
Não passar embaixo da escada, bater na madeira para afastar uma catástrofe ou desvirar o chinelo para proteger a mãe são gestos automáticos no dia a dia. Ações impensadas, executadas por puro impulso, mas que continuam enraizadas na rotina de grande parte dos brasileiros.
Por meio de cartas, simpatias, superstições ou cristais, muitos buscam nesses rituais um guia espiritual e emocional. Por trás do costume, existe uma explicação biológica: a mente humana busca padrões e certezas a todo custo. Como defende a psiquiatra Elaine Bida, o ser humano tem uma necessidade natural de encontrar sentido para o que vivencia, sobretudo diante de situações que fogem ao seu controle.
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Nesses cenários, a ansiedade costuma ser o gatilho que dispara a busca por garantias. O uso de amuletos, roupas específicas ou comportamentos repetitivos funciona como um escudo psicológico, devolvendo a sensação de previsibilidade e aliviando a tensão. "Rituais e superstições podem ser saudáveis quando trazem conforto, mas merecem atenção quando se tornam uma obrigação ou passam a limitar a liberdade da pessoa", alerta a psiquiatra.
Elaine ressalta a diferença entre uma superstição comum e os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC): o sofrimento associado ao comportamento. "A superstição costuma ser uma escolha. No TOC, o ritual, muitas vezes, é vivido como uma necessidade difícil de resistir, para que algo ruim não aconteça."
A energia dos cristais
Se, no campo da psiquiatria, esses rituais se justificam pela busca de controle emocional, para quem trabalha diretamente com as práticas holísticas, a explicação passa pelo reequilíbrio de energias. Diane Donaire, especialista em cristais energéticos, explica como a procura por cristais cresceu justamente pela busca por um ancoramento no meio da rotina agitada. "As pessoas têm procurado os cristais, principalmente, por quatro motivos: proteção, amor-próprio, prosperidade e equilíbrio emocional. É um processo de autorreflexão para entender quais são as principais necessidades e de que forma podemos concentrar energia nelas."
Nesse sentido, existe uma diversidade muito grande de pedras e de papéis desempenhados por elas. "Para quem quer iniciar, recomendo cristais mais conhecidos, como o quartzo rosa, que, por exemplo, é associado ao amor-próprio e ao acolhimento. Além disso, a ametista representa a tranquilidade e a espiritualidade, enquanto o olho de tigre simboliza coragem e determinação", detalha Diane, reforçando que o mais importante é a intenção colocada sobre as pedras.
Ademais, outros elementos são recomendados por Diane para afastar energias negativas. "Os incensos são muito procurados, principalmente os de alecrim, arruda, sálvia e palo santo, que possuem uma longa história de utilização em práticas de purificação. Também temos as defumações com ervas, os banhos ritualísticos e os sabonetes energéticos, que transformam pequenos momentos do cotidiano em práticas simbólicas de renovação."
Objetos como os cristais podem trazer uma renovação aos ambientes, no entanto, a energia de um local não depende somente deles. "Abrir as janelas, permitir a entrada de luz natural, manter a casa organizada e criar momentos de silêncio são atitudes simples que podem trazer uma sensação real de bem-estar e de cuidado", elucida a cristaloterapeuta.
A tradição das simpatias
Além dos cristais e da ciência, essa busca por proteção se manifesta nos lares brasileiros em uma sobreposição de crenças que ignora contradições teóricas. Para muitos, a fé institucionalizada caminha lado a lado com rituais populares transmitidos entre gerações.
A história de Aparecida Villa Rubio, aposentada de 82 anos, mistura-se entre sua fé católica e sua crença nas simpatias. Ensinada desde criança, ela realiza esses rituais quando quer afastar energias negativas, curar algumas doenças ou atrair seus desejos. "As simpatias sempre foram uma opção, principalmente quando não tínhamos acesso aos tratamentos adequados. Quando é uma questão de saúde, por exemplo, após alguma cirurgia, eu pegava algumas plantas específicas e fazia uma simpatia. Não é um remédio, é um tratamento energético que ajuda na cura dessas questões", justifica Aparecida.
Ademais, a aposentada mantém atitudes específicas para certas situações que a acompanham pela vida toda. "Quando meus netos tinham soluço, eu arrancava um fio da roupa, fazia um bolinho e colava na testa deles e passava na hora. E também faço cruz com saliva em uma área do corpo que está formigando para parar. São esses conhecimentos certeiros que eu passo para minha filha e meus netos", finaliza.
O caso de dona Aparecida não é único. Com o sincretismo religioso e a herança de conhecimentos ancestrais, grande parte da população brasileira reproduz essas simpatias, por vezes sem refletir sobre sua origem. Usar determinadas cores — como o amarelo — no ano-novo ou colocar sal grosso e folhas de louro atrás da porta se incorporaram organicamente à tradição cultural do país. Mais do que a simples coexistência de tradições distintas, ele representa uma estratégia de preservação e adaptação cultural, em que elementos do catolicismo popular, das religiões de matriz africana e de saberes nativos se entrelaçaram organicamente.
A leitura do futuro
Assim como os banhos, as simpatias e o uso dos minerais, a leitura de cartas é outro caminho amplamente buscado por quem tenta decodificar as incertezas do cotidiano. Seja por meio do tarô, seja do baralho cigano, essas lâminas deixaram de ser vistas apenas como oráculos de previsão do futuro e passaram a ocupar um espaço de escuta e acolhimento emocional.
A taróloga e cartomante Rafaela Rosa desmistifica esse processo de leitura das cartas. "As pessoas podem trazer um preconceito, mas o que é preciso entender é que o futuro só cabe a elas. Então, nós damos um norte, mas quem tem a decisão nas mãos é a pessoa que pergunta."
Além disso, a interpretação das cartas pode variar de acordo com a sensibilidade de cada profissional. "A espiritualidade é algo que eu acredito que nascemos com ela. Em algum momento da vida, decidimos se vamos ou não abrir essa porta. Mas os espíritos se manifestam de maneiras distintas em cada um. Por isso, não damos uma resposta exata, mas, sim, um caminho a ser seguido", aprofunda a cartomante. Ela explana também que o amor é o tópico mais procurado em suas consultas.
Ao contrário da maioria, Luísa Vargas, estudante de 23 anos, prefere não perguntar sobre questões amorosas. "Normalmente, pergunto sobre trabalho, financeiro e saúde. E as leituras apontaram algo que aconteceu, o que é bom, porque, se tenho um problema, posso tentar resolvê-lo antes que vire algo maior." Mais do que meras superstições ou hábitos irracionais, essas práticas funcionam como ferramentas de acolhimento e escuta interna. Ao unir a razão ao misticismo, a cultura brasileira demonstra que, no fundo, acender um incenso, tirar uma carta ou dobrar um fio de linha na testa são formas genuínas de exercer a esperança e retomar o controle sobre a própria vida.
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
Revista do Correio
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