Artesãos do DF ganham espaço e visibilidade na Casacor Brasília 2026
Espaço do Sebrae na CasaCor reúne cerca de 45 artesãos e mostra como peças feitas à mão carregam afetos, memórias de família, referências culturais e a identidade do DF
Na Casacor, é possível adquirir os produtos artesanais - (crédito: Edgard Cesar)
Muito antes de chegar a uma estante, a uma mesa ou a uma bolsa, um objeto pode ter uma história. Pode nascer de uma lembrança da infância, de uma relação familiar, de uma paisagem observada todos os dias ou de uma técnica aprendida há décadas. Em um momento em que a produção em série facilita o acesso a praticamente qualquer produto, o feito à mão ganha outro significado. Mais do que decorar ou cumprir uma função, pode representar uma memória.
É a partir dessa perspectiva que o Espaço do Sebrae Feito à Mão, na CasaCor Brasília 2026, apresenta o trabalho de cerca de 45 artesãos do Distrito Federal. A proposta é aproximar o público das histórias que existem por trás das peças e mostrar que o artesanato também fala sobre identidade, pertencimento, afeto e formas de viver.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Em uma época marcada pela velocidade, personalização instantânea e produção em larga escala, o tempo necessário para fazer uma peça artesanal também passa a ser parte de seu valor. Cada objeto carrega escolhas, tentativas, técnicas e horas de trabalho que não aparecem necessariamente quando ele chega pronto ao consumidor.
Para Rose Rainha, diretora superintendente do Sebrae no DF, colocar o artesanato em contato com outros universos ajuda a mudar a maneira como esses produtos são percebidos. "A presença do artesanato brasiliense na CasaCor mostra a capacidade que esses pequenos negócios têm de dialogar com diferentes mercados e linguagens. Quando uma peça artesanal ocupa um espaço pensado por arquitetos e designers, ela deixa de ser vista apenas como um produto e passa a integrar uma proposta de decoração, de design e de identidade", destaca.
Para ela, essa aproximação também pode trazer oportunidades para quem produz no Distrito Federal. "Nosso papel é criar essas pontes e ampliar as possibilidades para que o talento e a criatividade de quem produz no DF possam chegar cada vez mais longe", acrescenta.
Espaço Sebrae Feito à Mão, projetado pelo arquiteto Rick Hudson
(foto: Edgard Cesar)
Uma lembrança moldada em argila
Aos 12 anos, Cleziana Ribeiro de Lima Paiva, hoje com 47, começou a acompanhar a mãe trabalhando com barro, para ajudar na renda da família. A experiência acabou se transformando em uma relação duradoura com a argila e, posteriormente, em profissão.
"Foi ali que nasceu esse amor. Com o tempo, comecei a criar minhas próprias peças e percebi que as pessoas se identificavam com elas, porque muitas contam histórias que também fazem parte da vida delas. Quando começaram as encomendas e as vendas, entendi que aquilo que me fazia tão feliz também poderia se transformar no meu trabalho e na minha fonte de renda."
Cleziania Paiva começou a trabalhar com esculturas de barro inspirada na mãe
(foto: Arquivo pessoal)
Filtro de barro em homenagem às candangas na construção de Brasília, feito por Cleziania Paiva
(foto: Divulgação)
O processo para transformar a matéria-prima em uma peça está longe de ser imediato. Cleziania prepara a argila, modela manualmente, espera a secagem natural por cerca de uma semana e leva o trabalho ao forno, a, aproximadamente, 900 graus, durante oito horas. Depois que a peça esfria, ainda vêm a pintura e os últimos detalhes. "É um processo demorado, mas eu sou muito feliz fazendo isso. Para mim, ver um pedaço de argila se transformando em uma história é algo muito especial", conta.
E são justamente essas histórias que ela procura preservar. São imagens que poderiam passar despercebidas na correria, mas que ganham outra dimensão quando transformadas em objetos. "Gosto de mostrar essa Brasília afetiva nas minhas peças, as mulheres bordando, as mães ensinando suas filhas, as famílias, a natureza e as coisas simples do cotidiano. Quero destacar que existe muita beleza e sentimento nas coisas simples da vida", afirma.
A relação com a memória aparece também na forma como ela quer que o público reaja ao trabalho. "Eu gostaria que as pessoas levassem leveza e afeto. Que minhas peças façam alguém lembrar da mãe, da avó, da infância, de uma história ou simplesmente de um momento feliz. Eu sou muito feliz quando estou criando e gostaria que um pouco dessa felicidade chegasse às pessoas através do meu trabalho."
Quando o Cerrado entra em casa
Se Cleziania transforma relações humanas em argila, João Moraes encontra inspiração no ambiente que o cerca. Aos 42 anos, ele trabalha com sementes, folhas secas, palhas e outros elementos naturais ligados ao Cerrado.
Antes disso, sua produção estava concentrada no MDF, com placas, painéis e divisórias. O contato com o Sebrae, há cerca de quatro anos, abriu espaço para experimentar outros materiais e perceber que eles também poderiam se transformar em produtos.
João Moraes, artesão da Relicário Artesanato
(foto: Arquivo pessoal)
"Comecei a fazer esculturas e comecei a trabalhar com elementos mais naturais, as sementes, as palhas do Cerrado, fazendo produtos para mim. E vi o grande potencial de fazer para venda, porque toda vez que eu fazia um produto, um adereço, sempre tinham pessoas dizendo: 'Ah, eu quero um também'. Eu me perguntava: 'Mas eu vou cobrar quanto por isso?'"
O trabalho de João também é marcado pela personalização. Dependendo da complexidade, uma peça pode levar de cinco a 15 dias para ficar pronta. O resultado é uma produção em que dificilmente um trabalho é exatamente igual ao outro.
Para a CasaCor, ele criou as luminárias Ninho, inspiradas em estruturas que observou sendo construídas por pássaros perto de seu ateliê. A criação reuniu técnicas que já faziam parte de sua trajetória. "Essa foi uma junção de todas as técnicas que eu já trabalhei, que eu fui premiado duas vezes pelo Sebrae, em 2024 e 2025", diz.
Luminárias Ninho, assinadas por João Moraes
(foto: Edgard Cesar)
A inspiração no Cerrado não está apenas nos materiais, mas também na maneira como João enxerga a paisagem. Para ele, o artesanato brasiliense tem uma relação particular com o bioma e com elementos que fazem parte da identidade local. "Eu quero que saibam que a minha inspiração toda é da secura do Cerrado, dos galhos tortos, das imagens que não existem em lugar nenhum", salienta.
Trabalho que atravessa gerações
A relação entre artesanato e memória também aparece na trajetória de Maria de Fátima Rodrigues Lima, 64 anos. Para ela, o trabalho manual deixou de ser visto apenas como uma atividade complementar e passou a representar uma possibilidade concreta de renda. "Foi por meio de curso no Sebrae, trazendo consultoria e nos ajudando em feiras, nos levando a ver que o artesanato não era só um hobby, mas um gerador de renda. Hoje tenho minha empresa, que também trago meu saber a outras pessoas."
Na CasaCor, ela levou almofadas e toalhas, trabalhos que considera representativos de sua produção. Mas o que gostaria que o visitante leve consigo não é necessariamente uma referência estética. "Artesanato de Brasília traz nossa história em cada detalhe de cada peça, cada traço, a identidade única da nossa região", destaca.
Maria de Fátima Rodrigues Lima trabalha com bordados
(foto: Fotos: Arquivo pessoal)
Almofada em linho bordada com flores do cerrado, pelas mãos de Maria de Fátima
(foto: Divulgação)
Uma cidade feita de muitas histórias
A artesã Gabiane Castro da Silva, 37, também encontrou no trabalho manual uma possibilidade de transformar interesse pessoal em profissão. Quando ainda trabalhava em regime de CLT, começou a produzir nécessaires como hobby e fonte de renda extra.
Aos poucos, vieram bolsas mais elaboradas. O processo pode durar algumas horas ou vários dias, dependendo da peça. Antes do resultado final, há a escolha dos materiais, cortes, preparação, costura, aplicação de ferragens, montagem e acabamento.
Maria de Fátima Rodrigues Lima trabalha com bordados
(foto: Fotos: Arquivo pessoal)
É justamente esse caminho que costuma desaparecer quando o consumidor olha apenas para o produto pronto. Na experiência de Gabiane, porém, cada etapa ajuda a construir uma peça que também carrega referências do lugar onde vive. "Brasília tem uma identidade muito forte, marcada pela arquitetura e pela diversidade cultural. Acho especial poder transformar essas referências em peças artesanais que contam um pouco da história da nossa cidade."
Na mostra, essa ideia aparece na Bagagem Candanga, peça que reúne referências de Brasília e a proposta de transformar cultura e identidade em algo feito à mão. A escolha do nome também reforça a relação entre objeto e memória. Uma bagagem não carrega apenas coisas, mas experiências, lugares e lembranças. No caso da peça, a inspiração está ligada às pessoas que vivem e constroem a capital.
Bagagem Candanga, peça de Gabiane da Silva que concorre ao Prêmio Brasília Manualista 2026
(foto: Divulgação)
Para Gabiane, esse é justamente o aspecto que não deveria ser perdido quando o artesanato chega ao consumidor. "Que percebam que uma peça artesanal vai muito além do produto. Ela carrega tempo, dedicação, conhecimento, história e muito amor."
É estudante de jornalismo na Universidade de Brasília (UnB). Atuou como estagiária na editoria de Cultura do Correio Braziliense e integrou a equipe da coluna Claudia Meireles, no Metrópoles. Atualmente, escreve para a Revista do Correio.