Especial

Os segredos do Lago Paranoá: as histórias desconhecidas no coração de Brasília

Entre córregos escondidos, áreas de mata, comunidades ribeirinhas, aves, pescadores e esportes náuticos, o Lago Paranoá revela uma Brasília que vai muito além da paisagem vista das pontes

De longe, o Lago Paranoá parece conhecido. Está na fotografia da Ponte JK, no caminho de quem passa pela Esplanada, na paisagem das janelas dos apartamentos e nos fins de semana de quem procura um lugar para nadar, remar ou simplesmente sentar diante da água. Mas basta entrar no lago para perceber que a cidade vista das margens é apenas uma parte da história.

Na água, Brasília muda de escala. As construções ficam distantes, a vegetação ganha espaço e os cursos d'água que alimentam o reservatório conduzem a áreas que não aparecem nos roteiros mais conhecidos. Em alguns trechos, é possível passar minutos sem enxergar uma avenida ou um prédio. Em outros, a Torre de TV Digital surge ao fundo, lembrando que aquela paisagem aparentemente selvagem está no meio de uma capital.

Foi em uma dessas experiências que o lago revelou algumas de suas particularidades. O passeio pelo Lago Norte, com saída pela QI 5, começa entre a paisagem urbana e os braços do reservatório. A remada segue rumo ao Córrego do Torto e, aos poucos, a cidade fica para trás. A água abre caminho entre a vegetação, e o percurso, que lembra uma floresta aquática, deixa evidente o contraste entre as margens ocupadas e os trechos em que a natureza domina.

A pausa na Prainha, no meio do trajeto, muda o ritmo da manhã. Depois de remar, é possível entrar na água, tomar um banho e olhar o lago de outro ponto de vista. Dali, com a Torre de TV Digital ao fundo, a paisagem reúne natureza e arquitetura de um jeito improvável e muito brasiliense, que ganha outra dimensão quando vista de dentro da água.

Mais adiante, o caminho chega a um recanto de mata fechada e águas calmas que o músico e guia Fred Ribeiro, responsável pelo passeio de stand up paddle ou caiaque, chama de Amazônia do Lago Norte e de templo. A sensação, difícil de explicar a quem só conhece o lago pela orla, é a de ter encontrado um lugar escondido a poucos quilômetros de casa.

Ecossistema complexo

Experiências como essa ajudam a entender por que o Lago Paranoá não pode ser reduzido a um espaço de lazer. Ele é um sistema aquático complexo, formado a partir do represamento de cursos d'água e alimentado por diferentes córregos e nascentes. Ao mesmo tempo em que recebe água, também recebe sedimentos, nutrientes e impactos de uma bacia hidrográfica que cresceu junto com a cidade.

A professora titular da Universidade de Brasília, bióloga e doutora em engenharia ambiental Claudia Padovesi Fonseca explica que o Paranoá é um reservatório sujeito ao aporte contínuo de materiais provenientes da bacia de drenagem. Segundo ela, o transporte de sedimentos pelos tributários contribuiu, ao longo do tempo, para uma redução de aproximadamente 2km² da superfície do lago. A renovação completa da água também é relativamente lenta, com estimativa de cerca de um ano.

Claudia chama atenção ainda para a resposta dos organismos que vivem no reservatório às mudanças na qualidade da água. "As espécies e grupos aquáticos, como plantas aquáticas, algas, microfauna e peixes, respondem rapidamente às mudanças de qualidade de água. O efeito é em cadeia e atinge todas as espécies que habitam o lago, até as que não vemos", explica. Para ela, por isso, "é crucial o monitoramento contínuo" para garantir a qualidade das águas.

Isso significa que aquilo que chega ao lago não desaparece necessariamente de maneira rápida. Plantas aquáticas, algas, microfauna e peixes respondem às alterações na qualidade da água, criando um efeito em cadeia dentro do ecossistema. Por isso, o acompanhamento permanente é importante para entender as mudanças do reservatório e evitar que problemas ambientais se acumulem.

Um lago dentro do lago

Quem percorre os braços do Paranoá percebe que não existe uma única paisagem. Há áreas abertas, margens ocupadas, trechos com clubes e residências, regiões destinadas ao lazer e espaços em que a vegetação toma conta das margens.

A educadora física, pedagoga e mestre em educação ambiental e ecologia humana Fernanda Rachid conhece parte dessas áreas justamente pela água. Há cinco anos, ela realiza o Circuito Trilhas Pelas Águas do Lago Paranoá, projeto que utiliza canoas havaianas e caiaques para explorar regiões menos conhecidas do reservatório e trabalhar a educação socioambiental. "Esse nosso passeio é muito mais do que uma remada, mas é uma experiência em educação socioambiental", explica.

A proposta leva os participantes para áreas que dificilmente seriam conhecidas apenas pela orla. Os percursos passam por regiões abastecidas pelos córregos do Guará e do Riacho Fundo e revelam ambientes diferentes entre si, mesmo quando estão geograficamente próximos.

A Trilha da Lagoinha é um dos exemplos mais marcantes. O caminho acompanha áreas de vegetação mais fechada até chegar a um trecho conhecido pelos pescadores pelo nome de Lagoinha, que Fernanda descreve como uma espécie de Pantanal do Cerrado, principalmente pela paisagem e pela presença de aves de maior porte. As árvores se fecham sobre a água em determinados pontos e criam uma sensação de isolamento que contrasta com a proximidade da cidade. É um dos momentos em que fica mais evidente a capacidade do lago de esconder paisagens dentro da própria Brasília.

A diferença fica ainda mais clara quando se compara a Lagoinha com a trilha do Tapicuru. Embora os dois percursos estejam relacionados aos mesmos sistemas de abastecimento do Lago Paranoá, a paisagem muda. Fernanda compara o segundo ambiente a um igarapé amazônico, enquanto a Lagoinha apresenta características mais próximas de uma paisagem pantaneira. "A paisagem é completamente diferente, apesar de as duas correrem praticamente lado a lado", afirma.

A própria navegação revela uma mudança provocada pelo tempo. Fernanda conta que, quando começou a fazer a trilha, há cerca de cinco anos, era possível avançar aproximadamente 10 quilômetros pelo percurso. Hoje, o trajeto precisa ser interrompido antes por causa do assoreamento. A alteração também pode ser percebida por quem vive do lago.

Fernanda também observa mudanças na vegetação aquática. Em alguns pontos, o crescimento de plantas e algas passou a fazer parte da paisagem e interfere na experiência de quem navega. A percepção de quem está diariamente na água ajuda a mostrar como o ambiente responde rapidamente às alterações de chuva, correnteza, sedimentos e qualidade da água.

Quem vive da água

Na Vila Telebrasília, Hélio Sérgio Pereira da Silva, 53 anos, acompanha as transformações do Paranoá há décadas. Ele nasceu na vila, na década de 1970, onde a mãe já morava, e foi às margens do lago que aprendeu a remar e a pescar. Aos 8 anos, já entrava em uma canoa.

Hoje, são cerca de 45 anos de relação direta com o reservatório. Hélio passa aproximadamente seis horas por dia pescando, principalmente tilápia e traíra. Parte dos peixes é vendida para clientes fixos, alguns por indicação, que ligam para encomendar. Ele pesca, limpa e entrega. A Lagoinha, a mesma que encanta quem a visita de canoa, é o lugar onde mais gosta de pescar. "Para mim, representa a minha história, pois de lá tiro meu sustento, foi onde sempre vivi, onde aprendi minha profissão e tenho muita coisa boa para lembrar", conta.

Ao longo desse período, ele acompanhou mudanças na qualidade da água, na paisagem e na profundidade do lago. Para Hélio, o tratamento da água melhorou, e a qualidade dos peixes também. Por outro lado, o assoreamento tornou o lago mais raso em determinados pontos.

A relação com o Paranoá também ensinou a Hélio que existe uma diferença entre conhecer a orla e conhecer o lago. Há lugares que não podem ser alcançados facilmente a partir das margens e que acabam conhecidos principalmente por pescadores e canoeiros. "Lugares que não são acessíveis pela orla, que somente as canoas chegam e quem conhece realmente", explica.

Essa outra cartografia do lago também aparece nas trilhas de Fernanda. Para ela, além da biodiversidade, uma das histórias menos conhecidas é justamente a das comunidades ribeirinhas que viveram e ainda vivem em relação direta com o reservatório.

São pessoas que utilizaram o lago como espaço de trabalho, deslocamento e subsistência. A história não está apenas nos monumentos e nas grandes obras que aparecem nas fotografias de Brasília. Também está nas canoas, nos pescadores e nos caminhos percorridos durante décadas por quem aprendeu a reconhecer o lago pela água.

Giovanna Kunz/CB/D.A. Press -
Fotos: Giovanna Kunz/CB/D.A. Press -
Carlos Vieira CB/DA Press. -

Uma cidade que aparece entre as árvores

As aves são outro elemento que muda completamente a experiência de quem navega pelo Paranoá. A mestre em educação ambiental e ecologia humana Fernanda Rachid conta que já encontrou no percurso espécies como cabeça-seca, inhumas, garça-moura, socó-boi, diferentes tipos de garças, tapicurus, corócoró, carão, socós, trinta-réis, jaçanãs e garibaldis.

A presença desses animais não é apenas um detalhe do passeio. Ela mostra como os diferentes ambientes do lago funcionam como áreas de abrigo e alimentação para uma fauna diversificada. Muitas das aves têm movimentos migratórios ou sazonais, fazendo com que a paisagem se transforme ao longo do ano. "É tudo muito dinâmico", resume Fernanda.

A observação também ajuda a desmontar a ideia de que o lago é uma paisagem homogênea. Existem áreas mais abertas, margens densamente ocupadas, trechos de vegetação preservada, canais e córregos. Cada ambiente cria condições diferentes para a fauna e para a flora.

A professora Claudia Padovesi Fonseca, da UnB, reforça que os córregos e as nascentes que alimentam o reservatório são fundamentais para a renovação da água, para o equilíbrio ecológico e para a manutenção dos habitats aquáticos. As áreas de nascente também ajudam na retenção de sedimentos, na infiltração da água no solo e na proteção da biodiversidade. Essa diversidade, porém, convive com uma pressão constante, a expansão urbana da bacia hidrográfica.

O que chega à bacia hidrográfica

O Lago Paranoá não está isolado da cidade. Tudo que acontece em sua bacia pode, de alguma maneira, chegar ao reservatório. O crescimento urbano aumenta a pressão sobre córregos, nascentes e áreas de drenagem e exige acompanhamento permanente.

A Caesb monitora o lago e seus principais tributários por meio de análises físicas, químicas, biológicas e microbiológicas. O objetivo é acompanhar a evolução da qualidade ambiental e orientar decisões relacionadas à preservação do reservatório e ao abastecimento público.

O cenário atual é resultado de um processo de recuperação que começou décadas atrás. Segundo o presidente da Caesb, Luis Antonio Reis, a partir dos anos 1990, a companhia modernizou as Estações de Tratamento de Esgotos Brasília Sul e Brasília Norte, ampliando a remoção de nutrientes dos efluentes lançados no reservatório. A medida foi importante para recuperar a qualidade da água, que havia sido afetada pelo excesso de nutrientes.

O lago passou, então, a acumular novas funções. Além de lazer, esportes náuticos, natação e pesca, desde 2017 o Paranoá também integra o sistema de abastecimento público do Distrito Federal. A recuperação, no entanto, não significa que os problemas desapareceram. Sedimentos continuam chegando pelos tributários, a vegetação aquática precisa ser monitorada e a expansão urbana mantém pressão sobre a bacia. É nesse contexto que aparece uma das maiores intervenções ambientais previstas atualmente.

A Caesb publicou um aviso de licitação com valor estimado de R$ 323,8 milhões para obras de recuperação ambiental no braço sul do Lago Paranoá. Os recursos serão próprios da companhia. O projeto pretende recuperar a capacidade hídrica e a dinâmica de circulação da água, melhorando as condições de diluição, dispersão e assimilação do efluente tratado.

O acúmulo de sedimentos ao longo dos anos exige procedimentos como dragagem e limpeza de canais para recuperar plenamente determinadas áreas do lago. A intervenção também se relaciona diretamente às regiões percorridas por quem faz as trilhas de canoa e caiaque.

Fernanda, que acompanha essas mudanças de perto, observa que a alteração do ambiente já interfere na navegação. Ao mesmo tempo, áreas com grande concentração de plantas aquáticas e algas mostram como o equilíbrio do ecossistema pode ser afetado quando determinados processos se intensificam.

O músico Fred Ribeiro, que acompanha de perto um dos trechos do Lago Norte, também percebeu a mudança. Segundo ele, a presença de algas passou a incomodar nos últimos anos. "A água não fede. A gente não consegue ver óleo na água, nem nada. Assim, a olho nu, você não diz nada. Mas a presença da alga é uma denúncia", afirma. A observação é uma percepção de quem frequenta e monitora o trecho, e não uma conclusão científica sobre a causa da proliferação.

A percepção de Fred dialoga com a explicação de Claudia sobre a sensibilidade dos organismos aquáticos às mudanças na qualidade da água. Para a professora, algas, plantas aquáticas, microfauna e peixes respondem rapidamente às alterações ambientais, o que reforça a importância de acompanhar continuamente o reservatório. O desafio, portanto, não é simplesmente limpar o lago. É entender como cada intervenção interfere em um sistema que reúne água, sedimentos, vegetação, fauna, córregos, ocupação urbana e atividades humanas.

Não é de todos da mesma maneira

Existe ainda outra questão quando se fala em Lago Paranoá: quem consegue chegar até ele? O Brasília Ambiental (Ibram) afirma que existem diversos pontos públicos de acesso ao reservatório. Entre eles, estão o Deck Sul, a Prainha do Lago Norte, a Praça dos Orixás, os setores de clubes esportivos Sul e Norte, áreas próximas à Ponte JK, além de parques e unidades de conservação no entorno.

Também há trechos da orla sem infraestrutura estruturada nos quais o acesso ao lago é possível. Ao mesmo tempo, o próprio órgão reconhece que existem dificuldades históricas de acesso democrático em algumas áreas das QLs dos Lagos Sul e Norte, onde houve ocupação privada da orla. Algumas dessas situações já foram alvo de ações de desobstrução e recuperação de áreas públicas. "A população dispõe de acesso ao Lago Paranoá em diversos pontos, especialmente nos locais públicos de lazer já consolidados", afirma o Ibram.

A discussão é mais complexa do que simplesmente abrir todas as margens. O Lago Paranoá está inserido em uma Área de Proteção Ambiental e reúne diferentes unidades de conservação. Existem trechos em que a vegetação, as nascentes e as margens têm proteção mais rigorosa. O acesso precisa, portanto, ser conciliado com a conservação.

Para o Brasília Ambiental, é possível equilibrar preservação e democratização, desde que os espaços sejam utilizados de acordo com as regras ambientais. "Os próprios parques e unidades de conservação mencionados demonstram, na prática, que é possível oferecer espaços públicos para contemplação, lazer, atividades físicas e educação ambiental, desde que o uso respeite o zoneamento, a vegetação, a fauna e as demais regras de proteção aplicáveis", afirma o órgão.

Na prática, porém, a diferença entre ter o lago na cidade e conseguir vivenciá-lo continua evidente. É por isso que os esportes náuticos podem funcionar também como uma forma de aproximar diferentes públicos do reservatório.

Para Thiago Luz, do Cerrado Experience, a experiência de entrar no Lago Paranoá também muda a maneira como Brasília é percebida. Da água, a cidade aparece por outros ângulos, entre a Ponte JK, o Palácio da Alvorada, as casas do Lago Sul e do Lago Norte, os clubes e os trechos de vegetação mais preservada. "O Lago Paranoá revela uma Brasília completamente diferente daquela que estamos acostumados a observar das margens", afirma. Para ele, a navegação permite reconhecer a dimensão do reservatório e, ao mesmo tempo, perceber como a natureza permanece presente em diferentes pontos da capital.

Essa relação ganha outra camada quando a atividade é entendida como uma forma de conhecer a própria história do território. Thiago lembra que o lago é artificial e foi formado a partir do represamento de rios e cursos d'água da região, tornando-se, posteriormente, um dos principais espaços de lazer, esporte e convivência de Brasília. "Navegar pelo Lago Paranoá é, também, uma maneira de conhecer Brasília por uma perspectiva completamente diferente", resume. A proposta do Cerrado Experience parte justamente dessa aproximação entre turismo, natureza e memória, mostrando que explorar o lago pode significar mais do que contemplar a paisagem: pode ser uma maneira de criar vínculo com o lugar.

Fotos: Giovanna Kunz/CB/D.A. Press -
Giovanna Kunz/CB/D.A. Press -
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Quando remar também é pertencer

O projeto Filhos da Nação nasceu com a perspectiva de pertencimento. Criado em 2017, utiliza canoa, stand up paddle e a chamada RemoTerapia, em atividades voltadas ao desenvolvimento social e emocional de crianças e adolescentes.

A jornalista Gabriela Speziali, uma das fundadoras e coordenadoras do projeto, conta que muitas crianças atendidas chegam ao lago pela primeira vez. Algumas ficam impressionadas com o tamanho da água e com a paisagem. Outras têm medo de entrar. A experiência de remar acaba sendo também uma maneira de descobrir a própria cidade.

Durante as atividades, as crianças passam por lugares como a Ponte JK, que muitas conheciam apenas pela televisão, por fotografias ou pela janela de um ônibus. Estar dentro de uma canoa muda a relação com aquele espaço. "Isso também é democratizar o Lago Paranoá e o acesso aos esportes a remo", afirma Gabriela.

Segundo ela, as barreiras são econômicas e geográficas, mas também passam pela sensação de pertencimento. Muitas crianças moram longe do lago e não têm acesso a equipamentos, professores, transporte e estrutura necessários para praticar esportes náuticos. Existe, ainda, uma distância simbólica. Mesmo vendo o lago diariamente em fotografias e imagens da cidade, algumas crianças não crescem imaginando aquele espaço como um lugar que também pode ser delas.

O projeto tenta mudar essa percepção ao transformar a água em lugar de convivência. No SUP, a criança precisa encontrar o próprio equilíbrio. Na canoa, aprende que a remada de uma pessoa interfere na da outra e que o grupo precisa trabalhar em conjunto para avançar.

Hoje, segundo Gabriela, há fila de espera tanto no Filhos da Nação quanto no Filhas da Nação, projeto voltado para meninas de escolas públicas. Juntos, os projetos atendem 468 crianças e adolescentes de serviços de acolhimento e escolas públicas do Distrito Federal e mostram que existe demanda por atividades que aproximem a população do lago.

A democratização, nesse sentido, não significa apenas permitir que alguém chegue à margem. Significa criar condições para que essa pessoa possa permanecer, praticar esporte, conhecer a biodiversidade, entender a história daquele território e desenvolver uma relação de pertencimento com ele.

Entre remadas e motores

Quanto mais pessoas chegam ao lago, maior também é a necessidade de estabelecer regras de convivência. Hoje, o Paranoá reúne pescadores, nadadores, praticantes de SUP, canoagem, vela, barcos de passeio e embarcações motorizadas. São usos diferentes para um mesmo espaço, e nem sempre eles convivem sem conflitos.

A Capitania Fluvial de Brasília, responsável pelos aspectos relacionados à segurança da navegação e ao tráfego aquaviário, afirma que o aumento das atividades náuticas exige fiscalização e orientação permanentes. Entre as irregularidades que podem ser encontradas, estão problemas de documentação, falta de habilitação, excesso de passageiros e falhas nos equipamentos de segurança.

O lago também possui áreas destinadas a diferentes usos. Há regiões destinadas ao banho, aos esportes náuticos e à motonáutica. Nas áreas preferencialmente destinadas ao banho, existem restrições para a circulação de embarcações motorizadas.

Do ponto de vista ambiental, o Brasília Ambiental alerta que o uso inadequado de motores pode provocar perturbação da fauna, erosão das margens pela formação de ondas, colisões com animais e vazamentos de combustível ou óleo. A fiscalização ambiental de poluição, descarte irregular de resíduos, lançamento de efluentes e intervenções indevidas na vegetação cabe aos órgãos ambientais, enquanto a segurança do tráfego aquaviário é atribuição da Marinha.

"O cidadão pode aproveitar o Lago Paranoá e as unidades de conservação de seu entorno de forma responsável, priorizando os espaços públicos destinados ao lazer, como parques ecológicos, monumentos naturais e demais áreas de visitação geridas pelo Brasília Ambiental", orienta o órgão. A recomendação inclui não descartar lixo ou resíduos no lago e nas margens, não retirar plantas ou animais e não realizar intervenções na orla ou na vegetação sem autorização.

O crescimento do turismo e dos esportes náuticos, portanto, precisa vir acompanhado de planejamento. O lago pode ser mais acessível sem que isso signifique mais pressão sobre as áreas ambientalmente sensíveis.

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Um lago que ainda está em disputa

A relação entre acesso e preservação aparece até nas pequenas decisões do cotidiano. Em áreas do Lago Norte, por exemplo, moradores e frequentadores convivem com discussões sobre o fechamento de acessos para veículos. O músico e frequentador do lago Fred Ribeiro, que passou a explorar o Paranoá de stand up paddle durante a pandemia e posteriormente começou a realizar passeios, defende a proteção de áreas mais sensíveis e a redução de problemas provocados por carros, lixo e som alto.

Ao mesmo tempo, ele chama atenção para situações em que o fechamento de um acesso pode atingir pessoas que precisam dele. Fred cita o caso de uma cliente cadeirante que utilizava o carro para chegar mais perto da água e, posteriormente, deixou de conseguir acessar o ponto da mesma maneira.

A questão revela uma dificuldade que se repete em diferentes partes do lago, pois uma regra criada para combater um problema pode criar outro se não considerar os diferentes públicos que utilizam o espaço. A mesma lógica vale para o crescimento das atividades náuticas. Mais pessoas na água podem significar mais acesso e mais interesse pela preservação, mas também podem aumentar a pressão sobre fauna, vegetação e margens.

Para o Brasília Ambiental, a ampliação do acesso precisa vir acompanhada de definição de locais adequados, controle de resíduos e efluentes, proteção da vegetação, prevenção de erosões, educação ambiental e fiscalização integrada.

O que existe embaixo da água

Nem todos os segredos do Paranoá estão nas margens ou nos córregos. Alguns estão no fundo. A formação do reservatório alterou profundamente a paisagem da região. A inundação cobriu áreas que existiam antes da construção do lago, incluindo a antiga Vila Amaury, onde viviam trabalhadores ligados à construção de Brasília.

A professora Claudia Padovesi Fonseca explica que o fundo do lago possui sedimento fofo, revolvido pela ação dos peixes e das correntes. Por isso, a visibilidade pode ser muito baixa em determinadas profundidades, e mergulhos sem equipamentos e acompanhamento adequado podem ser perigosos.

É uma camada menos visível da história de Brasília. A cidade que aparece nas fotografias das pontes foi construída, também, sobre paisagens que deixaram de existir depois do enchimento do reservatório. O lago, portanto, guarda simultaneamente memória e transformação. Há a Brasília que cresceu ao redor dele e a Brasília que ficou debaixo d'água.

Talvez, o maior segredo do Lago Paranoá seja justamente o fato de que ele não é estático. A paisagem muda com a chuva e com a seca. As aves aparecem em épocas diferentes. A vegetação cresce e recua. Os sedimentos se acumulam. Os cursos d'água carregam materiais para o reservatório. As margens são ocupadas, recuperadas, protegidas ou disputadas. Novas atividades surgem e outras desaparecem.

Para quem observa o lago da Ponte JK ou do Pontão, essas transformações podem passar despercebidas. Para quem pesca todos os dias, rema pelos córregos ou acompanha a água durante anos, elas são parte da rotina. Hélio percebe o assoreamento. Fernanda constata a mudança dos caminhos. Fred observa as alterações na vegetação e a presença de algas. A Caesb acompanha indicadores físicos, químicos, biológicos e microbiológicos. Os órgãos ambientais monitoram ocupações, vegetação, resíduos e atividades. A Marinha acompanha a segurança das embarcações. E crianças que antes apenas viam o lago de longe começam a entrar na água pela primeira vez. São diferentes maneiras de conhecer o mesmo lugar.

No Lago Norte, depois de sair da QI 5, a remada atravessa um cenário que mistura a cidade e a mata. A pausa na Prainha convida a um mergulho e o templo aparece na Amazônia do Lago Norte, com uma paisagem que parece de fora de Brasília. Na Lagoinha, as aves se misturam à vegetação, mostrando a beleza de um ecossistema completo. É justamente essa variedade que torna o Paranoá difícil de resumir. Ele pode ser área de lazer, fonte de abastecimento, território de pescadores, espaço para esporte, ambiente de educação, abrigo para aves, sistema ecológico e parte da memória da construção de Brasília ao mesmo tempo.

Conhecer esse lago exige mais do que olhar para ele. É preciso entrar na água, acompanhar seus córregos, ouvir quem vive de suas margens, observar as aves, entender o que chega pela bacia e reconhecer os conflitos que existem em torno de seus acessos. Porque, por trás da paisagem que Brasília aprendeu a reconhecer, existe outro lago. Um lago de árvores, canais, aves, peixes, pescadores, crianças, remadores, sedimentos e histórias. E ele continua mudando enquanto a cidade muda ao seu redor.

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