
Dois projetos-piloto de rastreabilidade individual bovina e requalificação comercial para médios e pequenos produtores no Pará são tema da publicação “Estratégias Integradas para a Cadeia Pecuária Brasileira: Lições práticas sobre rastreabilidade individual e reinserção comercial para a cadeia bovina no Brasil”, produzida pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Publicado em formato de policy report, o documento apresenta recomendações de políticas públicas e articulações setoriais com base nos dois estudos.
Os projetos-piloto foram apresentados nesta terça-feira (1º/9), durante uma coletiva com o Imaflora, a Amigos da Terra - Amazônia Brasileira (AdT) e a Fundação Solidaridad.
Segundo o policy report, o primeiro projeto — “Estudo de escalabilidade: Estratégia de Engajamento de Fornecedores de Frigoríficos para Adesão ao Programa Pecuária Sustentável do Pará” —, elaborado pela AdT, disponibilizou 70 mil brincos de rastreabilidade bovina, resultando na identificação de 26 mil cabeças de gado. O projeto auxiliou 59 produtores, entre eles 51 de médio e pequeno porte e oito de grande porte.
A coordenadora do Programa de Cadeias Agropecuárias da Amigos da Terra, Natália Grossi, aponta que a implementação dos brincos, especialmente em frigoríficos de médio porte, tem a capacidade de elevar o percentual de bovinos identificados de 0,2% em 2025 para 30,2% em 2030, o equivalente a cerca de 7,5 milhões de animais. De acordo com Grossi, o projeto atuou em 14 municípios do sudeste paraense, com área média de 359 hectares entre os pequenos e médios produtores.
“Foram vinte meses de duração desse piloto, com o objetivo de impulsionar a adesão dos fornecedores de frigoríficos à rastreabilidade individual estadual e também de forma associada ao monitoramento socioambiental”, revela Grossi.
Já o segundo projeto-piloto apresentado pelo Imaflora foi o “Pecuária Sustentável do Pará - Engajamento de famílias produtoras”, elaborado pela Fundação Solidaridad. A iniciativa mapeou as dificuldades e facilidades de produtores familiares para se adequarem à requalificação comercial proposta pelo programa Pecuária Sustentável do Pará.
De acordo com Paulo Lima, gerente de Programas da Fundação Solidaridad, o projeto tem como principal objetivo mapear as famílias do assentamento Tuerê, em Novo Repartimento (PA), caracterizar os perfis socioeconômicos e ambientais e identificar as áreas de passivos a serem recompostas na perspectiva da requalificação comercial.
O levantamento visitou 96 propriedades. Entre elas, apenas seis aceitaram participar do projeto, 73 produtores se recusaram e 17 ficaram indecisos. Segundo o estudo, a resistência em participar está diretamente relacionada ao tamanho e ao uso do passivo ambiental. Cerca de 29,2 hectares são usados para esse fim, o que corresponde a 44% das propriedades.
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Lima explica que um dos pontos centrais da não adesão ao programa é o passivo ambiental, que representa um conjunto de obrigações financeiras e legais que devem ser cumpridas para restaurar os danos ao meio ambiente dentro das propriedades. Segundo ele, 38 produtores disseram que só adeririam ao programa se houvesse alguma mudança em relação à restauração de passivos.
“Dos 38 produtores que não aderiram, 23 disseram que o único motivo foi o fato de a área de pastagem em que haviam acabado de investir e fazer a reforma — justamente a mais produtiva da propriedade — estar localizada em uma área de passivo ambiental. Isso indica algo que já vínhamos observando: a localização do passivo ambiental pode ser um empecilho para a adesão”, aponta.
*Estagiária sob a supervisão de Rafaela Gonçalves

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