
A manhã nublada e chuvosa dessa segunda-feira foi de despedida para amigos e familiares do desembargador Maurício Silva Miranda, 60 anos, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT). O magistrado tornou-se desembargador em maio de 2023, após atuar por mais de 30 anos no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), onde foi promovido a procurador de Justiça.
Maurício morreu após se sentir mal depois do Natal, em Goiânia, onde passava as festas de fim de ano com a família. De acordo com o atestado de óbito, a causa da morte foi insuficiência respiratória aguda, associada a pneumonia bacteriana não especificada e hepatite transinfecciosa. A suspeita da causa inicial do quadro é dengue ou leptospirose, mas ainda não há um diagnóstico oficial.
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No velório e sepultamento, realizados no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, a despedida foi marcada por comoção, homenagens e lembranças da trajetória pessoal e profissional do desembargador.
Muito abalada com a perda do filho, Aide Borges da Silva, 79 anos, emocionou os presentes ao se despedir de Maurício com palavras de fé e amor. "O coração de mãe fala. Deus te leva, te guarda e te dá um bom lugar, porque você foi um bom filho, um bom irmão, carinhoso com todo mundo", disse. Em meio às lágrimas, ela afirmou que seguirá lembrando e orando por ele. "Você vai com Deus, meu filho amado. Te amo, Maurício. Que Deus te abençoe por onde você passar", declarou.
Ao lado dela, o irmão do desembargador, Divino Silva Miranda, 59, ressaltou o perfil afetuoso e familiar de Maurício, lembrado tanto pela atuação profissional quanto pela convivência próxima com parentes e amigos. "Ele era festivo, alegre, gostava de estar com as pessoas. Quem conviveu com ele no ambiente familiar sabe como ele era pai, filho e irmão", disse. Em tom de dor e reflexão, ele reconheceu a dificuldade da perda. "É doído para mim, mas, mais ainda, para uma mãe entregar um filho. Essa dor não passa, a gente aprende a conviver com ela", declarou.
Homenagem
A despedida do desembargador reuniu autoridades do Judiciário que fizeram questão de prestar a última homenagem ao colega. Presente na cerimônia, o presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), Waldir Leôncio Júnior, lamentou a perda e destacou as qualidades humanas e profissionais do magistrado. "Era extremamente simples, acessível, humilde, dedicado e trabalhador. A sociedade perde um grande cidadão, o tribunal perde um grande juiz e nós, os amigos, perdemos um grande amigo. Os rastros do Maurício não se apagarão", afirmou.
A mesma sensação de vazio foi compartilhada por outros integrantes do Judiciário que acompanharam de perto a trajetória do desembargador. Para o também desembargador Roberval Belinati, a morte de Maurício representa uma perda que ultrapassa os limites institucionais. "Além da saudade no Ministério Público e no Tribunal de Justiça, há a saudade da própria sociedade, porque ele passou praticamente toda a vida defendendo o interesse público, especialmente no Tribunal do Júri", disse. Belinati ressaltou, ainda, o legado ético deixado pelo colega. "Foi um homem correto, honesto e sincero, que fazia questão de ver a lei cumprida. Esse é o exemplo de vida que ele deixa para todos nós", destacou.
O TJDFT decretou luto oficial de três dias, a partir de 4 de janeiro, em razão do falecimento do desembargador, com as bandeiras Nacional, do Distrito Federal e da Corte hasteadas a meio-mastro em todas as edificações.
Entre lembranças que atravessam décadas e vínculos que ultrapassam a vida profissional, a despedida do desembargador também foi marcada por relatos de quem caminhou ao seu lado desde o início da carreira. O advogado e ex-senador Demóstenes Torres conta que a convivência começou ainda quando atuavam em comarcas vizinhas no antigo estado de Goiás.
"Ele se transformou numa figura espetacular. Todo mundo sabe que foi o rei do júri em Brasília, um dos melhores do Brasil", afirmou, destacando o legado deixado por Maurício. "É uma perda para Goiás, para o Distrito Federal e para o país. Ele construiu uma trajetória que marcou o Ministério Público e o Tribunal do Júri", declarou.
O mesmo traço humano lembrado por antigos colegas apareceu nas falas de amigos que conviveram com o magistrado fora dos tribunais. A advogada Noeli de Souza Borges, 53 anos, destacou que a ascensão profissional de Maurício jamais apagou suas origens. "Ele nunca perdeu a humildade. Mesmo depois de alcançar o cargo de desembargador, continuava sendo a mesma pessoa do interior, do povo", afirmou. Para ela, o legado deixado vai além das decisões judiciais. "O Maurício foi um exemplo para nós. Sempre incentivava a estudar, a não desistir da carreira. O que ele mais deixa é a simplicidade e esse incentivo constante", concluiu.

Cidades DF
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