
O chão, muitas vezes percebido apenas como uma superfície de apoio, tem conquistado espaço na composição de projetos de arquitetura e paisagismo. Na CasaCor Brasília 2026, diferentes ambientes mostram como a escolha dos materiais pode influenciar a estética, a funcionalidade e a maneira como o visitante experimenta os espaços. Mais do que sustentar móveis e delimitar áreas, o piso participa da construção de atmosferas por meio de cores, texturas e formas.
Em alguns projetos, ele se integra à decoração; em outros, assume o protagonismo e conduz o olhar de quem percorre o ambiente. A escolha do revestimento passa, assim, a fazer parte da narrativa de cada espaço. No Living Podcast, o arquiteto e urbanista Lucas Nascimento apostou em um carpete azul que ocupa praticamente toda a extensão do ambiente. A escolha faz parte de uma proposta que busca aproximar o visitante do universo das artes e transformar o espaço em um cenário de encontros, conversas e trocas de ideias, sem deixar de lado o impacto visual do piso.
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Segundo Lucas, o chão possui uma área visual expressiva e interfere diretamente na percepção dos ambientes. A partir dessa perspectiva, o carpete foi utilizado como uma base contínua, capaz de integrar o mobiliário, as obras de arte e os objetos que compõem o espaço. “Não queríamos uma superfície neutra sobre a qual os demais elementos simplesmente fossem posicionados. O piso precisava fazer parte da experiência”, afirma Lucas, ao explicar a intenção de transformar o chão em parte da composição.
A escolha do azul também está relacionada à proposta conceitual do ambiente, concebido como uma homenagem às sete belas-artes. A presença do teatro e do cinema aparece na materialidade do projeto, especialmente no uso do carpete e das extensas cortinas de veludo, que remetem aos grandes teatros e às antigas salas de exibição. A cor escolhida, no entanto, não foi discreta. O azul profundo envolve o visitante e estabelece uma identidade visual marcante, presente tanto no piso quanto nas cortinas.
Além do impacto visual, o carpete contribui para a experiência de quem utiliza o espaço. Como o Living Podcast foi pensado para receber encontros, conversas e gravações, características como o conforto e a redução dos ruídos provocados pela circulação foram consideradas na escolha do material. O arquiteto explica que o carpete proporciona uma pisada mais confortável e silenciosa e ajuda a reduzir reflexões sonoras causadas por superfícies rígidas. “Não se trata de um tratamento acústico técnico específico, mas de uma escolha material que colabora para construir uma atmosfera mais acolhedora e adequada à conversa”, esclarece.
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Texturas que aproximam arquitetura e natureza
A relação entre o piso e a identidade dos ambientes também aparece no trabalho do Studio Essere, responsável pelo espaço Entre-Nós. Em sua estreia na CasaCor Brasília, a arquiteta e designer Edoarda Trombini desenvolveu um projeto inspirado no Cerrado brasileiro, com materiais e texturas que buscam despertar diferentes sentidos e estabelecer uma conexão com o bioma.
No ambiente, o revestimento Organic Roccia, lançamento da Castelatto, foi utilizado no piso e em uma parte da parede. Composto por quatro formatos de peças que se encaixam como um quebra-cabeça, o material apresenta formas orgânicas que dialogam com a proposta do espaço e fazem referência às características do solo do Cerrado. A escolha do revestimento aconteceu durante uma conversa entre Edoarda e uma representante da marca. Inicialmente, a arquiteta pretendia preservar e restaurar o piso existente, mas a possibilidade de incorporar o lançamento modificou os rumos do projeto.
Embora seja produzido em concreto arquitetônico, o Organic Roccia apresenta formas e texturas que remetem a elementos naturais. A superfície mineral conversa com a pintura texturizada utilizada nas paredes e no forro, reforçando a referência aos solos arenosos e argilosos do Cerrado e criando uma unidade visual entre os diferentes planos do espaço. A tonalidade de areia do revestimento, por sua vez, estabelece um contraponto à paleta predominantemente terrosa do ambiente.
Para Edoarda, as escolhas materiais foram feitas de maneira intencional, com o objetivo de criar um espaço leve, acolhedor e conectado à natureza. A experiência sensorial do Entre-Nós, entretanto, não se limita ao contato visual com os materiais. A iluminação natural e artificial destaca as texturas do piso e das paredes, enquanto o aroma e a música são incorporados ao ambiente para estimular outros sentidos. Nesse contexto, o chão participa da construção de uma experiência que ultrapassa a função de revestimento.
Entre a memória e a sustentabilidade
No espaço O Avesso do Chão, o Estúdio Solo leva a discussão sobre o papel do piso para o paisagismo. Fundado há três anos pelos arquitetos e paisagistas Bárbara Oliveira Queiroz e Gabriel Domingues de Souza, o escritório desenvolveu um jardim em que o percurso do visitante é parte essencial da proposta. O destaque do projeto está no piso produzido com telhas de demolição cortadas e entremeadas com adobe.
A escolha está diretamente relacionada ao tema da CasaCor deste ano, Mente e Coração, e à intenção de convidar o público a direcionar o olhar para elementos que normalmente passam despercebidos. “Ressignificar o uso de elementos construtivos, transformando o que antes era a cobertura de uma casa em piso, traz uma perspectiva em relação à impermanência da vida”, afirma Gabriel.
O desenho do piso também foi pensado para interferir na maneira como o visitante percorre o jardim. Em vez de revelar o espaço de uma só vez, o caminho conduz a uma descoberta gradual, alternando texturas e criando diferentes percepções ao longo do trajeto. “Não queríamos que o visitante percorresse o caminho de forma automática, então fizemos o desenho do piso de forma que fosse descoberto aos poucos”, explica o paisagista. A proposta é que o chão, assim como a vegetação, contribua para despertar a curiosidade e estimular uma relação mais atenta com o ambiente.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
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