
Mais do que fascínio mútuo, a relação entre moda e cinema sempre despertou conexões e curiosidades para além das telas. Nos últimos anos, especialmente impulsionado pelas redes sociais, o figurino cinematográfico deixou de ser apenas um recurso de cena para se tornar uma extensão do estilo pessoal das pessoas. Essa migração das telas para a vida real e as nuances que envolvem os bastidores da indústria têxtil mostram que vestir-se é, acima de tudo, um ato narrativo.
A transição da roupa do personagem para o cotidiano do espectador não acontece por acaso. A chave está na identificação emocional e no desejo de incorporar a atitude do filme. "A transição de um figurino para o guarda-roupa começa quando o look deixa de apenas vestir o personagem e passa a traduzir um estado de espírito ou um desejo latente do público. O espectador não quer necessariamente se fantasiar como o protagonista, mas, sim, absorver a atitude, o poder ou a estética que aquela peça representa na tela", explica a professora de moda Krystie Ribeiro.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Com a rapidez das plataformas de imagem e vídeo, esses elementos visuais são rapidamente traduzidos em conteúdos de "como copiar o look". Em seguida, o mercado de varejo capta esse movimento e produz silhuetas e texturas em larga escala. De acordo com Krystie, quando o consumidor mistura essas novidades ao seu acervo diário, o ciclo se completa: a roupa deixa de contar a história de um roteiro para se transformar em expressão pessoal.
E apesar de esse caminho ser ainda mais natural dentro dessa narrativa contemporânea, os passos largos foram dados no passado. Ainda que a internet não fosse o que é hoje, filmes como Garotas malvadas (famosas por 'às quartas usamos rosa'), O diabo veste Prada e De repente 30 foram primordiais para que o ideal de moda conquistassem outro entendimento dentro da ficção e do universo fashion.
Duas velocidades
No cenário atual, o cinema opera em dois ritmos distintos no ecossistema da moda. Por um lado, o setor alimenta microtendências passageiras e de curto prazo ao fornecer recortes visuais marcantes para as redes sociais. Plataformas como TikTok e Instagram descontextualizam figurinos de impacto, gerando picos imediatos de engajamento, que são rapidamente absorvidos pelo fast fashion e descartados logo em seguida. Segundo Krystie, um exemplo claro desse fenômeno ágil é a cinebiografia Michael (2026), na qual a icônica jaqueta vermelha e a alfaiataria militarizada geraram virais instantâneas em formato de vídeos curtos.
Por outro lado, o cinema também possui a capacidade de ditar tendências de longo prazo ao construir universos narrativos capazes de redefinir o zeitgeist (o espírito do tempo) e transformar hábitos reais de consumo. O próprio filme Michael atua como um catalisador estrutural ao ajudar a sedimentar o resgate da jaquetaria de couro e das peças varsity dos anos 1980 no guarda-roupa urbano atual. Na mesma linha, a professora de moda ressalta que longas como O diabo veste Prada 2 (2026) exemplificam essa força perene ao resgatar a sofisticação da estética de escritório.
"Assim, isso contribui para o mercado recolocar o corte seco, os sobretudos e a alfaiataria impecável no desejo do consumidor, quebrando a sequência de moda puramente casual dos últimos anos", detalha a especialista. Dessa forma, o cinema, de mãos dadas com a moda, é capaz de não somente retornar ícones do vestuário a longo prazo, mas também fazer com que eles sejam lembrados, mesmo que por um curto período de tempo.
O olhar crítico e criativo
Se por um lado o cinema dita estética, por outro ele tem o papel de questionar o próprio glamour que a moda projeta, revelando a complexa cadeia produtiva e as questões trabalhistas e ambientais. "O cinema tem a capacidade de revelar a distância entre a imagem cuidadosamente construída pela indústria da moda e as estruturas humanas, econômicas e sociais que sustentam essa imagem. Por trás de uma campanha impecável, existe uma cadeia produtiva que envolve trabalho, matéria-prima, logística e decisões comerciais", aponta o stylist Fernando Lackman.
Ele lembra que produções como Phantom Thread mostram a alta-costura por meio da obsessão e do rigor técnico, enquanto a discussão sobre sustentabilidade no setor precisa ir além do discurso de marketing. "A sustentabilidade não pode ser tratada apenas como um discurso de comunicação ou como uma paleta de tons naturais. Ela envolve rastreabilidade, durabilidade, remuneração e transparência. O cinema pode contribuir ao deslocar o olhar do consumidor da peça pronta para tudo aquilo que a torna possível. Uma roupa não nasce na arara de uma loja."
A relação histórica se inverteu: se antes o cinema apenas alimentava as passarelas, hoje estilistas criam mundos inteiros para o audiovisual. Trabalhos como o de Ruth E. Carter em Pantera Negra e Jacqueline Durran em Barbie exemplificam figurinos que estabelecem códigos socioculturais e regras para universos inteiros. Lackman destaca a importância de diferenciar as atuações nessa construção conjunta.
"O figurinista trabalha a serviço da narrativa, considerando personagem, contexto, continuidade e dramaturgia. O diretor criativo articula uma visão mais ampla, conectando conceito e linguagem. A moda oferece ao cinema uma compreensão refinada do corpo e da matéria; o cinema oferece à moda tempo narrativo, personagens e mundos possíveis", explica.
Ao final, tanto as roupas quanto o cinema moldam a forma como as pessoas se enxergam no dia a dia. "Seja por meio de um casaco marcante em cena, seja por uma tendência assimilada nas ruas, essa troca constante revela que vestir-se é uma das formas mais potentes de participar do mundo e de suas transformações", complementa.
Para o especialista, quando essas linguagens se encontram de maneira consistente, o resultado ultrapassa a tendência e alcança o território da cultura. "É nesse intervalo entre ficção e realidade que a moda revela uma de suas maiores potências: não apenas acompanhar o mundo, mas participar da maneira como o mundo se apresenta, se reconhece e se transforma", finaliza.
Collabs de luxo
As parcerias entre estúdios de cinema e maisons de luxo tornaram-se vitrines valiosas. Krystie Ribeiro explica que essa união dá certo quando a grife se subordina à história. "As colaborações agregam valor artístico genuíno na exata medida em que a grife serve à psicologia dos personagens e à construção do universo, e não a metas comerciais. O limite é rompido quando as escolhas de guarda-roupa são pautadas pela necessidade de promover uma coleção recente em detrimento da coerência da trama." Casos de sucesso incluem o uso de peças do acervo da Chanel para demonstrar o isolamento da Princesa Diana em Spencer (2021) e o investimento direto da Saint Laurent em produções autorais de diretores como Pedro Almodóvar e David Cronenberg.
Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio