
A deputada Erika Hilton (PSol-SP) protocolou, ontem, no Ministério Público de São Paulo (MP-SP), um pedido de investigação contra o apresentador Ratinho, do SBT, por ter questionado a eleição dela para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara. No programa de quarta-feira, ele discordou de colocar a parlamentar à frente do colegiado e afirmou que "ela não é mulher, ela é trans". Erika solicita a abertura de inquérito civil e o ajuizamento de uma ação civil pública, além de requerer uma indenização de R$ 10 milhões por danos morais coletivos contra a população trans e travesti.
"As declarações proferidas pelo apresentador não se limitaram a uma crítica política ou a um debate institucional acerca da atuação da parlamentar, mas consistiram na negação explícita de sua identidade de gênero e na afirmação reiterada de que ela não seria uma mulher. Esse elemento constitui o núcleo da conduta aqui narrada e evidencia o caráter discriminatório do discurso proferido", diz trecho da representação de Erika contra Ratinho.
Segundo a deputada, os comentários do apresentador repetem argumentos que negam sua identidade de gênero. Na representação, ela ressalta que as declarações teriam sido baseadas na "repetição de afirmações destinadas a negar a condição feminina da parlamentar e a sustentar que mulheres trans não poderiam ser consideradas mulheres" em espaços institucionais. Erika vai além: defende que a eventual indenização seja direcionada ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos e aplicada em iniciativas e organizações para proteção de mulheres trans, travestis, além das mulheres cisgênero vítimas de violência de gênero.
Ao compartilhar a decisão no X (antigo Twitter), Erika explicou que "o discurso de Ratinho foi, sim, para me atacar e atacar as pessoas trans. Mas demonstrou a misoginia, o ódio primal que essa figura nojenta tem de toda e qualquer mulher que não siga o roteiro que ele considera certo. Podem espernear. Podem latir. Eu sou a presidenta da Comissão da Mulher".
O comentário de Ratinho foi feito horas depois de Erika ter sido eleita presidente da comissão. "Teve uma votação hoje (quarta-feira) e deram a Comissão da Mulher para uma mulher trans. Eu não achei muito justo, não. Tem tanta mulher... Por que vai dar para uma mulher trans?", cobrou. O apresentador disse, também, que "para ser mulher, tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias".
Sem respaldo
O SBT discordou, em nota, dos comentários de Ratinho. "O SBT repudia qualquer tipo de discriminação e preconceito, que são o oposto dos princípios e valores da empresa. As declarações do apresentador Ratinho, expressadas ao vivo ontem (quarta-feira) em seu programa, não representam a opinião da emissora e estão sendo analisadas pela direção da empresa, que tratará do tema internamente a fim de que nossos valores sejam respeitados por todos os colaboradores", observou.
A deputada Duda Salabert (PDT-MG), que também é mulher trans, solidarizou-se com Erika. Para ela, os ataques de Ratinho foram "revoltantes", por tratar-se de transfobia em rede nacional. "Essas falas criminosas contra a deputada Erika Hilton assumem uma dimensão coletiva e atacam toda comunidade de travestis e transexuais", frisou, acrescentando que também acionou o Ministério Público contra o apresentador.
Já o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) criticou, pelas redes sociais, a escolha da deputada para a presidência da comissão. "Não deveriam deixar a comissão de mulheres acontecer", disse.
*Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi
Saiba Mais
Bianca Lucca
RepórterJornalista pelo Centro Universitário de Brasília, apaixonada por literatura e questões sociais. Passou pela editoria de Cultura e agora escreve para o CB On-line, onde assina o Blog Daquilo.
Amanda S. Feitoza
Jornalista formada pela UnB, com passagens pela Secretaria de Segurança Pública do DF, pelo Instituto Federal de Brasília (IFB) e pela Máquina CW. Entusiasta nas áreas de cultura, educação e redes sociais, integra a equipe do CB-Online.

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