Bichos

Na ponta das patas: cães e gatos podem sofrer por falta de cuidados

Entenda como a falta de atenção com as unhas de cães e gatos pode prejudicar a saúde dos pets. Quando não aparadas com a frequência correta, causam uma série de complicações ligadas à postura e às articulações

Por Daniele Felix*

A falta de exercícios físicos com os pets pode desencadear sedentarismo e problemas ligados à mobilidade. Porém, manter os bichos de estimação em atividade não é suficiente para garantir a saúde física e afastar problemas nas articulações e musculatura. Algo pequeno, presente nas pontas das patas e que pode parecer apenas uma preocupação estética, tem importante impacto na qualidade do movimento: o cuidado com as unhas.

Quando não aparadas e cuidadas com a frequência correta, podem ser responsáveis por uma série de complicações ligadas à postura e às articulações. O médico veterinário Georgeton Oliveira explica como a negligência com as garras pode ser prejudicial: “Unhas excessivamente longas entram em contato constante com o solo, aumentando a pressão sobre as falanges distais e modificando o apoio dos dígitos. Isso pode causar dor, desconforto durante a locomoção e predispor a lesões do leito ungueal”.

O animal que não tem as unhas aparadas, conforme ensina o veterinário, tende a compensar a tensão gerada pelo impacto, alterando a forma de pisar. “Eles modificam a distribuição das forças durante o apoio, favorecendo mudanças na marcha, diminuição da mobilidade e sobrecarga de estruturas musculoesqueléticas”, adverte. 

Problemas na prática

Para os gatos, o cuidado deve ser dobrado, pois, sem o cuidado certo com as unhas, os problemas podem ser mais grave. Os bichanos correm mais risco, por exemplo, de prender as garras em superfícies, ocasionando traumas. 

É o que a estudante de audiovisual Eduarda Azevedo, de 19 anos, acredita que aconteceu com Luke, seu gato de 2 anos de idade, apesar de ter costume de aparar as garras do felino. “Tenho a suspeita de que, quando tentava pular a janela, ele prendeu a unha na grade. Depois disso, comecei a ficar de olho em momentos que Luke tenta pular para que não se repita”, relata a tutora.

Para ela, foi algo extraordinário notar Luke mancando pela casa. “Ele começou a mancar e lamber muito a pata quando pulava de algum lugar alto”, Eduarda conta os sinais que deram o alerta para que  examinasse a patinha do bichano. “Quando eu o vi mancando, achei que pudesse ter torcido ou dado mau jeito na pata. Mas eu peguei para olhar de perto e vi que a unha estava encravada”, continua. 

A segunda reação da tutora foi chamar o veterinário. Para tranquilidade de Eduarda e de Luke, o atendimento foi feito em casa. “O veterinário veio para confirmar a suspeita, recomendou um anti-inflamatório, uma pomada e a higienização com soro fisiológico para fazer o tratamento”, detalha.

O caso da estudante com o gatinho Luke levanta um alerta não apenas para a preocupação em manter as unhas dos pets aparadas — afinal, Eduarda afirma que corta as unhas do gato entre uma e duas vezes ao mês e, mesmo assim, passou por um trauma. Por isso a importância de estar atento também às atividades que os pets realizam. Algo simples, como pular em uma janela ou até correr pelo quintal, pode se tornar uma complicação na vida do bicho. A leitura que a tutora fez do comportamento do pet ajudou Luke a ser atendido com rapidez e a se recuperar de forma eficiente.

A médica veterinária dermatologista Cristina Samarco recebeu na clínica em que trabalha um caso originado da falta de atenção com o comprimento da unha do quinto dedo de um cachorro, que geralmente não está em contato com o chão. O dono do pet não percebeu que a unha estava crescendo muito e formando uma curva, o que levou a unha a entrar no coxim — a parte macia das patas dos bichos. “Foi bem ruim de tirar porque tive que cortar e puxar a unha que estava enfiada no coxim”, relata Samarco.

Nem todas as complicações ligadas às unhas dos bichos vão surgir a partir de um descuido em relação às atividades ou à saúde do bicho. Samarco relata um caso complicado em um cachorro que passou no seu consultório: a onicodistrofia lupoide — espécie de lúpus localizado nas unhas. “As unhas ficam bem tortuosas, crescem superdeformadas e o diagnóstico é bem chato de fazer. Precisa de biópsia das falanges. Nesse caso, conseguimos fazer, pois também ocorreu no quinto dedo”, conta a veterinária.

A onicodistrofia lupoide é uma doença autoimune sem causa externa clara, não é previsível ou evitável. O mais importante é checar com profissionais os sinais apresentados e manter consultas e vacinas em dia.

Como Cuidar

Para o que pode ser evitável, como as complicações relacionadas à falta de corte e aparação, a especialista ensina que nem sempre é necessário usar a tesoura ou levar o bicho no pet shop. “Para quem não tem experiência, lixar as unhas pode ser uma boa opção, porque não corre o risco de cortar demais e sangrar.” 

Aparar é mais rápido e causa menos incômodo em animais agitados. Quando a unha é clara, é possível observar onde começam os vasos, e fica mais fácil fazer o corte. “Um macete que eu gosto de ensinar, quando a unha é escura, é colocar o cortador paralelo com o coxim e cortar o que está sobrando”, explica. A dermatologista lembra que, ao deixar de cortar as unhas por muito tempo, a pele vai crescendo também por baixo. "Então, a unha acaba ficando naturalmente mais longa, impedindo que o corte seja feito com frequência futuramente."

Quanto à frequência de corte, Samarco aconselha que as unhas sejam aparadas umas vez por semana, porém é necessário avaliar a necessidade de cada pet, baseada na rotina e no crescimento natural das unhas. Bichos com vida mais ativa costumam desgastar as unhas de forma natural.

As unhas dos bichos também têm papel fundamental na descoberta de doenças que mostram sinais nas pontas das falanges. “Eu considero bastante importante observar as unhas, ver o formato, se está tendo algum escurecimento e descamação, porque algumas doenças se manifestam também nas unhas, principalmente no leito ungueal, que é a região da cutícula”, indica Samarco. Entre as doenças que podem aparecer nas unhas estão as autoimunes, como o tipo de lúpus citado, e infecciosas, como a leishmaniose, que tem a ver com o crescimento exagerado das unhas, segundo a especialista.

Outra indicação de Samarco é o cuidado com os locais por onde os pets passam, principalmente terrenos irregulares e com grade no chão. Caso o animal prenda a unha, corre o risco de quebrar na base, o que complica, inclusive, o tratamento. “Às vezes, tem que esperar a unha crescer para cortar”, explica. E as unhas ficam quebradas e irregulares, sem poder ajustar.

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

 

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