A mãe entrega a chave do apartamento ao filho que precisa de um lugar para morar, sem contrato e sem cobrar nada. Três anos depois, ela decide vender o imóvel, pede a devolução e ouve um não. A cena é comum em muitas famílias e tem nome jurídico: comodato, o empréstimo gratuito previsto no Código Civil. Quando o morador se recusa a sair, a disputa costuma terminar num pedido de reintegração de posse.
Morar de graça no imóvel da mãe é comodato pelo Código Civil
O artigo 579 do Código Civil define o comodato como o empréstimo gratuito de coisas não fungíveis, ou seja, de bens que não podem ser trocados por outro igual. Um apartamento se encaixa nessa definição. O contrato se completa com a entrega do bem e não depende de papel assinado: um acordo verbal entre mãe e filho já configura o empréstimo.
Emprestar não transfere a propriedade. A mãe continua dona, e o filho recebe só o direito de usar o imóvel. Pelo artigo 582 do Código Civil, quem mora no imóvel deve conservá-lo como se fosse seu e usá-lo apenas conforme o combinado. Se descumprir isso, responde por perdas e danos.

Notificação extrajudicial encerra o empréstimo sem prazo
Quando ninguém combinou prazo, a notificação extrajudicial é o caminho para encerrar o comodato. O artigo 581 do Código Civil presume que o empréstimo dura o tempo necessário ao uso concedido. Antes disso, o dono só pode retomar o bem por necessidade imprevista e urgente, reconhecida pelo juiz.
O Informativo de Jurisprudência n. 791 do Superior Tribunal de Justiça (STJ) registra um julgamento de 2023 sobre esse ponto. A Quarta Turma decidiu, por maioria, que no comodato sem prazo basta notificar o morador depois de um tempo suficiente de uso. O aviso precisa dar um prazo razoável para a saída, e o dono não tem de justificar o pedido.
Na prática, é mais seguro fazer a notificação por escrito, por um meio que comprove o recebimento, com data e prazo claros para a entrega das chaves. Uma disputa parecida, entre amigos e envolvendo uma casa de praia, também foi explicada no CB Radar.
O filho pode ser obrigado a pagar aluguel à mãe?
Sim, a partir do momento em que entra em mora. O mesmo artigo 582 do Código Civil prevê que o comodatário em mora paga, até devolver o bem, o aluguel arbitrado pelo comodante. Assim, se o prazo da notificação vence e o filho continua no apartamento, ele passa a dever pelo uso.
A notificação também muda a natureza da posse. Segundo o Informativo de Jurisprudência n. 713 do STJ, no comodato verbal sem prazo, a posse deixa de ser justa quando vence o prazo dado ao morador. A partir daí, a permanência vira esbulho, a perda indevida da posse para o dono. O tribunal dispensou o aviso apenas quando o ocupante já sabia, sem dúvida, que o dono queria o bem de volta.
Como funciona a ação de reintegração de posse do imóvel?
A ação de reintegração de posse serve para devolver o imóvel ao dono quando o ocupante se recusa a sair. Pelo artigo 561 do Código de Processo Civil, a mãe precisa provar a posse, o esbulho praticado pelo filho, a data em que ele ocorreu e a perda da posse.

O tempo também pesa no processo. O artigo 558 do Código de Processo Civil reserva o rito especial às ações propostas em até ano e dia do esbulho. Nesses casos, o artigo 562 do Código de Processo Civil permite ao juiz conceder uma liminar sem ouvir o réu, se o pedido estiver bem documentado. Depois desse prazo, o procedimento segue o rito comum, mas continua sendo possessório.
Documentos e prazos que pesam na disputa entre mãe e filho
A prova do empréstimo define boa parte do caso. Mensagens em que a mãe autoriza a moradia, comprovantes de IPTU e de condomínio pagos por ela e a matrícula do imóvel ajudam a mostrar que o filho morava ali por permissão, e não como dono.
Um conflito familiar desse tipo também pode terminar em acordo, com um prazo de mudança negociado entre as partes. Como cada situação depende das provas e do que foi combinado, convém procurar um advogado ou a Defensoria Pública antes de entrar com a ação.
O que acompanhar a partir de agora: o prazo da notificação extrajudicial, que dá início à mora e ao aluguel, e o limite de ano e dia para pedir a liminar. O texto oficial das leis está no portal do Planalto, e os entendimentos do STJ saem nos informativos de jurisprudência do tribunal. Se você emprestou um imóvel a alguém da família, guarde as conversas e registre o combinado por escrito desde já.
Os conflitos em casa não envolvem só parentes: a relação com quem mora ao lado também tem regras no Código Civil. Uma briga por causa de latidos que chegou ao Judiciário mostra como elas funcionam.
Cachorro de morador late ininterruptamente durante o dia e a noite…➔




