
Os jovens brasileiros entre 13 a 17 anos sofrem cada vez mais abusos sexuais; engravidam mais e usam menos preservativos; fumam mais cigarros eletrônicos; têm mais casos de depressão e preocupações com a imagem do próprio corpo. O alerta é da 5ª edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada ontem. Os dados são relativos a 2024 e foram entrevistados estudantes das redes pública (84,3%) e privada (15,7%), do 7° ao 9° ano do ensino fundamental e do 1° ao 3° ano do ensino médio.
O Distrito Federal tem o maior percentual de estudantes (43%) que já experimentaram cigarros eletrônicos (vape/pod) no país. As meninas são as mais vulneráveis na experimentação (44,5%), contra 43% dos meninos. Além disso, nas escolas públicas o percentual de utilização é maior do que nas privadas: 48,5% contra 29,7%.
De acordo com a pesquisa, em todo o país cerca de 29,6% dos estudantes de escolas públicas e particulares entre 13 a 17 anos já experimentaram o cigarro eletrônico. Da mesma forma que no DF, as meninas são mais expostas a essa iniciação: 31,7%, contra 27,4% entre os meninos. Além disso, 26,3% usaram o produto ou similares nos últimos 30 dias.
O cigarro eletrônico foi experimentado em 16,8%, em 2019, e passou para 29,6%, em 2024. Essa experimentação é mais frequente entre estudantes da rede pública — 30,4% contra 24,9% da privada.
Esse crescimento se deu de forma generalizada em todas as regiões do país. Centro-Oeste (42,0%) e Sul (38,3%) têm os maiores maiores percentuais.
Para o gerente da pesquisa, Marco Andreazzi, a experimentação e o uso do cigarro eletrônico estão se ampliando rapidamente entre os adolescentes. A gerente pedagógica do Colégio Católica Brasília, a psicóloga Nayara Varela, observa que a popularização, a pressão social e a facilidade de acesso são fatores que contribuem para o aumento do uso.
"Além disso, a necessidade de pertencimento do adolescente a determinados grupos pode induzi-los a usar essa e outras drogas para que se sintam parte e se afirmem no meio o qual estão inseridos", alerta Nayara.
Relação forçada
A pesquisa expõe que o percentual de jovens entre 13 a 17 anos obrigados a terem relações sexuais foi de 8,8%, sendo que 26,6% dos entrevistados informaram que sofreram violência sexual de outros membros da família.
A pesquisa mostra que, em 2024, 18,5% dos escolares informaram terem passado por situação em que alguém o tocou, manipulou, beijou ou expôs partes do corpo contra a sua vontade. Essa violência foi reportada, principalmente, por mulheres — 26,0% passaram por essa situação, mais do que o dobro dos meninos (10,9%).
Comparado com 2019, houve um aumento percentual de 3,8% de estudantes que sofreram assédio sexual. As situações foram mais reportadas por adolescentes de 16 a 17 anos (20,9%) e de 13 a 15 anos (17,1%). Entre os agressores apontados pelos alunos estavam: outra pessoa (24,6%), outros parentes (24,4%) e desconhecido (24,0%).
O levantamento aponta que, em 2024, o percentual de escolares de 13 a 17 anos que tiveram relação sexual foi 30,4% — uma redução percentual de 5,5% comparado a 2019. Mas uma parcela (38,3%) não usou preservativo na primeira relação. Além disso, 33% dos alunos que iniciaram a vida sexual tinham usado a pílula do dia seguinte alguma vez na vida.
Os dados registraram que 121 mil meninas de 13 a 17 anos de idade já engravidaram. Desse total, 98,7% eram de escolas da rede pública (119.427 jovens).
A orientadora dos Anos Finais do Colégio Católica Brasília e pedagoga, Juliene Braga, ressalta que a educação sexual é essencial para o desenvolvimento saudável, pois envolve a construção de conhecimentos e valores relacionados ao respeito pelo próprio corpo. "A participação da família é fundamental. Os pais são a principal referência dos filhos e têm um papel importante na construção de valores e diálogo. Quando há abertura para conversar em casa, o adolescente se sente mais seguro para tirar dúvidas e compartilhar situações", explicou.
Melancolia
Os dados levantados pelo IBGE indicam que 18,5% dos adolescentes disseram que "vida não vale a pena ser vivida" e se sentem assim "na maioria das vezes" ou "sempre". As meninas apresentam um percentual de melancolia duas vezes maior que o observado nos meninos: 25% contra 12%.
Para a psicóloga clínica Kênia Ramos, o aumento de pensamentos relacionados à desesperança e ao comportamento suicida entre adolescentes está associado a uma combinação de fatores biopsicossociais. No caso das meninas, ela observa uma maior vulnerabilidade a questões, tais como: maior exposição e sensibilidade a críticas sociais e padrões estéticos; experiências de comparação constante e validação externa; e maior incidência de sintomas ansiosos e depressivos.
A PeNSE também apontou que estudantes de 13 a 17 anos estão cada vez menos satisfeitos com o corpo. Entre os entrevistados, 27,2% se disseram "muito insatisfeitos" ou "insatisfeitos".
O total de meninas que disseram estar insatisfeitas com a imagem corporal ficou em 36,1%, quase o dobro dos 18,2% dos meninos. "As redes sociais intensificam com a comparação constante, idealização de corpos e vidas 'perfeitas'. O adolescente está em processo de formação psíquica e de identidade, o que o torna mais suscetível. Isso pode impactar diretamente a autoestima, favorecendo quadros de ansiedade, depressão e transtornos de imagem", frisa.
Já a pesquisadora e psicóloga Danielle Monteiro destaca que os estudantes brasileiros tiveram resultados gerais melhores nos indicadores de saúde mental do que os obtidos na pesquisa anterior, de 2019. "Toda essa análise aponta que o Brasil precisa investir na saúde mental dos adolescentes, em especial, na das meninas", diz.
*Estagiário sob a supervisão de Fabio Grecchi
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