
Na última quinta-feira, antes de subir ao palco do auditório do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, pensei no que significa sentir-se seguro. Eu estava ali para falar em um Summit de Segurança Psicológica. No camarim, dividi espaço com Christian Dunker, de quem sou grande admiradora. A importância daquele encontro, para mim, ia muito além da palestra.
Segurança emocional não é a promessa de que nada vai nos abalar. É saber que existe algum chão quando isso acontecer: um vínculo, uma escuta, uma comunidade capaz de não nos deixar sozinhos diante do sofrimento e, mais que isso, saber que existem pessoas decididas a usar a força da lucidez para romper com os padrões adoecidos que corroem nossa estabilidade mental.
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Foi por isso que comecei falando da dimensão coletiva da saúde mental. Cada época tem seu zeitgeist, seu modo de viver, desejar e adoecer. Freud curava a histeria em uma sociedade atravessada por repressões e silêncios. Hoje, falamos de burnout e de crises de pânico; discutimos também o TDAH em um cotidiano que parece exigir atenção contínua enquanto disputa cada segundo dela. Influenciamos o espírito do nosso tempo e somos influenciados por ele. O sofrimento que se manifesta na pessoa pede que olhemos para o mundo à sua volta.
E o mundo à nossa volta está mudando depressa. A transformação digital me levou a uma pergunta incômoda: que responsabilidade assumimos pelo poder que estamos criando? Na Polymarket, até a data de um ataque militar pode virar objeto de aposta. A Palantir desenvolve ferramentas de IA para acelerar o planejamento militar e a seleção de alvos. São usos distintos da tecnologia, mas ambos nos obrigam a perguntar o que acontece quando a violência passa a caber tão facilmente em números, previsões e telas.
Uma previsão pode informar uma decisão. Não pode assumir a responsabilidade moral por ela. Quando há vidas em jogo, a capacidade de calcular mais rápido não nos autoriza a sentir menos. Foi aí que acrescentei à reflexão algo em que acredito profundamente: cuidar é uma forma refinada de exercer poder. Uma mãe tem mais força, recursos e capacidade de decisão do que um bebê. Quando cuida, usa essa vantagem para protegê-lo, ajudá-lo a crescer e criar as condições para que, um dia, ele possa agir por si. O cuidado alcança sua grandeza quando torna possível a autonomia do outro.
Essa é a pergunta que devemos fazer a quem desenvolve, contrata e utiliza a IA: o que essa tecnologia ajuda as pessoas a se tornarem? Uma ética do cuidado precisa orientar seus objetivos, seus limites e as decisões humanas sobre seu uso. Não basta que uma máquina saiba falar com delicadeza se o poder que colocamos em suas mãos continua indiferente às consequências.
Saí daquele palco profundamente tocada por ter podido levar essa mensagem. Por um instante, senti-me arauto de tempos mais auspiciosos. Não porque o futuro esteja garantido, mas porque ainda podemos escolher como construí-lo. De um berço a uma civilização, a segurança começa quando quem tem poder escolhe criar condições para que o outro viva e floresça.
Revista do Correio
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