Mais de 99% dos casos de malária registrados no Brasil estão concentrados na região amazônica, cenário que evidencia a relação entre a doença, as condições de vida e o acesso aos serviços de saúde. Comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas, principalmente em áreas de fronteira, enfrentam dificuldades de deslocamento, infraestrutura limitada e maior exposição ao mosquito Anopheles, responsável pela transmissão do parasita.
Em 2025, foram registrados 118.037 casos de malária. De acordo com o Ministério da Saúde e 39mortes. Desde 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a tafenoquina, medicamento em dose única para prevenir novas manifestações da doença, além da ampliação do diagnóstico, da oferta de testes e do tratamento adequado.
O contágio e a doença estão vinculados a fatores sociais, ambientais e territoriais, uma vez que a fêmea do mosquito do gênero Anopheles infectada transmite o mal. O infectologista Daniel Paffili Prestes adverte: “Nas regiões de fronteira, principalmente na Amazônia, muitas comunidades vivem em áreas rurais, ribeirinhas ou indígenas, distantes dos grandes centros e com dificuldades de deslocamento”
A demora para obter diagnóstico e tratamento interfere no controle da transmissão, reitera o médico. O infectologista ressalta que uma pessoa infectada pode permanecer como fonte do parasita para o mosquito enquanto não recebe atendimento. A preocupação aumenta quando observadas as condições de moradia e pelo trabalho realizado em áreas de mata, onde a exposição ao vetor pode ser maior.
Dinâmica
Apesar da associação frequente entre doenças e saneamento, Prestes ressalta que a malária possui uma dinâmica diferente. “A malária não é uma doença cuja transmissão esteja diretamente relacionada à falta de saneamento básico da mesma forma que ocorre com doenças transmitidas por água contaminada”, afirma.
De acordo com o infectologista, a presença do mosquito, o ambiente, as condições das residências, as atividades econômicas e o acesso ao diagnóstico e ao tratamento têm maior peso na transmissão. As temperaturas mais altas aceleram o desenvolvimento do protozoário Plasmodium, que se aloja no mosquito transmissor da doença e aumentam sua atividade.
Há, ainda, o impacto dos níveis elevados de umidade que prolongam o tempo de vida do mosquito transmissor, aumentando as chances de ele picar humanos repetidas vezes. As áreas florestadas ou locais com alterações ambientais recentes favorecem a proliferação.
Cenário
Países vizinhos, como Venezuela, Colômbia e Peru enfrentam problemas relacionados à malária, e o deslocamento de pessoas entre esses territórios pode levar casos para cidades brasileiras. A entrada de uma pessoa infectada, porém, não significa que haverá automaticamente uma epidemia.
O risco aumenta quando o parasita chega a uma região onde existem mosquitos capazes de participar da transmissão. “A preocupação está relacionada principalmente à circulação de pessoas entre esses países”, explica o infectologista.
A Amazônia exige atenção porque reúne territórios de diferentes nações e mantém circulação frequente de moradores e trabalhadores entre as fronteiras.
Prestes diferencia os casos importados dos chamados “autóctones”. O primeiro ocorre quando a pessoa contrai a doença em outro país ou região e chega ao Brasil infectada. Já o segundo corresponde à infecção adquirida no próprio território. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém a investigação quando surgem casos autóctones em uma área sem transmissão e indica a necessidade de investigação.
Simples e rápido
O diagnóstico tardio pode prejudicar tanto a recuperação do paciente quanto a interrupção da transmissão. Os principais sintomas da malária são febre alta, calafrios, tremores, suor intenso e dor de cabeça, surgindo geralmente entre 8 e 30 dias após a picada do mosquito. O exame é de sangue, simples e rápido.
“Quanto mais rapidamente um caso é identificado, tratado e investigado, menor é a possibilidade de que ele dê origem a novos casos”, afirma o médico infectologista Daniel Paffili Prestes. ”A malária não deve ser encarada apenas como um problema relacionado ao mosquito. Ela também é uma doença que revela desigualdades sociais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde.”
Para o especialista, ampliar achegada do atendimento às populações que vivem em áreas remotas, garantir diagnóstico e iniciar o tratamento de forma rápida são medidas centrais para impedira manutenção da transmissão e reduzir o risco de expansão para outras regiões
Sem tratamento, determinadas formas da doença podem evoluir para anemia, alterações neurológicas, comprometimento renal, dificuldade respiratória e alterações metabólicas. O risco também existe para a comunidade, porque uma pessoa infectada e sem tratamento pode contribuir para a transmissão.
O Brasil dispõe de diagnóstico, medicamentos, notificação e vigilância epidemiológica pelo Sistema Único de Saúde (SUS).O tratamento via SUS é ministrado por meio de dois medicamentos a cloroquina e a tafenoquina, avaliados peso, altura e demais condições físicas do paciente. É importante prevenir com uso de mosquiteiros, roupas adequadas e repelentes
*Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca.
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