde bucal e desenvolvimento.

 

Palavra do especialista

A fissura pode afetar o crescimento dos ossos da face?

Pode, sim, e traz consequências não só estéticas, mas também funcionais. A principal deficiência é no osso da maxila, pois ele costuma não desenvolver lateralmente e para frente, além do orifício que pode iniciar do nariz, passando pelo lábio, gengiva e seguir até o final do céu da boca (palato duro e mole). Isso traz desafios desde o nascimento, como impossibilidade de deglutição na amamentação, dificuldade fonética e atraso na fala, alterações mastigatórias por mal encaixe dentário e bloqueios respiratórios importantes. 

Em quais situações é necessária uma cirurgia óssea durante o tratamento?

A cirurgia óssea pode ser necessária em diferentes fases. Na infância, é comum realizar o enxerto ósseo alveolar para reconstruir a região da fissura, permitindo a erupção adequada dos dentes permanentes e dando estabilidade ao arco dentário. Já após o término do crescimento, alguns pacientes apresentam uma deficiência importante da maxila e precisam de cirurgia ortognática para reposicionar os ossos da face, melhorando a mordida, a mastigação, a fala, a respiração e a harmonia facial. 

O tratamento termina na infância ou pode continuar até a vida adulta?

O tratamento da fissura é um processo de longo prazo e, na maioria dos casos, acompanha o paciente desde o nascimento até a vida adulta. Ao longo desse período, podem ser necessárias diferentes intervenções, como cirurgias, ortodontia, fonoaudiologia, acompanhamento odontológico e, principalmente, emocional, para e o paciente e seus familiares. 

Magno Liberato é cirurgião bucomaxilofacial

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postado em 16/08/2026 06:00
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