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Educação

Brasil melhora aprendizagem, mas avanço perde força no ensino médio

Estudo do Todos Pela Educação apontou que, em 20 anos, rede pública avançou nos anos iniciais do ensino fundamental, mas viu o ensino médio estagnar

A qualidade da aprendizagem dos alunos da rede pública brasileira melhorou nas últimas duas décadas, mas os ganhos se tornam progressivamente menores à medida que os estudantes avançam na educação básica. A conclusão é de um levantamento divulgado nesta quinta-feira (20/8) pelo Todos Pela Educação, que comparou os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) entre 2005 e 2025.

O estudo avaliou a proporção de estudantes nos níveis adequado e abaixo do básico em Língua Portuguesa e Matemática no 5º e no 9º ano do ensino fundamental e na 3ª série do ensino médio. O Saeb é uma avaliação aplicada a estudantes do 2º, 5º e 9º anos do ensino fundamental e da 3ª série do ensino médio, com provas de Língua Portuguesa e Matemática.

Os dados mais favoráveis aparecem nos anos iniciais do ensino fundamental. No 5º ano, a parcela de alunos com desempenho adequado em Língua Portuguesa quase triplicou em 20 anos, enquanto em Matemática o crescimento foi superior a três vezes. Em 2025, 60,7% dos estudantes atingiram o nível adequado em Português e 50,6% em Matemática.

"Esses dados refletem uma mensagem positiva para a educação básica brasileira, que é o avanço nas últimas duas décadas de indicadores importantes de aprendizagem dos estudantes na rede pública, em especial aqueles estudantes nos anos iniciais do ensino fundamental", reforçou Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação.

A evolução, contudo, diminui nas etapas seguintes. No 9º ano, 38,3% dos estudantes apresentaram aprendizagem adequada em Língua Portuguesa em 2025, enquanto 18,8% alcançaram esse nível em Matemática. Na faixa de desempenho abaixo do básico, estavam 15,7% dos alunos em Português e 29,3% em Matemática.

O quadro se torna mais crítico na conclusão da educação básica. Em 2025, 58,6% dos estudantes da rede pública que estavam no ensino médio apresentavam desempenho abaixo do básico em Matemática. Em Língua Portuguesa, a proporção era de 31,2%.

"O avanço [no ensino médio] foi muito tímido. Temos hoje no ensino médio quase seis a cada 10 estudantes que concluem a educação básica em nível de aprendizagem abaixo do básico. Isso é muito crítico e deve ligar um alerta da sociedade brasileira e do poder público brasileiro", avaliou Corrêa.

Anos iniciais concentram recuperação

Entre as três etapas observadas pelo estudo, o 5º ano apresenta o cenário mais positivo. Além de registrar os maiores índices de aprendizagem adequada, foi a única etapa em que os resultados de 2025 já ultrapassaram os níveis verificados antes da pandemia de covid-19.

Naquele ano, 60,7% dos alunos apresentaram desempenho adequado em Língua Portuguesa e 50,6% em Matemática. Na outra extremidade da escala, 11% estavam abaixo do básico em Português e 16,9% em Matemática.

A trajetória dos resultados também mostra uma interrupção durante a pandemia, seguida de recuperação. Depois da queda registrada em 2021 e da melhora observada em 2023, os números de 2025 indicaram a retomada do crescimento verificado antes da crise sanitária.

No 9º ano, embora a proporção de estudantes no nível adequado tenha mais que dobrado em Língua Portuguesa e duplicado em Matemática ao longo de 20 anos, o desempenho ainda permanece baixo. Em Matemática, apenas 18,8% chegaram ao nível considerado adequado em 2025.

A parcela de alunos abaixo do básico também evidencia a dificuldade da etapa. Em Matemática, 29,3% estavam nessa condição em 2025, acima dos 27,2% registrados em 2019. Em Língua Portuguesa, o índice ficou em 15,7%, praticamente estável em relação aos 15,8% daquele ano.

No ensino médio, apenas 25,2% dos estudantes atingiram o nível adequado em Língua Portuguesa em 2025. Em Matemática, o percentual caiu para 8,5%, resultado que, segundo o levantamento, demonstra uma estagnação do indicador ao longo das últimas duas décadas.

Os números precisam ser considerados ainda à luz da ampliação do acesso e da conclusão do ensino médio. Em 2005, aproximadamente quatro em cada dez jovens concluíam essa etapa até os 19 anos. Duas décadas depois, a proporção havia subido para cerca de sete em cada dez. Com isso, o grupo que chega ao fim da educação básica passou a representar uma parcela maior e mais heterogênea dos jovens brasileiros.

Desempenho varia entre os estados

Os avanços registrados no país também aparecem na comparação entre as Unidades da Federação, embora os resultados permaneçam desiguais. Entre 2023 e 2025, todos os estados elevaram a proporção de alunos do 5º ano com aprendizagem adequada em Língua Portuguesa e Matemática e, simultaneamente, reduziram o percentual abaixo do básico nas duas disciplinas. O Paraná apresentou os maiores índices de desempenho adequado nessa etapa.

Entre os alunos do 9º ano, 20 estados aumentaram a parcela com aprendizagem adequada em Língua Portuguesa no período. Em Matemática, foram 23. Paraná, Ceará e Goiás estiveram entre os estados com melhores resultados nesse indicador.

No ensino médio, houve crescimento do percentual de estudantes com aprendizagem adequada em Língua Portuguesa em 22 estados entre 2023 e 2025. Em Matemática, todos os estados registraram aumento. Piauí e Rio Grande do Sul apresentaram os maiores avanços, segundo o levantamento.

A evolução, entretanto, não ocorreu de maneira uniforme quando considerado o grupo de estudantes abaixo do básico. Na Língua Portuguesa, 19 estados reduziram essa parcela no ensino médio. Em Matemática, a redução foi registrada em apenas dez Unidades da Federação. Rio Grande do Sul e Paraná aparecem entre os estados com melhores resultados nessa etapa, enquanto o Piauí teve os maiores avanços nas duas disciplinas.

Alguns estados, por outro lado, apresentaram piora nos indicadores. No 9º ano, Rio de Janeiro, Rondônia e Tocantins registraram queda na proporção de estudantes com aprendizagem adequada tanto em Português quanto em Matemática entre 2023 e 2025. No ensino médio, Rio de Janeiro, Amapá e Roraima tiveram redução no percentual de alunos com desempenho adequado em Língua Portuguesa, acompanhada de aumento da parcela abaixo do básico nas duas áreas avaliadas.

Meta do novo Plano Nacional de Educação

Os resultados também podem ser comparados às metas previstas no novo Plano Nacional de Educação (PNE), que estabelece objetivos mais ambiciosos para a aprendizagem ao longo da próxima década. O plano prevê que, até 2036, nenhum estudante esteja classificado no nível abaixo do básico.

Para isso, a meta estabelecida é que pelo menos 90% dos alunos do 5º ano apresentem aprendizagem adequada. No 9º ano, o objetivo é alcançar 85%, enquanto no ensino médio a proporção deverá chegar a 80%.