
Goiás lidera o ranking nacional de esclarecimento de homicídios, com média de 86% dos casos resultando em denúncia apresentada pelo Ministério Público, de acordo com estudo divulgado nesta quarta-feira (8/7) pelo Instituto Sou da Paz. O Distrito Federal aparece em seguida, com 81%. Na outra ponta da lista, o Rio Grande do Norte registra o pior desempenho do país, com apenas 9% dos homicídios esclarecidos.
Os dados integram o estudo Diagnóstico sobre a Investigação de Homicídios no Brasil, que analisou o desempenho das unidades da federação entre 2020 e 2023 e buscou identificar os fatores que explicam as diferenças nas taxas de esclarecimento dos crimes. É a primeira vez que a pesquisa procura entender por que alguns estados conseguem resultados significativamente superiores aos de outros.
Para o levantamento, considera-se esclarecido o homicídio doloso que, até o fim do ano seguinte ao crime, gera uma denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público. O indicador avalia a etapa inicial da responsabilização no sistema de Justiça, sem incluir o desfecho do processo, como julgamento ou eventual condenação.
Segundo o Instituto Sou da Paz, os resultados mostram que a capacidade de esclarecer homicídios vai além da estrutura disponível para as investigações e depende de uma combinação de fatores sociais, institucionais e operacionais.
Para a diretora-executiva da entidade, Carolina Ricardo, "compreender os fatores associados ao esclarecimento de homicídios torna-se fundamental não apenas para avaliar o desempenho das instituições de segurança pública, mas também para orientar políticas públicas e decisões estratégicas voltadas ao enfrentamento da violência letal e à garantia do direito à vida".
O estudo também concluiu que estados que adotaram estratégias de qualificação das investigações e gestão por resultados conseguiram elevar de forma consistente seus índices de elucidação.
Embora Goiás lidere o ranking, o Instituto Sou da Paz ressaltou que o estado forneceu informações referentes a apenas um dos quatro anos avaliados. Em razão dessa limitação, o estudo aponta o Distrito Federal como o principal exemplo nacional, por reunir um alto percentual de esclarecimento aliado à regularidade na disponibilização dos dados ao longo de toda a série histórica.
Na sequência da lista aparecem Minas Gerais (75%), Paraná (72%), Mato Grosso do Sul (71%), Rondônia (67%). Já entre os piores desempenhos, além do Rio Grande do Norte, figuram Bahia (14%), Piauí (23%), Rio de Janeiro (235) e Ceará (27%).
Confira o ranking médio de esclarecimento de homicídios entre 2020 e 2023:
- Goiás – 86%
- Distrito Federal – 81%
- Minas Gerais – 75%
- Paraná – 72%
- Mato Grosso do Sul – 71%
- Rondônia – 67%
- Santa Catarina – 65%
- Mato Grosso – 57%
- Sergipe – 55%
- Espírito Santo – 48%
- Acre – 47%
- Maranhão – 41%
- Amazonas – 41%
- São Paulo – 40%
- Paraíba – 39%
- Roraima – 39%
- Pernambuco – 33%
- Amapá – 30%
- Pará – 29%
- Ceará – 27%
- Rio de Janeiro – 23%
- Piauí – 23%
- Bahia – 14%
- Rio Grande do Norte – 9%
Alagoas, Rio Grande do Sul e Tocantins ficaram de fora da comparação por não disponibilizarem informações suficientes para compor a série histórica analisada.
Queda em São Paulo
São Paulo registrou média de 40% de esclarecimento de homicídios no período analisado, mas os dados mostram uma tendência de queda ao longo dos últimos anos. O índice alcançou 47% em 2021, recuou para 40% em 2022 e chegou a 31% em 2023, o menor percentual de toda a série histórica analisada pelo Instituto Sou da Paz.
O estudo chama atenção para o fato de o estado possuir a menor taxa de homicídios do Brasil, 7,8 mortes por 100 mil habitantes em 2023, sem que isso se reflita em um desempenho equivalente nas investigações. Na avaliação dos pesquisadores, São Paulo apresenta um índice de esclarecimento inferior ao esperado para seu contexto.
A pesquisa também não identificou relação direta entre o efetivo de policiais ou peritos por habitante e os índices de esclarecimento. Em compensação, verificou que os estados que estabeleceram a investigação de homicídios como prioridade permanente, com metas definidas, acompanhamento de indicadores, fortalecimento da perícia e gestão voltada para resultados, obtiveram avanços mais consistentes.
Estados avançam nas investigações
Além do Distrito Federal, o levantamento destaca estados que vêm ampliando de forma consistente sua capacidade de esclarecer homicídios.
No Mato Grosso, a taxa anual passou de 33% em 2020 para 71% em 2023. Rondônia registrou crescimento ainda maior, saltando de 50% para 92% no mesmo período. A Paraíba elevou o índice de 32% para 46%, enquanto Sergipe passou de 46% em 2022 para 64% em 2023.
Segundo os pesquisadores, esses resultados indicam que o fortalecimento das investigações, os investimentos em perícia, a gestão baseada em indicadores e a priorização política do enfrentamento aos homicídios podem elevar significativamente a capacidade de elucidação dos crimes, inclusive em estados marcados por altos índices de violência.
Posicionamento da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) afirmou:
"A Secretaria da Segurança Pública não comenta pesquisas cuja metodologia desconhece. O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) esclarece que são considerados solucionados casos em que houve indiciamento formal dos responsáveis, sustentado por provas e evidências colhidas no curso do inquérito policial. Em 2025, o trabalho da Polícia Civil, por meio do DHPP, permitiu que cerca de 51% dos inquéritos instaurados por autoria desconhecida fossem esclarecidos, resultado superior à média nacional, que varia entre 20% e 30% conforme estatísticas do CNJ e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O desempenho se mantém neste ano. Nos cinco primeiros meses de 2026, mais de 48% dos inquéritos instaurados pelo departamento já foram esclarecidos.
A pasta intensificou as ações de prevenção e repressão aos crimes contra a vida com base no monitoramento contínuo dos indicadores criminais realizado por meio do Programa SP Vida. A iniciativa reúne dados estratégicos que orientam o emprego das forças policiais e o reforço do policiamento em áreas com maior incidência de ocorrências. A Polícia Civil de São Paulo concentra o maior volume de investigações e, há quase três anos, vem adotando um conjunto de medidas para melhorar ainda mais a taxa de solução de casos de homicídio. Entre elas estão o incremento das equipes e delegacias especializadas, realização de concursos públicos para ampliação de efetivo, modernização de estruturas e implantação de sistemas de inteligência artificial e análise de dados."

Cidades DF
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