Cidade Nossa

Cidade Nossa: Chuva de folhas

Uma reflexão sobre a escala humana de Brasília, onde o verde e o ipê encantam a rotina da capital

REV-3008-CRONICA -  (crédito: maurenilson)
REV-3008-CRONICA - (crédito: maurenilson)

Por Beto Seabra

Uma pessoa caminha pelas calçadas de Brasília. O tempo é seco e quente, mas não tanto ainda, pois a brisa da manhã que nasce traz um vento fresco que a anima a acordar mais cedo. Ela segue entre as árvores e se lembra da cidade que visitou semanas atrás — linda e maravilhosa, mas sem essa proximidade verde e maciça que faz toda a diferença. "Viver cercado de árvores deve nos tornar pessoas melhores", pensa.

Quando passa pela alameda na entrequadra, sopra um vento não muito forte, mas suficiente para desencadear sobre ela uma chuva de folhas. Sentindo-se em um filme, a pessoa caminha olhando para cima, vendo as folhas em rodopio chovendo à sua volta. "Parece um sonho", pensa novamente. Ouve um homem reclamando daquele exagero de folhas caindo, pois a calçada havia sido varrida no dia anterior e precisaria ser limpa outra vez. "Por que não deixar as folhas tomarem as calçadas?", pergunta-se.

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Uma criança corre pisando nas folhas e ri com a brincadeira e o barulho. A mãe, preocupada para que ela não escorregue, segue de mãos dadas com o filho, como se estivessem pisando em neve crocante. Agora, um vento mais forte balança as árvores e faz chover folhas novamente. Dessa vez, dá tempo de sacar o celular do bolso e fazer um vídeo curto que fará sucesso entre os amigos.

Tenta imaginar um filme rodado naquela alameda. Não saberia dizer qual seria a história, apenas uma cena: a pessoa vem pela calçada, a chuva de folhas caindo sobre a sua cabeça e uma música de fundo mostrando que ainda é inverno. A calçada nova, que ficou pronta meses atrás e foi finalizada durante a seca, está toda desenhada por marcas de folhas que ficaram presas ao cimento fresco. "Parece um afresco do Cerrado", diz, "desenhado pela natureza".

Aquele conjunto de coisas e sensações faz a pessoa se sentir muito bem. Além disso, um solitário joão-de-barro decidiu caminhar ao lado dela por alguns segundos, o que bastou para elegê-lo seu novo amigo daquela manhã. De repente, um assombro: um ipê-amarelo, altaneiro e repleto de flores. Único, sozinho, reinando entre a folhagem seca e marrom. A pessoa sente-se tomada por um sentimento novo, e vê naquela árvore um ente vegetal muito superior a tudo o que há em volta: bichos, gentes, arquitetura e máquinas.

Talvez, porque aquela florada seja breve, ela suplante, em beleza, tudo o que está ao seu redor. É incrível que a vida nos dê tantas coisas simples e surpreendentes em apenas um trecho de passeio na calçada de uma cidade planejada para ser nada mais que a capital de um país.

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postado em 30/08/2026 06:00
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