SEGURANÇA PÚBLICA

Brasil reduz homicídios oficiais em 2024, mas "mortes ocultas" acendem alerta

Atlas da Violência 2026 aponta queda de 7,4% nos assassinatos registrados, mas salto em mortes sem causa determinada mascara número real; relatório destaca que 77% das vítimas são negras

O estudo também aponta que armas de fogo foram utilizadas 29.870 homicídios, correspondendo a 70,1% do total de mortes violentas -  (crédito: Pixabay/Reprodução)
O estudo também aponta que armas de fogo foram utilizadas 29.870 homicídios, correspondendo a 70,1% do total de mortes violentas - (crédito: Pixabay/Reprodução)

O Brasil consolidou em 2024 trajetória de redução da violência letal iniciada em 2018, registrando 42.590 homicídios, o que equivale a uma taxa de 20,1 por 100 mil habitantes, segundo a pesquisa “Atlas da Violência 2026”. Esse número representa uma queda de 7,4% na taxa em relação a 2023. 

Pesquisadores envolvidos no estudo — uma parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) — alertam, porém, que essa melhora nos registros oficiais pode ser ilusória devido à piora na qualidade dos dados de saúde: as Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI) saltaram para 17.207 casos em 2024, um crescimento de 23,8% em um ano.

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Ao estimar os “homicídios ocultos” dentro dessas causas indeterminadas, o Atlas aponta que o número real de assassinatos seria 49.673, tornando a redução real entre 2023 e 2024 de apenas 0,4%.

O levantamento também mostra que a violência no país permanece profundamente desigual e concentrada. Das vítimas em 2024 — ano referente ao estudo —, 32.820 eram pessoas negras, representando 77% do total de homicídios registrados. A taxa de mortalidade de negros (27,3 para cada 100 mil) é 170,3% superior à de não negros (10,1). Um negro tem 2,7 vezes mais chances de ser assassinado no Brasil, chegando ao extremo de 23,3 vezes em Alagoas.

Naquele mesmo ano, as maiores taxas de homicídios por 100 mil habitantes foram registradas no Amapá (45,7), na Bahia (40,9) e em Pernambuco (37,3). No extremo oposto, as menores taxas ocorreram em São Paulo (6,6) e em Santa Catarina (8,1). Apenas 99 municípios (1,8% do total) concentraram 50% dos homicídios do país.

O relatório detalha ainda o impacto desproporcional em grupos específicos. No ano de análise, 19.801 jovens (15 a 29 anos) foram assassinados, sendo 93,7% homens. A taxa de homicídios de homens jovens é de 78, quase o dobro da taxa nacional.

Foram assassinadas 3.642 mulheres em 2024 (taxa de 3,4). A taxa de mulheres negras (4) é 66,7% superior à de não negras (2,4). Cerca de 35,2% dos homicídios femininos ocorrem dentro da residência, um indicador de feminicídio que permanece estável e inaceitável.

As notificações de violências contra homossexuais e bissexuais no sistema de saúde, por sua vez, cresceram 5,5% entre 2023 e 2024, totalizando 10.250 registros. No caso de pessoas trans e travestis, foram 5.575 vítimas em 2024.

A taxa de homicídios entre indígenas também voltou a crescer, atingindo 27,3 (estimada), superando a média nacional. O suicídio é um problema crítico: a taxa é de 20,9 entre indígenas é 2,7 vezes superior à nacional.

Além disso, foram registradas 24.946 notificações de violência contra pessoas com deficiência em 2024, com predominância de vítimas com deficiência intelectual (55,1%) e do sexo feminino.

O estudo também aponta que armas de fogo foram utilizadas 29.870 homicídios, correspondendo a 70,1% do total de mortes violentas. Em estados como o Ceará, esse percentual chega a 85,6%. O Atlas destaca, ainda, o aumento da circulação de armas de estilo militar e falhas regulatórias.

Os óbitos em sinistros de transporte terrestre somaram 37.150 em 2024 (taxa de 17,5), revertendo quedas anteriores. As motocicletas são o principal vetor, respondendo por 41,6% das mortes no país, chegando a 72,7% no Piauí.

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postado em 26/05/2026 11:41 / atualizado em 26/05/2026 11:42
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