
"É o carro antigo mais adorado do Brasil." A descrição do Fusca feita pelo psicólogo, entusiasta e colecionador de carros antigos, Wallace Lelis, 40 anos, traduz a paixão de muitos brasileiros. O automóvel Volkswagen Sedan, popularmente conhecido como Fusca, foi o primeiro modelo fabricado pela companhia alemã, em 1938. O carro parou de ser produzido no mundo em 2003, mas não deixou de habitar o imaginário e a realidade de muita gente, entre colecionadores e apaixonados. Em janeiro de 1959, o automóvel passou a ser fabricado no Brasil. No fim daquele ano, o Fusca já era o carro mais vendido do país. E ele também tem uma data para chamar de sua: 20 de janeiro, quando se comemora o Dia Nacional do Fusca.
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Na capital do país, cidade com uma forte cultura de carros antigos, o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) informou que há 18.659 Fuscas circulando. No Brasil, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), tem cerca de 2 milhões de Fuscas em circulação. O Clube do Fusca e Carros Antigos de Brasília reúne-se mensalmente. É uma forma de confraternizar, diz o presidente Carlos Henrique Ferreira Bastos, 52. Ele é um dos maiores incentivadores da paixão pelo automóvel. "Eu tenho, dentro do meu quarto, 1,2 mil miniaturas de Fuscas", compartilha. "Certa vez, me desfiz de um Fusca porque uma ex-namorada não gostava do carro. Mas, no fim das contas, a saudade do Fusca foi maior do que a vontade de ficar com ela", lembra Carlos, com humor.
Anualmente, o clube realiza um evento para celebrar o Dia Nacional do Fusca. A celebração ocorreu no último sábado, na Concha Acústica, e reuniu colecionadores, entusiastas, apaixonados e curiosos. "O Fusca é um carro que une pessoas por trazer muitas memórias afetivas", afirma Wallace Lelis, organizador do evento junto com Carlos Henrique.
De pai para filho
"Eu aprendi a dirigir em um Fusca. O primeiro carro do meu pai foi um Fusca e o meu também. Tenho outros carros antigos, mas a minha paixão é e será sempre o meu Fusca. Sou viúvo, tenho uma filha e minha família é ela e os meus amigos que fiz graças ao amor pelo carro", diz Carlos Henrique.
O arquiteto João Galeno, 35, também faz parte do Clube do Fusca e Carros Antigos de Brasília e é apaixonado pelo carro desde criança. "Tenho meu Fusca há cinco anos, mas gosto desde criança. Herdei a paixão pelo carro do meu avô e, agora, meus filhos também herdaram. Direto, eles me pedem para buscá-los na escola no carro", relata João, que é filho do artista plástico Francisco Galeno. "Quando meu pai estava morando em Parnaíba, eu comprei um Fusca aqui e ele ficou com vontade e também comprou um Fusca lá. Agora que ele se foi, eu trouxe o dele para cá também para ficar guardado junto com os meus carros antigos", afirma.
Salvação
O analista de mídias Clístenes de Aragão Cardoso, 41, comprou o primeiro Fusca porque foi o carro mais barato que encontrou quando decidiu que queria parar de ir de ônibus à faculdade. "Me vendo andar de ônibus, meu pai encontrou esse Fusca à venda perto da nossa casa. Eu liguei para o dono pra perguntar o preço e eu não tinha os R$ 4 mil que ele estava cobrando. Pedi que ele me vendesse por R$ 3 mil e ele desligou o telefone. Depois de uns 10 minutos ele me ligou de volta, para minha alegria", relembra. "Como cresci vendo meu pai cuidando do Passat 1982 dele, cresci com alguma bagagem de engenharia mecânica. Sempre tento resolver sozinho os problemas que venham a surgir no carro", acrescenta.
Leia também: O Fusca ao longo da história
"Quando meus filhos nasceram, há 15 anos, meu único meio de transporte era o Fusca. O carro tem valor afetivo para mim. Tenho um outro carro que uso para trabalhar, mas gosto de ir às sextas-feiras de Fusca para o trabalho. É satisfatório demais guiar o carro com aquele volante fino, o braço apoiado na janela e sentir a portinhola empurrar o vento com força na sua direção. Pra completar, vou curtindo meu som com caixa de grave e tudo", conta Clístenes. "O carro tem um valor afetivo para mim. Cheguei a vender meu Fusca, mas comprei de volta quando vi que o novo proprietário não estava cuidando direito", revela.
O Fusca também foi o primeiro carro do professor aposentado Ely Pinto Rabelo, 61. Proprietário de dois Fuscas, ele não usa nenhum outro meio para se locomover diariamente. Além disso, cuidar do carro é uma terapia para ele. "A paixão surgiu quando eu tinha 17 anos, que foi quando comprei meu primeiro carro, um Fusca. Eu faço tudo nele: monto, desmonto, cuido do motor, lanternagem e até a pintura", comenta. "Eu comprei um dos meus Fuscas bem destruído e eu mesmo arrumei o carro todo. Eu não herdei de ninguém o amor pelo carro. O Fusca me conquistou sozinho", conclui.
Curiosidade
O Fusca parou de ser produzido no Brasil em 1986, mas a produção foi retomada em 1993 a pedido do então presidente da República Itamar Franco como parte de um programa de incentivo a carros populares, com redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Itamar tinha apreço pelo automóvel e chegou a dirigir um modelo azul conversível feito exclusivamente para ele. O carro está em exposição no Memorial Itamar Franco, em Juiz de Fora. Em 28 de junho de 1996, o Fusca saiu de linha no Brasil, mas não sem antes deixar uma legião de apreciadores.

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