Em depoimento ontem na CPI do Crime Organizado, no Senado, a juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara de Infância e Juventude da Comarca da Capital do Estado do Rio de Janeiro, afirmou que a adolescência é a faixa etária com maior número de homens misóginos. A explicação para isso, segundo ela, está na pesquisa de uma universidade inglesa, que constatou que o acesso precoce à pornografia é o principal gatilho para o desprezo dos jovens contra meninas e mulheres.
A magistrada é a responsável pelo julgamento do menor de idade que participou do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, no apartamento de um deles, em Copacabana, Zona Sul da capital fluminense. Ele e mais quatro adultos abusaram da jovem depois que um deles a atraiu para o local onde aconteceu o crime, em 31 de janeiro — mas só veio à tona dias depois.
"Tem uma pesquisa de uma universidade inglesa que mostra que, em 2025, a faixa etária com maior número de homens misóginos e com ódio de mulheres é na adolescência. Tem mais adolescentes misóginos do que homens adultos e homens idosos. E isso é, principalmente, provocado por causa do acesso precoce à pornografia", afirmou.
Segundo Vanessa, episódios de abuso sexual entre estudantes de escolas tradicionais de classe média não são exceção. À frente da Vara da Infância e Juventude há 11 anos, ela observou que há um padrão que chama atenção nos casos. Isso porque, muitas desses abusos são filmados, o que permite observar que os adolescentes reproduzem comportamentos de conteúdos pornográficos.
"Não é o primeiro nem o 20º caso de estupro coletivo entre adolescentes de escolas tradicionais de classe média que recebo. E tem algo que me chama a atenção nesses casos: quase sempre os fatos são filmados. Claramente estão reproduzindo uma cena que viram num filme, num vídeo de sexo explícito. Há repetição de um comportamento de algo que eles não deveriam nem estar tendo acesso", disse.
Contato precoce
Vanessa afirmou que há pesquisas que apontam que crianças no Brasil têm o primeiro contato com conteúdos pornográficos por volta dos nove anos. Esse acesso, observa a juíza, muitas vezes ocorre de forma acidental, quando o jovem procura informações sobre educação sexual na internet. Ela afirma que tal conteúdo retrata relações misóginas, violentas e degradantes contra mulheres, o que pode influenciar a percepção de jovens que ainda não tiveram experiências sexuais.
"Quando a criança busca sobre educação sexual, em dois ou três cliques abre um site de pornografia. Os meninos e, muitas vezes, as próprias meninas estão aprendendo que é assim que devem se relacionar", lamentou.
Os quatro adultos que participaram o estupro da jovem de 17 anos são Vitor Hugo Oliveira Simonin (18 anos), Mattheus Verissimo Zoel Martins (19 anos) João Gabriel Xavier Bertho (19 anos) e Bruno Felipe dos Santos Allegretti (18 anos).
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