DESAPARECIMENTO

Estudo inédito revela falhas do Estado em casos de desaparecimento

Pesquisa revela invisibilidade de vítimas e aponta falhas estruturais nas investigações

Um estudo inédito sobre o desaparecimento de pessoas no Brasil aponta que o problema vai além dos registros oficiais e expõe falhas estruturais do Estado na identificação, investigação e busca por vítimas. O relatório, elaborado pelo Observatório do Desaparecimento de Pessoas no Brasil em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, propõe uma nova forma de compreender o fenômeno no país.

Segundo os dados utilizados na pesquisa, o Brasil registra, em média, 232 desaparecimentos por dia. Ao longo de 2025, foram 84.760 notificações, sendo 32,4% de crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos. O número representa um aumento de 4,1% em relação ao ano anterior.

Apesar dos dados expressivos, o estudo destaca que ainda há pouca compreensão sobre o que caracteriza, de fato, um desaparecimento no Brasil. “A gente tem pouca informação sobre o desaparecimento de pessoas no país, poucos dados, poucas análises”, afirma a coordenadora do projeto, a professora Simone Rodrigues.

De acordo com a pesquisadora, o levantamento busca ir além dos números e analisar o contexto dos casos, incluindo a subnotificação e a invisibilidade de grupos vulneráveis. “O desaparecimento de indígenas, de pessoas em situação de rua ou ligado a organizações criminosas muitas vezes não vira boletim de ocorrência. Estamos olhando para além dos dados, com um recorte voltado a grupos vulneráveis”, explica.

Entre os perfis mais atingidos, estão pessoas negras, pobres e moradoras de periferias. Ainda assim, esse grupo apresenta a menor taxa de casos resolvidos. O estudo também aponta falhas nos registros: em 25% dos boletins de ocorrência, não há informação sobre raça ou cor da pessoa desaparecida.

Os pesquisadores identificaram ainda que estigmas sociais dificultam as investigações. Em casos envolvendo jovens de periferia, por exemplo, há tendência de associação automática ao tráfico. Já no caso de mulheres, surgem suposições sobre prostituição ou relações afetivas. Segundo o estudo, esse tipo de abordagem atrasa o início das buscas.

O impacto também recai sobre as famílias. Diante da falta de respostas, parentes — especialmente mães — passam a conduzir as próprias investigações. Esse processo gera sobrecarga emocional, financeira e psicológica.

Para aprofundar a análise, o relatório propõe uma classificação inédita dos desaparecimentos no país. Segundo Simone Rodrigues, há quatro tipos principais: administrativo, estratégico, forçado e sequestro institucional.

O desaparecimento administrativo ocorre quando o próprio Estado “perde” a pessoa por falhas burocráticas, como boletins extraviados, ausência de investigação ou falta de integração entre órgãos. Já o desaparecimento estratégico acontece quando alguém some por conta própria, muitas vezes para fugir de situações de violência, como ameaças de milícias ou violência doméstica.

O desaparecimento forçado envolve a participação direta ou omissão de agentes do Estado, o que, segundo o estudo, ainda não possui tipificação específica no Código Penal. Por fim, o sequestro institucional ocorre quando crianças são retiradas de suas famílias com base em critérios marcados por preconceitos sociais, podendo resultar em processos de adoção irregulares.

A pesquisa foi construída a partir de entrevistas, workshops e reuniões com familiares de desaparecidos, trabalhadores rurais e organizações indígenas. O objetivo, segundo os autores, é mapear as lacunas no enfrentamento do problema e oferecer subsídios para políticas públicas mais eficazes.

Entre as principais recomendações estão a integração de dados entre áreas como segurança, saúde e assistência social, além da capacitação de agentes públicos para um atendimento mais humanizado e sem preconceitos. O estudo também sugere a criação de centros de apoio psicológico para familiares.

“A proposta é dar subsídios para políticas públicas mais eficazes e mostrar que o desaparecimento não é um problema isolado, mas uma questão social que precisa ser enfrentada como um todo”, afirma a pesquisadora.

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