Na manhã de 11 de junho de 1938, um homem chamado Hugh Lord desamarrou um barco a remo diante da própria casa, em St. Thomas, no sul de Nevada, e remou para longe. A água já cobria a rua, o quintal e a soleira da porta. Ele foi o último morador a sair, segundo o registro do National Park Service, que hoje administra o lugar. Atrás dele ficou uma cidade inteira, que em poucos meses desapareceu sob o Lago Mead, o reservatório criado pela represa Hoover.
Oitenta e oito anos depois, a cena se inverteu. A seca prolongada na bacia do rio Colorado derrubou o nível do lago a ponto de a cidade submersa reaparecer, e hoje é possível caminhar entre as ruínas de St. Thomas por uma trilha oficial do parque. A comparação fica perto de casa: o Brasil também tem cidades inteiras no fundo de reservatórios, e algumas já voltaram à superfície em anos de estiagem.
Por que a cidade submersa de St. Thomas reaparece quando a seca aperta?
St. Thomas fica na parte rasa do reservatório, no braço norte do Lago Mead, onde qualquer queda de nível expõe o fundo primeiro.
A história começa em 1865, quando colonos mórmons liderados por Thomas Smith fundaram o povoado, que o National Park Service descreve como uma cidade de fazendas, casas e lojas, com cerca de 500 habitantes no auge, segundo a Water Environment Federation, associação técnica do setor de água dos Estados Unidos. Quando a represa Hoover ficou pronta, o Colorado começou a encher cânions e vales a montante, e o Lago Mead subiu até alcançar a cidade. Os moradores venderam as terras, desmontaram as casas e partiram. No pico do reservatório, o prédio mais alto de St. Thomas ficou 18 metros abaixo da superfície, de acordo com a mesma entidade.
Quando a represa Hoover chegou ao vale de St. Thomas?

O Lago Mead começou a se formar em 1935, de acordo com o US Bureau of Reclamation, órgão federal que opera a represa Hoover.
O Bureau of Reclamation registra a linha máxima do lago em 1.229 pés acima do nível do mar, o equivalente a cerca de 374 metros, e a capacidade de armazenamento em 28,9 milhões de acres-pés na cota de 1.221,4 pés. Isso corresponde a pouco mais de 35 bilhões de metros cúbicos, três vezes o reservatório de Itaparica, no rio São Francisco. Quando esse volume encolhe, a água some primeiro das bordas, e St. Thomas está numa delas.
Quanto o Lago Mead baixou para devolver as ruínas?
O recorde de baixa foi batido em agosto de 2026. Os dados horários do Bureau of Reclamation, citados pelo jornal Las Vegas Review-Journal, mostram o lago a 1.040,46 pés em 8 de agosto de 2026, abaixo dos 1.040,50 pés registrados em 28 de julho de 2022.
A tabela de fim de mês do próprio Bureau of Reclamation fecha agosto de 2026 em 1.038,83 pés. A distância até a linha máxima de 1.229 pés passa de 190 pés, ou cerca de 58 metros de coluna d’água a menos no ponto mais fundo. A cidade, portanto, sai da água muito antes de o lago chegar a esses extremos. Foi o que aconteceu em 1945, de novo entre julho de 1963 e novembro de 1972, e de forma contínua desde 2002, segundo a cronologia compilada pela Water Environment Federation. O senso comum diz que uma represa enterra uma cidade para sempre. Em St. Thomas, os 24 anos seguidos fora d’água desde 2002 superam qualquer período anterior e se aproximam de um terço da história do reservatório. Uma represa não apaga uma cidade: apenas fixa a data do reencontro, e quem marca essa data é o clima.
O que ficou de pé: a escola, o hotel e a sorveteria?
Ficaram fundações, escadas e um pedaço de parede, e tudo ali é sítio arqueológico protegido por lei federal. A trilha oficial tem 2,5 milhas de ida e volta, cerca de 4 quilômetros, com 85 pés de desnível, e a página do parque sobre a caminhada avisa que o percurso não recebe manutenção e que os vestígios vão de cacos de vidro a grandes fundações de prédios. Alguns pontos se destacam:
- A escola: é a maior fundação do sítio e conserva os degraus da entrada, segundo o levantamento da Water Environment Federation.
- A sorveteria: mantém uma parede vertical inteira, coisa rara num lugar que passou décadas debaixo d’água.
- O Hotel Gentry e a agência de correio: sobrevivem apenas em fotos da Nevada Historical Society, reproduzidas pelo National Park Service, que mostram o correio ainda aberto em 11 de junho de 1936, dois anos antes da partida do último morador.
Quem visita hoje encontra vegetação de deserto crescendo dentro do que foram salas de aula e quartos de hotel.
Onde o Brasil guarda cidades no fundo de reservatórios?
Em pelo menos três lugares bem documentados: Petrolândia, em Pernambuco; Igaratá, em São Paulo; e Canudos, na Bahia.
O caso mais parecido com St. Thomas é o de Petrolândia. A construção da Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga, conhecida como usina de Itaparica e operada pela Chesf, inundou a cidade antiga e obrigou a transferência dos moradores para a sede atual em 1988, segundo o histórico do município publicado pelo IBGE. O catálogo turístico da Prefeitura de Petrolândia registra que a Igreja Sagrado Coração de Jesus ficou parcialmente submersa depois de 1988, com apenas o topo visível, e que a antiga cidade está a uma profundidade de 20 a 30 metros, hoje ponto de mergulho. O mesmo documento descreve o reservatório com 834 quilômetros quadrados e cerca de 11 bilhões de metros cúbicos de água.
Em Igaratá, no Vale do Paraíba paulista, a represa Jaguari levou a CESP a construir, em 1969, um novo núcleo urbano para o município, cuja antiga sede ficou submersa, conforme o histórico do IBGE. A prefeitura ainda divide a própria história em Velha e Nova Igaratá. Em Canudos, o açude de Cocorobó, construído pelo DNOCS a partir dos anos 1950, cobriu o arraial de Belo Monte, destruído na guerra de 1897, e as ruínas voltaram a aparecer em estiagens longas, como a que atingiu o sertão baiano em meados da década de 2010. Para quem quer ver o que a estiagem faz com paisagens brasileiras, vale conhecer as lagoas entre dunas que enchem e secam conforme a chuva no Maranhão, um ciclo natural que faz o papel que a represa faz em Nevada. Quem gosta de cidades com camadas de história encontra outro exemplo numa vila mineira erguida em pedra que preserva pinturas de 5 mil anos.
O que convém lembrar sobre a cidade submersa de St. Thomas e o Lago Mead?
Quem pretende ver as ruínas deve consultar o nível do lago no site do Bureau of Reclamation antes de viajar, porque a trilha só existe enquanto a água estiver baixa. Levar água e sair cedo: o percurso de 4 quilômetros não tem sombra nem manutenção. Não tocar, não recolher e não subir nas fundações, pois o National Park Service trata qualquer dano como crime federal. No Brasil, o mesmo cuidado vale em Petrolândia, Igaratá e Canudos. E guardar a lição que vale para os dois países: uma cidade que a represa cobriu não deixa de existir, apenas espera a próxima seca.
Este texto é informativo e reúne registros públicos do National Park Service, do US Bureau of Reclamation, da Water Environment Federation, do IBGE e da Prefeitura de Petrolândia. Níveis de reservatório mudam todos os dias, e as condições de visita a cada sítio devem ser confirmadas com o órgão que o administra.




