
Por Graça Seligman*
Brasília tem 66 anos. Para uma cidade, é quase nada. Há cidades que contam sua história em séculos, que acumulam gerações de uma mesma família na mesma rua, no mesmo bairro, às vezes na mesma casa. Brasília nasceu de outro jeito. Nasceu de gente que veio de longe.
Vieram mineiros, goianos, pernambucanos, baianos, cearenses, gaúchos, cariocas, paulistas, paraibanos, maranhenses. Vieram os que a construíram e os que chegaram depois. Funcionários públicos, trabalhadores, professores, comerciantes, profissionais liberais, jornalistas, artistas, estudantes. Cada um trazendo na mala sotaques, comidas, hábitos, saudades e histórias de família.
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Muitos deixaram a própria família para trás. Os pais ficaram em Recife. Os irmãos, em Belo Horizonte. Os primos, no interior de Goiás. Os avós, no Rio Grande do Sul.
O almoço de domingo continuava acontecendo, mas a centenas ou milhares de quilômetros de distância. E as pessoas que aqui chegaram tiveram que começar alguma coisa. Fizeram amigos.
Essa é uma característica de Brasília sobre a qual falamos pouco. Somos uma cidade formada por pessoas que precisaram reconstruir ao redor de si aquela rede de afeto e proteção que, nos lugares de origem, muitas vezes já estava pronta.
O colega de trabalho virou o amigo do fim de semana. A vizinha virou aquela pessoa para quem se podia deixar a chave de casa. Os filhos dos amigos cresceram juntos e muitos se acham primos. Vieram os padrinhos, os aniversários, os churrascos e as festas compartilhadas. Vieram, também, as separações, as doenças, os sustos, os filhos adolescentes, os pais envelhecendo, os lutos.
E por isso, em Brasília, algumas amizades adquiriram uma intensidade particular. Não porque aqui se ame mais do que em outros lugares, mas porque a história desta cidade criou uma necessidade especial, a de construir localmente os vínculos que a distância havia levado embora.
E, então, aconteceu uma coisa bonita. Os amigos se tornaram família. Talvez o próprio conceito de família esteja mudando diante de nós.
Estamos acostumados a pensar a família a partir do sangue, do casamento, dos sobrenomes e dos registros civis. Tudo isso continua existindo e tendo enorme importância. Mas quem sabe a família seja também algo que se constrói pelo tempo, pelo cuidado, pela memória e pela certeza de pertencimento.
Cinquenta anos se passaram, para mim, e hoje observo que Brasília já começa a ter algo que não tinha quando nasceu: memória entre gerações. Há filhos e netos de brasilienses. Há pessoas que podem apontar uma árvore, uma superquadra, uma casa, um clube, uma escola e dizer: minha infância aconteceu aqui. Pouco a pouco, a cidade inventada vai acumulando passado.
E essa é uma das faces mais bonitas e menos visíveis de Brasília. A mais visivel é muito fácil de visitar. É a cidade do Congresso, dos palácios, dos ministérios, das grandes avenidas, do concreto, dos monumentos de Oscar Niemeyer e dos espaços de Lucio Costa e da arte de Athos Bulcão.
É a Brasília que cabe no cartão-postal.
Mas a cidade de verdade está nas mesas que se juntam, nos cafés demorados, nos churrascos que atravessam a tarde, nos encontros debaixo dos blocos, nas caminhadas, nas casas abertas aos amigos, nos grupos que envelhecem juntos. Essa Brasília não se revela com facilidade.
Certamente, por isso, tantas pessoas que passam poucas horas por aqui saiam com a impressão de uma cidade fria, distante, burocrática. É compreensível.
Mas não se conhece a cidade entrando pela manhã num predio público e partindo no fim da tarde. Ali se pode conhecer o Estado brasileiro, suas virtudes e seus defeitos. Pode-se conhecer o poder, a burocracia, os corredores e a Brasília monumental que pode ser conhecida em algumas horas.
A Brasília afetiva exige anos.
A Praça dos Três Poderes cabe numa fotografia. Uma amizade de 40 anos, não.
Brasília tem apenas 66 anos, mas soube usar esse curto tempo para realizar uma experiência silenciosa e admirável. Uma cidade construída por migrantes precisou aprender, também, a construir famílias.
*Graça Seligman é jornalista e fotógrafa
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