
A Amazônia Legal e o Cerrado obtiveram em maio a maior redução no desmatamento observada para o mês, desde o início da série histórica do Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Na maior floresta tropical do planeta, houve uma retração de 61,4% em comparação com maio do ano passado. No caso do Cerrado, o recuo também foi expressivo: 12,2% no confronto entre os períodos deste ano e de 2025.
Os números foram divulgados ontem, na visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Observatório Regional Amazônico da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), em Brasília (veja infográfico). O governo apresentará esses dados às autoridades norte-americanas para rebater as acusações de que o Brasil não combate o desmatamento — justificativa utilizada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para, no início deste mês, propor uma tarifa adicional de 25% sobre as exportações brasileiras.
"Vamos ter que pegar esses dados e mandar para o cidadão do comércio dos Estados Unidos, que coloca a questão do desmatamento como justificativa para punir o Brasil com uma taxação maior, e vamos comparar o que acontece no Brasil com o que acontece nos Estados Unidos", disse Lula, referindo-se a Jamieson Greer, que está à frente do USTR e propôs o novo tarifaço.
O levantamento mostra que a área sob alerta de desmatamento passou dos 960km², registrados em maio de 2025, para 370km², no mesmo mês deste ano. É, também, a maior redução em valores absolutos para o período.
As informações produzidas pelo Deter são utilizadas para orientar operações de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O sistema funciona com alertas diários e permite que equipes de campo alcancem as áreas identificadas por imagens de satélite.
Segundo o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, tal resultado é um marco, pois maio historicamente marca o início da estação seca na Amazônia, período em que os índices de desmatamento crescem. Ele afirmou que a atuação integrada dos órgãos ambientais e o acompanhamento permanente das áreas monitoradas contribuíram para a redução.
No acumulado entre agosto de 2025 e maio de 2026, os alertas de desmatamento na Amazônia totalizaram 2.189km². O volume representa queda de 37,5% em relação ao período entre agosto de 2024 e maio de 2025. Trata-se do menor valor da série histórica, iniciada em 2016.
A expectativa é de que a taxa anual consolidada pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), cujo ciclo se encerra em 31 de julho, apresente o menor resultado já observado. O sistema Prodes é responsável pelo cálculo oficial da taxa anual de desmatamento, enquanto o Deter é utilizado para emissão de alertas em tempo real.
Ao comentar os resultados, Capobianco afirmou que os números demonstram que as políticas de controle ambiental vêm produzindo efeitos. Ele ressaltou que os investimentos em fiscalização, monitoramento e fortalecimento do serviço público são fatores que contribuíram para a redução dos índices.
Entre os alertas registrados na Amazônia Legal, 37,1% ocorreram em áreas regularizadas. Pelo Código Florestal, propriedades privadas localizadas na região podem utilizar até 20% da área total. Outros 21,3% dos alertas foram identificados em florestas públicas.
As áreas sem cadastro fundiário responderam por 17,4% das ocorrências registradas pelo Deter. Esses casos são classificados como ilegais e representam um dos principais desafios para os órgãos responsáveis pelo combate às atividades irregulares.
Berço das águas
Em relação ao Cerrado, o levantamento também mostrou tendência de diminuição da devastação. A área detectada ficou em 777km². Considerando o intervalo entre agosto de 2025 e maio deste ano, a retração no bioma chegou a 8,2%. No período, foram identificados 4.208km² sob alerta de desmatamento.
No Cerrado, 73,4% das ocorrências foram verificadas em propriedades privadas regularizadas. Pela lei, é permitida a utilização de até 65% da área em determinadas regiões do bioma, desde que sejam observadas as exigências legais.
Os dados apresentados pelo Inpe indicam que a maior parte das intervenções registradas no Cerrado está relacionada a áreas de uso autorizado. Mesmo assim, os órgãos ambientais mantêm o monitoramento do bioma. O coordenador do Programa de Monitoramento da Amazônia e Demais Biomas do Inpe, Cláudio Aparecido Almeida, destacou que a redução nos últimos 10 meses representa o menor valor da série histórica para a Amazônia.
As ações de combate à devastação foram reorganizadas a partir de 2023, com a implementação dos Planos de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento em todos os biomas. Ibama e ICMBio intensificaram operações em parceria com a Polícia Federal (PF), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e outras instituições.
Nos municípios prioritários do programa União com Municípios, a redução acumulada do desmatamento alcançou 65,5% entre 2022 e 2025. As cidades contempladas concentram parte significativa dos focos de destruição da cobertura vegetal.
*Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi

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