As infecções do trato urinário (ITU) estão entre as infecções bacterianas mais comuns, afetando principalmente crianças e idosos. Pessoas com fatores de risco, como baixa imunidade, obstruções urinárias ou diabetes, têm ainda mais chances de desenvolver essas infecções. O diagnóstico tradicional envolve a cultura de urina, que identifica a presença de bactérias, e o antibiograma, que determina quais antibióticos serão eficazes.
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Esse processo costuma levar de três a cinco dias, dependendo do crescimento bacteriano, e durante esse período os médicos geralmente iniciam o tratamento com antibióticos antes de saber se eles realmente vão funcionar. "Até sabermos o resultado do antibiograma, iniciamos o tratamento com um antibiótico e só o ajustamos se houver resistência bacteriana", explica o urologista Roberto Barros, do Hospital Home, em Brasilia.Esse processo costuma levar de três a cinco dias, dependendo do crescimento bacteriano, e durante esse período os médicos geralmente iniciam o tratamento com antibióticos antes de saber se eles realmente vão funcionar. "Até sabermos o resultado do antibiograma, iniciamos o tratamento com um antibiótico e só o ajustamos se houver resistência bacteriana", explica o urologista Roberto Barros, do Hospital Home, em Brasilia.
Diante desse cenário, cientistas da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, desenvolveram dois métodos que aceleram os testes de resistência em infecções do trato urinário (ITU). Um deles utiliza uma placa de ágar com discos de antibióticos analisada por um algoritmo que estima a quantidade de bactérias na urina, enquanto o outro consiste em um dispositivo de diagnóstico em papel capaz de identificar oito espécies bacterianas por mudanças de cor que indicam resistência. Segundo a equipe de pesquisa, as duas tecnologias fazem parte do projeto de inicialização BugSense e permitem testar rapidamente a suscetibilidade das bactérias aos antibióticos, ou seja, verificar se o medicamento consegue inibir ou matar os microrganismos, ajudando a escolher o tratamento mais eficaz.
O estudo, divulgado no jornal Microbiology Spectrum, revela que o novo método com a placa de ágar antecipa em um dia o diagnóstico das infecções bacterianas e é voltado para uso clínico profissional. A pesquisadora e co-inventora do BugSense, Sarah Wali, explicou ao Correio o funcionamento da técnica: "A amostra com bactérias é aplicada na placa. Se o antibiótico for eficaz, forma-se ao redor dele uma área sem crescimento bacteriano, chamada halo de inibição. Quanto maior o halo, mais sensível é a bactéria ao medicamento."
Um sistema automático analisa a placa, mede o halo e transforma esses dados em valores padronizados, comparados com os critérios do Eucast (Comitê Europeu de Teste de Suscetibilidade a Antimicrobianos) para determinar se a bactéria é resistente ou sensível. Segundo Wali, o método mantém os mesmos mecanismos biológicos do padrão-ouro atual, mas elimina etapas do processo tradicional.
O diagnóstico convencional envolve três etapas: incubação da amostra por 24 horas, padronização da concentração bacteriana e nova incubação com discos de antibióticos por mais 24 horas. "Nosso método correlaciona a resistência com a concentração inicial da amostra usando algoritmos avançados, economizando tempo e custos, permitindo um início de tratamento mais rápido e menos despesas com acompanhamento", afirma Wali.
Ela destaca, ainda, que o teste contribui para o uso mais preciso de antibióticos. Com menos incerteza diagnóstica, os médicos podem optar por medicamentos direcionados ou até suspender o uso quando não há infecção bacteriana. "Estudos recentes mostram que entre 30% e 50% das prescrições na Alemanha são desnecessárias. No mundo, esse número é ainda maior devido ao uso de antibióticos sem receita", alerta.
Dispositivo
O teste em papel aproxima o diagnóstico do paciente, oferecendo um exame simples, comparável a um autoteste, mas com precisão semelhante à de um laboratório. A tecnologia permite decisões terapêuticas mais rápidas e direcionadas, além de também reduzir o uso desnecessário de antibióticos. "É um formato de diagnóstico em papel, fácil de manusear, adequado para cuidados primários ou até uso doméstico, dependendo das normas regulatórias", explica a pesquisadora.
No contexto clínico, o método funciona como uma ferramenta de triagem, já que pacientes podem apresentar múltiplas complicações. "Embora não substitua um perfil completo de resistência, ele fornece informações rápidas e confiáveis sobre a presença e a carga bacteriana, auxiliando na decisão sobre o uso de antibióticos, na identificação de resistência aos medicamentos mais comuns e na indicação de testes adicionais", afirma a especialista. Ela ressalta que, até o momento, foram testados apenas os antibióticos mais usados na Alemanha, mas o teste pode ser adaptado a outros remédios.
De acordo com os cientistas, os dados iniciais do teste baseado em ágar mostram que ele tem desempenho comparável ao método tradicional. Em amostras de urina testadas diretamente, o novo teste apresentou uma correlação de aproximadamente 94% com o método padrão. Os pesquisadores continuam a otimizar o teste, por exemplo, em casos de concentrações bacterianas muito baixas ou infecções mistas.
"Nossa estratégia de desenvolvimento visa manter a confiabilidade clínica, ao mesmo tempo em que melhora o tempo de resposta e a facilidade de uso. A validação contínua busca demonstrar desempenho equivalente ou não inferior aos métodos laboratoriais estabelecidos", diz Wali. Para o dispositivo em papel, os estudos mostraram sensibilidade de 95% e especificidade de 100% em comparação ao padrão-ouro.
Hipertexto
Ferramenta adequada
Uma placa de ágar é um material utilizado em laboratórios, principalmente na área da microbiologia, para o cultivo e a observação de microrganismos como bactérias e fungos. Ela consiste em uma placa rasa, geralmente chamada de placa de Petri, feita de plástico ou vidro, que contém ágar, uma substância gelatinosa extraída de algas marinhas. O ágar serve como meio sólido que fornece condições adequadas para o crescimento dos microrganismos, permitindo que eles se desenvolvam e formem colônias visíveis. Por ser transparente e permanecer sólido à temperatura ambiente, o ágar facilita a observação do crescimento microbiano.
Para saber mais
Controle de qualidade
Os avanços nos testes rápidos de diagnóstico têm trazido benefícios importantes no tratamento de infecções. De acordo com o infectologista João Antônio Gonçalves, do Hospital Beneficiência Portuguesa, em São Paulo, quanto mais rápido é possível identificar a resistência de uma bactéria, menor é a chance de erros no diagnóstico. “Pode acontecer de uma bactéria resistente não ser detectada corretamente, e erros como esse podem levar a infecções graves e até à mortalidade”, explica. Além disso, a agilidade desses testes possibilita ajustar o uso de antibióticos de forma mais eficiente, diminuindo o tempo de tratamento e ajudando a prevenir a resistência bacteriana. “Ter um diagnóstico mais rápido e preciso torna o tratamento mais assertivo”, afirma João.
O especialista também destaca os desafios dos testes caseiros. "O que muitos fazem é o chamado point of care, testes realizados próximos ao paciente, seja em clínicas, consultórios ou até em casa. Apesar da praticidade, esses testes não dispensam controle de qualidade nem interpretação profissional. Não é tão simples quanto parece”, ressalta. Outro ponto importante, segundo João, é a fase pré-analítica, isto é, a coleta da amostra antes do exame. “Por exemplo, a urina pode ser contaminada se não for coletada corretamente, apresentando bactérias da pele ou de outros locais, o que interfere no resultado”, explica. Para ele, embora os testes rápidos ofereçam vantagens significativas, a precisão e a segurança do diagnóstico continuam dependendo de procedimentos adequados e do acompanhamento de profissionais de saúde.
Saiba Mais
*Estagiária sob a supervisão
de Marcelo Abreu
Ferramenta adequada
Uma placa de ágar é um material utilizado em laboratórios, principalmente na área da microbiologia, para o cultivo e a observação de microrganismos como bactérias e fungos. Ela consiste em uma placa rasa, geralmente chamada de placa de Petri, feita de plástico ou vidro, que contém ágar, uma substância gelatinosa extraída de algas marinhas. O ágar serve como meio sólido que fornece condições adequadas para o crescimento dos microrganismos, permitindo que eles se desenvolvam e formem colônias visíveis. Por ser transparente e permanecer sólido à temperatura ambiente, o ágar facilita a observação do crescimento microbiano.
Controle de qualidade
Os avanços nos testes rápidos de diagnóstico têm trazido benefícios importantes no tratamento de infecções. De acordo com o infectologista João Antônio Gonçalves, do Hospital Beneficiência Portuguesa, em São Paulo, quanto mais rápido é possível identificar a resistência de uma bactéria, menor é a chance de erros no diagnóstico. “Pode acontecer de uma bactéria resistente não ser detectada corretamente, e erros como esse podem levar a infecções graves e até à mortalidade”, explica. Além disso, a agilidade desses testes possibilita ajustar o uso de antibióticos de forma mais eficiente, diminuindo o tempo de tratamento e ajudando a prevenir a resistência bacteriana. “Ter um diagnóstico mais rápido e preciso torna o tratamento mais assertivo”, afirma João.
O especialista também destaca os desafios dos testes caseiros. "O que muitos fazem é o chamado point of care, testes realizados próximos ao paciente, seja em clínicas, consultórios ou até em casa. Apesar da praticidade, esses testes não dispensam controle de qualidade nem interpretação profissional. Não é tão simples quanto parece”, ressalta. Outro ponto importante, segundo João, é a fase pré-analítica, isto é, a coleta da amostra antes do exame. “Por exemplo, a urina pode ser contaminada se não for coletada corretamente, apresentando bactérias da pele ou de outros locais, o que interfere no resultado”, explica. Para ele, embora os testes rápidos ofereçam vantagens significativas, a precisão e a segurança do diagnóstico continuam dependendo de procedimentos adequados e do acompanhamento de profissionais de saúde.
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