Por Daniele Felix*
Diferentes níveis de estresse costumam aparecer ao longo do dia, o que tem levado muitas pessoas a buscarem meios de escape, inclusive, durante o expediente de trabalho ou de estudo. Não é de hoje que os brinquedos antiestresse caíram no gosto popular, mas a cada dia o mercado lança novos modelos, que conquistam, sobretudo, jovens e adultos.
Há uma década, a internet foi invadida pela febre dos fidgets e do asmr (autonomous sensory meridian response, ou resposta sensorial autônoma do Neridiano, em livre tradução). Pode-se dizer que os pioneiros na tendência foram os fidget spinners, o slime e as stressballs, artigos que, apesar de aparecerem com nomes ligados ao alívio de estresse, eram propagados como brinquedos infantis. De lá para cá, os modelos evoluíram e, impulsionados pelas redes sociais, tornaram-se objetos de desejo entre o público adulto.
Aestudante de engenharia de software Ana Teresa Schneider, de 19 anos, é um exemplo disso. Com o estouro dos squishies, brinquedos supermacios e agradáveis ao toque, no TikTok, ela decidiu adquirir um dosmodelos. “Eu estava em uma viagem e vi vendendo por um preço legal. Acabei levando”, conta.
A jovem gostou tanto da experiência, que compra um novo todo mês. A coleção é usada em alguns momentos do dia da estudante, que, além das aulas na faculdade, trabalha na empresa júnior do seu curso. Durante reuniões on-line, ela sempre está com um squishy em mãos. “Gosto de ter algo para mexer enquanto faço atividades mais entediantes”, relata.
Ana Teresa também recorre ao asmrs — conteúdo audiovisual que gera sons suaves, sussurros e movimentos lentos com o objetivo de provocar uma sensação física de formigamento relaxante — como um auxílio para dormir. “Teve uma época em que eu usava toda noite. Os vídeos me acalmam muito”, justifica.
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A ciência por trás dos fidgets
Segundo a neuropsicóloga Juliana Gebrim, quando o corpo está sob estresse, a amígdala participa da detecção de ameaças e da ativação do sistema de alerta. “Ao direcionarmos a atenção para estímulos sensoriais, como o tato, a visão, a audição ou a respiração, podemos ajudar o cérebro a sair um pouco do foco da preocupação e voltar para uma experiência mais concreta do momento presente”, detalha a especialista.
“Não significa que o objeto vá desligar a amígdala ou acabar com a ansiedade", adverte. A neuropsicóloga explica que, mesmo que ao utilizar um objeto antiestresse a pessoa sinta um alívio rápido, esse efeito não ocorre devido à liberação específica e mensurável de dopamina, endorfina e serotonina no cérebro. Na verdade,está relacionado à estimulação sensorial, ao direcionamento da atenção para uma sensação concreta e previsível de controle. “O cérebro pode sair momentaneamente do foco da preocupação e se concentrar naquela experiência corporal”, resume.
Juliana Gebrim expõe que o mais adequado, ao se referir aos artigos antiestresss, é falar em regulação da resposta ao estresse do que em uma descarga de neurotransmissores de felicidade. A ferramenta pode ajudar algumas pessoas, mas não substitui o tratamento de ansiedade, por exemplo.
Sob inquietação ou estresse, um movimento simples e repetitivo pode funcionar como uma forma de autorregulação para algumas pessoas. Gebrim alerta, porém, para os limites do uso dos fidgets. “Durante uma tarefa que exige muita concentração, esse estímulo pode dividir os recursos de atenção. Por isso, dependendo da pessoa e da atividade, pode ser mais interessante utilizar o objeto nos intervalos ou em momentos de maior tensão”, adverte.
Na prática
O motivo de os fidget toys não se aplicarem igualmente para todas as pessoas está, segundo a terapeuta ocupacional Catiuscia Homem, nas intensidades do estímulo sensorial de cada objeto. Os estímulos do squishy são principalmente táteis e proprioceptivos associados à pressão e à resistência do material, já o fidget spinner envolve movimento repetitivo, percepção visual e sensação cinestésica, além de exigir algum controle motor para ser manipulado. O pop-it, por sua vez, acrescenta um componente tátil e auditivo bastante característico: a pessoa sente a resistência da bolha e, ao pressioná-la, recebe também um retorno sonoro e mecânico, podendo ser interessante por oferecer uma relação previsível de ação e resposta.
A terapeuta adverte que não é como se um determinado fidget pudesse ativar uma área do cérebro de maneira isolada. “O sistema nervoso integra simultaneamente informações táteis, proprioceptivas, visuais, auditivas e motoras. O que funciona para uma pessoa pode ser indiferente ou até incômodo para outra”, ressalta.De acordo com Catiuscia, os brinquedos não são necessariamente desenvolvidos ou selecionados com uma finalidade terapêutica, apesar de oferecer uma experiência sensorial.
Na clínica, por exemplo, os recursos são utilizados de forma individualizada, baseados na necessidade de cada paciente e nos objetivos alvo. Além disso, existe uma diferença fundamental na forma como ele é utilizado. “O terapeuta ocupacional observa a resposta da pessoa, identifica quais estímulos favorecem ou dificultam sua participação e ajusta a atividade de acordo com suas necessidades”, explica. "Os fidgets por si só não configuram uma intervenção terapêutica. Nas terapias, o recurso é uma ferramenta dentro de uma estratégia planejada.”
Karoline Queiroz, 29 anos, profissional de marketing no entretenimento, começou a usar os fidget spinners como brinquedos por causa da febre nas redes sociais e, com o tempo, conheceu outros modelos. “Eu entrei numa vibe de cubo mágico, aqueles bem maleáveis, que acabaram funcionando como um fidget para mim”, conta. Ao receber o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) e de transtorno do deficit de atenção com hiperatividade (TDAH), encontrou outra função nos fidgets. “Descobri com as pessoas da minha terapia que eles poderiam ser mais do que um brinquedo, que poderiam ser um auxílio sensorial”, relata.
A jovem possui uma pequena coleção de fidgets e varia o uso dependendo da necessidade. “Os meus dois favoritos do momento são uma barra de manteiga que, quando aperto, demora a voltar, e umas bolinhas de crochê com ímã que não fazem barulho”. Ela brinca com os fidgets principalmente durante reuniões de trabalho, por isso a escolha por modelos silenciosos.
Os fidgets ajudam Karoline a parar com alguns sintomas físicos de ansiedade e estresse, como roer unhas e machucar as mãos, e a controlar a conhecida perna nervosa.Para ajudar na concentração e também relaxar, a mercadóloga utiliza ruídos marrons. Oposto dos ruídos brancos, que são sons com frequência mais aguda, o marrom utiliza timbres mais graves. Segundo Karoline, os ruídos ajudam a relaxar, mas, para concentração, procura o caminho inverso: música eletrônica e funk.
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
