
A Amazônia registrou, no primeiro semestre de 2026, a menor área com sinais de desmatamento detectados por satélite em uma década. Os dados foram divulgados, ontem, pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Entre janeiro e junho deste ano, o sistema identificou 1.295 km² de áreas sob alerta de perda de vegetação nativa no bioma, o menor nível para o período desde a criação da série histórica, em 2016. Comparado ao mesmo período do ano passado, 2.090 km², houve uma queda de 795 km², equivalente a uma redução de 38%.
No acumulado de agosto de 2025 a junho de 2026, os avisos de desmatamento na Amazônia somaram 2.485,90 km², ante 3.959,98 km² no mesmo intervalo do calendário anterior (agosto de 2024 a junho de 2025) — redução de 37,2%.
O nível anterior mais baixo foi em 2017, quando 1.332 km² ficaram sob alerta nos seis primeiros meses do ano. Desde então, o total do primeiro semestre havia oscilado entre 1.645 km², em 2024, e quase 4 mil km², em 2022.
O estado do Pará foi líder de notificações de desmatamento, somando 898 km² nos últimos 12 meses, seguido por Mato Grosso, Amazonas e Roraima — 775 km², 361 km² e 260 km², respectivamente.
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O desmatamento com solo exposto foi responsável por 91% de todos os alertas do primeiro semestre de 2026, com 1.180,8 km². Desmatamento com vegetação teve 74,8 km² seguido por Mineração e Cicatriz de Incêndio Florestal — 39,1 km² e 37,5 km², respectivamente.
Para a engenheira ambiental especialista em Recursos Hídricos e Engenharia Sanitária, Maristela Rodrigues, a redução do desmatamento na Amazônia neste primeiro semestre decorre de um conjunto de fatores. Resulta de maior fiscalização, mas também de monitoramento remoto, de educação ambiental, de conscientização. Rodrigues acredita que a demanda internacional por sustentabilidade também contribuiu para essa mudança.
"A exigência de acordos internacionais, principalmente no escoamento da produção, na logística para exportação, exige que haja uma produção sustentável, livre de desmatamento, livre de qualquer degradação ambiental que seja passível de impacto ao meio ambiente. Dessa forma, essa somatória de sanções e atividades contribuiu, e muito, para que tivéssemos esse resultado de redução do desmatamento neste primeiro semestre de 2026", destacou.
Na avaliação do professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) Marcelo Dutra da Silva, os resultados alcançados até aqui mostram que o Brasil está na direção correta, mas ainda não no ritmo necessário para garantir o cumprimento da meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030.
"Acredito que seja possível reduzir o desmatamento a patamares historicamente muito baixos. Mas alcançar o desmatamento ilegal zero será muito mais difícil do que manter a tendência atual de queda. Isso porque a parcela remanescente tende a estar cada vez mais associada ao crime organizado, à grilagem de terras e a áreas remotas, onde as operações de fiscalização são mais complexas e custosas", frisou.
De acordo com Silva, para que a meta seja alcançada, será indispensável ampliar os investimentos em tecnologia de monitoramento, inteligência, integração entre os órgãos públicos, infraestrutura operacional e aumento do efetivo em campo.
Cerrado
Outro bioma que também registrou queda no desmatamento foi o Cerrado. Entre janeiro e junho deste ano, o Deter identificou 3.142 km² de áreas com indícios de retirada da vegetação nativa no bioma, o menor desde 2021.
Em junho de 2026, os avisos de supressão da vegetação nativa no Cerrado somaram 481,53 km², ante 508,69 km² em junho de 2025 — queda de 5,3%. O Inpe registra que houve significativa cobertura de nuvens durante o mês passado, o que pode ter dificultado o mapeamento em determinadas regiões. No acumulado de agosto de 2025 a junho de 2026, os avisos somaram 4.689,40 km², ante 5.091 km² no mesmo período do calendário anterior — queda de 7,9%.
A queda, porém, foi menor que a observada na Amazônia. Enquanto os alertas no bioma amazônico recuaram 38% em relação ao mesmo período do ano passado, no Cerrado a redução foi de cerca de 6%. Mesmo com a melhora, o Cerrado continua concentrando a maior área sob alerta. Nos seis primeiros meses de 2026, o volume detectado no bioma foi cerca de 2,4 vezes maior que o registrado na Amazônia.
De acordo com Maristela Rodrigues, quando a fiscalização aperta na Floresta Amazônica, a pressão do agronegócio e da especulação fundiária migra para o Cerrado. Segundo ela, essa dinâmica de deslocamento da produção acontece quando já está saturada uma região e há necessidade de expansão para outros biomas.
"A característica topográfica do Centro-Oeste, o clima e o solo contribuem muito para essa expansão aqui na região. Também podemos apontar uma menor rigidez na fiscalização e nas instituições de proteção do Cerrado. Lembrando que é necessário que essas políticas públicas não venham proteger somente o Cerrado, mas todo o bioma onde se produz, seja na Amazônia, seja no Cerrado ou na Caatinga", falou.
O estado que liderou as notificações neste semestre foi o Maranhão, com 838,65 km²; seguido por Tocantins e Piauí, com 825,2 km² e 368,03 km², respectivamente. Entretanto, nos últimos 12 meses, Tocantins ocupou o primeiro lugar do ranking, com 1.121,47 km², seguido por Maranhão, com 1.181,71 km².
*Estagiário sob a supervisão de Carlos Alexandre de Souza
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