Muitos criadores acham que, ao pagar a mensalidade de um haras, deixam o estabelecimento decidir tudo sobre o animal. Não é assim. A pensão é um acordo de guarda, e o caso costuma ser analisado pelas regras do depósito. O artigo 627 do Código Civil define o depósito como o recebimento de um bem móvel para guardar até que o dono o peça de volta. Colocar uma égua de raça em reprodução equina sem permissão clara foge desse acordo e abre espaço para cobrança.
O haras pode colocar a égua da pensão em reprodução sem aviso?
Não, se o proprietário não deu autorização expressa. O artigo 640 do Código Civil proíbe o depositário de se servir da coisa depositada sem licença expressa do depositante, sob pena de responder por perdas e danos. Cobertura por monta natural, inseminação e uso da égua como doadora de embriões são formas de uso do animal.
O contrato de pensão animal é o primeiro documento a ser lido. Se ele prevê só hospedagem, alimentação e manejo, a reprodução fica de fora. Uma conversa informal ou o silêncio do dono diante de uma proposta não substituem a licença expressa que a lei exige.

Quem fica com o potro nascido de uma cobertura não autorizada?
Pelas regras do depósito, a cria acompanha a mãe. O artigo 629 do Código Civil obriga o depositário a cuidar do bem como cuidaria do que é seu e a devolvê-lo com os frutos e acrescidos quando o dono pedir. Como o potro é fruto da égua, o proprietário tem base legal para exigir os dois de volta.
A indenização pode incluir gastos veterinários, o tempo em que a égua saiu do plano de criação do dono e os prejuízos de um cruzamento indesejado. Em disputas sobre a origem de um animal, os papéis de cada cobertura pesam muito, e esse ponto aparece em outro conflito comum nos haras.
Registro genealógico depende de quem é o dono da matriz
No Brasil, o registro genealógico de animais domésticos é feito por associações privadas, sob orientação e fiscalização do Ministério da Agricultura. A regra vem da Lei 4.716, de 1965, regulamentada pelo Decreto 8.236, de 2014. O decreto descreve o registro como o assentamento das informações dos animais de interesse zootécnico e econômico.
Cada associação de raça segue um regulamento próprio, que trata, entre outros pontos, dos direitos e deveres dos criadores. O decreto também permite ao superintendente do registro suspender ou cancelar o registro de animais com base em fatos apurados. É na entidade da raça que o dono deve conferir se alguma cobertura ou nascimento foi comunicado em nome da égua.
Provas e caminhos para o dono da égua cobrar o haras
O primeiro passo é confirmar a gestação ou a cobertura com um médico-veterinário de confiança, com exame clínico e ultrassonografia, e anotar as datas. Depois, junte tudo o que mostre o que foi combinado e o que de fato aconteceu com a égua no haras.
Esses documentos servem para negociar e, se for preciso, para entrar na Justiça. Estes são os itens que costumam fazer diferença:
- contrato de pensão animal, aditivos e comprovantes de pagamento;
- laudos veterinários e imagens do ultrassom;
- mensagens, fotos e vídeos trocados com o estabelecimento;
- resposta da associação de raça sobre comunicações feitas em nome da égua.
Com esse material em mãos, o proprietário pode mandar uma notificação extrajudicial ao haras, pedindo explicações e a reparação dos danos. Se não houver acordo, o caminho é a Justiça, com apoio de um advogado ou da Defensoria Pública. O profissional também avalia se a relação pode ser tratada como de consumo.

Como evitar que a égua seja usada em reprodução no haras?
A prevenção começa no papel. O contrato de pensão animal pode ter uma cláusula que proíba cobertura, inseminação, coleta de embriões e qualquer manejo de reprodução equina sem autorização escrita e específica. Também ajuda garantir o acesso do dono ao animal, exigir aviso sobre cio ou problemas de saúde e prever multa se o acordo for descumprido.
O cuidado mais importante é nunca deixar a autorização em aberto. Não assine formulários em branco nem procurações genéricas para a associação de raça, e confira de tempos em tempos o histórico da égua no registro genealógico. Se desconfiar de algo, procure um advogado antes de retirar o animal ou romper o contrato, para não perder provas nem direitos.
Para quem gosta de cavalos, a história da chegada deles às Américas também guarda boas surpresas. Essa trajetória começa com uma viagem de Colombo.




