Tecnologia

UFG amplia aposta em inteligência artificial

Centro de Excelência em IA receberá R$ 78 milhões até 2031 para construir data center e laboratório de veículos autônomos. Iniciativa reúne mais de mil pesquisadores e 300 projetos em áreas como saúde, agronegócio, indústria e serviços públicos

O Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia), da Universidade Federal de Goiás (UFG), receberá R$ 78 milhões para ampliar sua estrutura até 2031. Desse total, R$ 40 milhões serão destinados à construção de um AI Data Center e de um laboratório para desenvolvimento de veículos autônomos.

Criado em 2019, o Ceia já captou mais de R$ 500 milhões em projetos e parcerias e reúne mais de mil pesquisadores. Segundo a instituição, foram executados mais de 300 projetos, com soluções contratadas por 94 empresas e utilizadas por mais de 152 milhões de brasileiros.

A ampliação ocorre em um momento de crescimento dos investimentos em infraestrutura para inteligência artificial no país. Para a diretora-executiva do Ceia e doutora em ciências da computação e matemática computacional, Telma Woerle de Lima Soares em entrevista ao Correio, o Brasil precisa aproveitar esse movimento para fortalecer o desenvolvimento tecnológico nacional para que o país não fique somente com a parte ruim da tecnologia.

"Se analisarmos historicamente, o Brasil cresceu muito como fornecedor de commodities. Instalar um data center apenas por instalar pode transformar o país em um novo fornecedor de commodities", afirma.

Segundo a pesquisadora, a instalação de grandes centros de processamento de dados deve estar acompanhada da formação de profissionais, da transferência de tecnologia e da produção de soluções desenvolvidas no país.

"O que precisamos garantir é que parte disso se converta em acesso à tecnologia e no desenvolvimento das soluções que serão executadas nesses data centers. A verdadeira manufatura produzida por eles é a própria tecnologia", diz.

O centro desenvolve projetos para setores como agronegócio, saúde, educação, energia, indústria, mobilidade e serviços digitais. Entre as iniciativas está uma plataforma de gestão de licitações, que automatiza a identificação e o acompanhamento de editais públicos. Em 2024, o sistema processou cerca de 1,3 bilhão de editais e, segundo o Ceia, reduziu em 60% o tempo operacional e em 27% a necessidade de equipes dedicadas ao processo.

Na mobilidade, o centro desenvolve tecnologias de percepção e localização para veículos autônomos adaptados às condições brasileiras. Na saúde, utiliza IA para identificar anomalias em exames de vídeo e auxiliar na detecção precoce de doenças colorretais.

Outra frente é uma plataforma de orçamentação para seguradoras, reguladoras e órgãos públicos. A tecnologia analisa imagens de veículos danificados, identifica as áreas atingidas e estima custos de peças e mão de obra. A iniciativa recebeu o Prêmio Embrapii como tecnologia mais inovadora da indústria brasileira.

Código aberto

Em vez de desenvolver grandes modelos de linguagem próprios, o Ceia prioriza modelos de código aberto, adaptados às necessidades de cada projeto. "Hoje conseguimos, com o uso de modelos abertos, fazer as customizações necessárias nesses modelos que já estão disponíveis e pré-treinados para a realidade brasileira", afirma Telma.

Segundo ela, treinar um modelo próprio de grande escala exigiria investimentos bilionários e uma infraestrutura computacional que ainda não é viável no curto prazo. Por isso, a instituição utiliza modelos como LLaMA, DeepSeek e Mistral, escolhidos conforme o desempenho em cada aplicação.

A diretora afirma que a demanda por projetos de IA já crescia antes do avanço da inteligência artificial generativa. O aumento recente acelerou a procura, mas também revelou um gargalo para empresas: a preparação dos próprios dados. "Muitas empresas perceberam que precisavam de IA, mas descobriram que antes precisavam passar por um processo de transformação digital e preparação dos dados", avalia.

O Ceia mantém infraestrutura própria de armazenamento e afirma adotar procedimentos de segurança da informação e conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Para Telma, o desenvolvimento de soluções adaptadas à realidade brasileira também pode ampliar a capacidade de atuação das tecnologias no exterior.

 

Mais Lidas

Dino Arato/ Divulgação - Para Telma, é preciso formar profissionais e criar tecnologia nacional
Dino Arato/ Divulgação - Para Telma, é preciso formar profissionais e criar tecnologia nacional