
Se antes a calça jeans parecia ter uma modelagem certa para cada época, a temporada atual mostra justamente o contrário, pois diferentes silhuetas dividem espaço e ampliam as possibilidades de uso do denim. Wide leg, baggy, barrel e relaxed aparecem entre os cortes que ganham força, com volumes, curvas e proporções capazes de transformar a maneira como a peça se relaciona com o corpo.
"Eu vejo o jeans vivendo um momento muito interessante de pluralidade de silhuetas: não existe mais uma única modelagem dominante. O que aparece com força nesta temporada e deve atravessar as próximas é uma convivência entre a wide leg e a baggy, agora com volumes mais construídos, a barrel, que traz uma arquitetura curva para o corpo, e a relaxed, que funciona quase como uma ponte entre a reta e a ampla", explica o diretor criativo e stylist Fernando Lackman.
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Ao mesmo tempo, há um movimento de retorno às linhas mais enxutas, com a straight, a cigarette e a skinny. A bootcut também reaparece, recuperando a sensualidade dos anos 1990 e início dos anos 2000, agora em uma leitura mais sofisticada.
A variedade de cortes acompanha uma mudança na própria relação da moda com o corpo. Em vez de uma única proporção determinar o que está em alta, diferentes volumes passam a conviver e permitem escolhas mais relacionadas ao estilo individual. "Para mim, isso revela uma mudança maior no comportamento da moda: o jeans deixou de ser refém de uma única tendência de corpo e passou a trabalhar diferentes proporções, movimentos e identidades. O futuro do denim não está em escolher entre justo ou largo, mas em entender qual volume, qual cintura e qual desenho de perna melhor traduzem o consumidor e seu estilo nesse tempo", avalia Fernando.
A pluralidade não se limita ao formato da calça. Lavagens, recortes, sobreposições e diferentes composições do denim também ajudam a definir a estética de cada produção. Para Fernando, a diversidade atual reforça a capacidade do jeans de assumir diferentes significados sem deixar de ser reconhecido. "Poucos materiais atravessaram tantas transformações mantendo uma identidade tão reconhecível", destaca.
Na avaliação do stylist, a trajetória do jeans passa por diferentes momentos, da associação ao trabalho, por sua resistência, à contracultura e, posteriormente, à indústria de luxo. "Não vejo o denim apenas como um tecido versátil, mas como uma espécie de linguagem universal da moda. Ele fala de trabalho, rebeldia, juventude, liberdade, consumo e, agora, também de sustentabilidade e permanência."
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Tudo junto e misturado
A calça é a forma mais imediata de pensar no material, mas o jeans há muito tempo ultrapassou esse espaço. Vestidos, saias, camisas, casacos, acessórios e até peças de alfaiataria incorporaram o denim. A expansão também abriu caminho para experimentações na moda, especialmente na combinação de diferentes pesos, cores e lavagens.
Fernando aposta justamente nessa mistura. "Uma camisa de denim como sobreposição, quase como uma jaqueta, uma saia ganha sofisticação quando colocada ao lado de uma peça de alfaiataria. E gosto especialmente da ideia de misturar diferentes tons de denim, porque o contraste entre lavagens cria uma espécie de contraponto do próprio tecido", afirma.
A designer de moda Thaís Noyb também destaca a presença do jeans em acessórios, uma extensão que demonstra como o material pode aparecer para além das roupas. "É incrível o potencial do denim e como esse tecido pode transitar em tantas peças criativas. Os acessórios jeans são maravilhosos para compor uma infinidade de looks", comenta.
No upcycling, processo de transformar peças usadas ou que seriam descartadas em novos produtos, o jeans encontra ainda outras possibilidades. A mistura de lavagens, a sobreposição de partes de diferentes peças e a criação de novas formas dão outro significado ao material.
Para Fernando, as marcas deixadas pelo uso também fazem parte desse processo. "Há uma beleza particular em uma peça que já passou por outro corpo, outro tempo, outra história. O desgaste deixa de ser defeito e passa a carregar as marcas do tempo e criar memória", observa.
A relação com a sustentabilidade também amplia o debate sobre o consumo de jeans. Em vez de pensar apenas na compra de uma nova peça, o reaproveitamento permite prolongar a vida útil do material e explorar características que já fazem parte de sua aparência.
Como escolher
Diante de tantas opções, os especialistas concordam que escolher um jeans não deve depender apenas do número indicado na etiqueta. Para Fernando, a numeração funciona como uma referência industrial, enquanto o caimento resulta da relação entre diferentes elementos.
"O caimento é um relacionamento entre corpo, modelagem, tecido e movimento", define. Por isso, uma peça do tamanho considerado correto pode não ser necessariamente a que apresenta o melhor resultado no corpo. Variações na modelagem podem provocar sobra na cintura, folga no quadril ou alterar as proporções da silhueta.
A composição do tecido também interfere. "Existe uma questão que considero fundamental: não pode ser tratado como uma matéria-prima única. Cada composição tem um comportamento. O algodão firma, o elastano ajusta, a cor cria estilo, e tudo isso interfere no resultado de uma peça", explica.
Thaís também prefere fugir de regras rígidas. "Gosto de observar o caimento e o que a pessoa quer valorizar. O recorte certo é aquele que cria equilíbrio na silhueta e, principalmente, faz a pessoa se sentir bem", afirma.
A escolha também passa por entender quais tendências conversam com o estilo de quem veste. Para Thaís, acompanhar a moda não significa necessariamente reproduzir cada novidade. "Nem tudo precisa ser incorporado literalmente. É interessante entender o que está acontecendo, mas também é muito importante adaptar ao seu estilo pessoal e criatividade", defende.
Para quem pretende montar uma seleção de jeans que atravesse diferentes temporadas, a designer aponta três peças como pontos de partida: uma calça reta, uma wide leg e uma jaqueta. "São muito versáteis e podem transitar por diferentes estilos e ocasiões. Essas modelagens seguem vivas por décadas e sempre estão muito presentes no dia a dia", explica.
Na escolha da lavagem, ela indica o azul médio tradicional, aquele denim mais clássico, como uma opção capaz de atravessar diferentes propostas.
All jeans, aprovado?
A combinação de diferentes peças do mesmo material continua entre as possibilidades para quem gosta de uma produção inteiramente jeans. Thaís é adepta da proposta e vê espaço para brincar com proporções e cores. “Sou grande amante de looks all jeans. Você pode encaixar em diversas ocasiões, brincar com modelagem e diferentes lavagens de jeans”, afirma.
Fernando, por outro lado, chama atenção para a necessidade de intenção na composição. Para ele, a presença do tecido em diferentes elementos do visual funciona quando existe uma relação entre as peças. “O jeans pode estar em quase todos os lugares, desde que exista uma razão estética para ele estar ali”, afirma. O stylist acrescenta: “Usar jeans em tudo não significa necessariamente fazer moda. Existe uma diferença entre versatilidade e excesso”.
Guia das modelagens
Wide leg: tem pernas amplas desde o quadril ou a parte superior da coxa até a barra. Cria uma silhueta alongada e de volume uniforme.
Baggy: mais larga e despojada, costuma ter volume desde o quadril, com folga generosa ao longo das pernas. A cintura pode ser mais marcada ou baixa.
Barrel: também conhecida como barril, apresenta pernas curvas: mais ajustadas na cintura e na barra e mais amplas no meio da perna. O formato cria uma silhueta arredondada.
Relaxed: tem modelagem soltinha, mas sem o volume acentuado de uma baggy ou wide leg. Fica entre a calça reta e as modelagens mais amplas.
Straight: de corte reto, mantém praticamente a mesma largura do joelho até a barra. É uma das modelagens mais tradicionais do jeans.
Cigarette: mais estreita e levemente ajustada ao corpo, segue uma linha próxima à skinny, mas geralmente com menos compressão. A barra costuma ser mais curta ou afunilada.
Skinny: acompanha o corpo desde o quadril até os tornozelos, com pernas bem justas. Ficou especialmente popular a partir dos anos 2000.
Bootcut: é mais ajustada nas coxas e abre discretamente a partir da altura do joelho. O formato foi pensado para acomodar a barra sobre botas e ganhou força entre os anos 1990 e 2000.
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
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