Nesta semana, os Estados Unidos (EUA) anunciaram a retirada de seis vacinas do calendário recomendado para crianças contra as seguintes doenças: hepatite A e B, gripe, meningococo, vírus sincicial respiratório e rotavírus. Em entrevista ao CB.Saúde — parceria entre Correio e TV Brasília — a pediatra Andréa Jácomo (E), professora de medicina no Centro Universitário de Brasília (Ceub), alertou sobre o perigo que isso representa para o resto do mundo, inclusive para o Brasil, "porque os vírus e as doenças andam de avião". Às jornalistas Carmen Souza (C) e Sibele Negromonte, ela reiterou a importância da vacinação.
Há estudos científicos que indiquem que realmente existem vacinas demais sendo aplicadas em crianças nos EUA?
Esse é o aspecto mais triste de todos, porque, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, dos EUA), as vacinas passaram a ser classificadas em três grupos: as que continuam sendo recomendadas, as indicadas apenas para grupos de risco e aquelas que as famílias precisam discutir com os pediatras para decidir se vale a pena ou não aplicar. Nos EUA, onde não existe o Sistema Único de Saúde (SUS), isso significa custo para as famílias, que terão de decidir se vão pagar por essas vacinas — e elas são caras. Trata-se de uma estratégia isolada do CDC. Quando pensamos em vacinação no mundo, observamos algumas mudanças ao longo do tempo. A estratégia de erradicação da poliomielite é um excelente exemplo. Ela começou na década de 1980, no Brasil e na maioria dos países, com a vacina oral contra a pólio, com vírus atenuado, as chamadas "gotinhas". Desta vez, não há estudos que justifiquem a retirada.
Qual delas é a mais preocupante?
Todas são preocupantes. A hepatite B, por exemplo, tem transmissão vertical e precoce, da mãe para o bebê, e após a introdução da vacina, houve uma redução de 89% nos casos em um ano, um efeito que nenhuma medicação consegue alcançar. O mesmo ocorre com a vacina contra a bronquiolite que, recentemente, passou a ser aplicada em gestantes. Houve redução de 50% nos casos. Todas essas mudanças geram custos, porque, nos EUA, que é um país rico, ocorrem entre 40 mil e 50 mil internações por ano que poderiam ser evitadas com a imunização contra o rotavírus, que também está na lista. No Brasil, o impacto foi significativo em 2006, quando a vacina contra a doença, com apenas uma cepa na rede pública, reduziu de forma expressiva as internações e as mortes por diarreia.
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Quando saiu a recomendação, muitas pessoas falaram sobre a meningite, já que o Brasil tem registrado aumento de casos, inclusive no DF.
É preocupante, porque a doença meningocócica é uma das principais causas de morte em unidades de terapia intensiva (UTIs). Sou de uma geração que tratou muitos casos, porque a vacina só foi incorporada em 2010, o que mudou completamente o cenário no DF. Porém, em 2019, tivemos uma situação preocupante quando o Ministério da Saúde incluiu a vacina meningocócica ACWY — antes disponível apenas na rede privada — para adolescentes. Ainda assim, em 2025, foram registrados mais de nove mil casos de meningite no país, com mais de mil mortes. Por isso, é fundamental discutirmos as vacinas e estarmos atentos. Não dá para copiar modelos estrangeiros para o Brasil. Se olharmos os casos de sarampo nos EUA, foram mais de dois mil registros e três mortes na última temporada. Em 2018, apenas na região Norte do país, houve mais de nove mil casos e 12 mortes, principalmente em crianças menores de um ano não vacinadas. Nos EUA, 69% dos casos ocorreram em crianças e adolescentes, e 93% não eram vacinados. Trata-se de uma vacina segura e eficaz.
Qual recado os EUA mandam para o mundo ao tomar essa decisão?
Essa é a preocupação da Academia Americana de Pediatria, que classifica a ação como perigosa e desnecessária. A Sociedade Brasileira de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Imunização também veem com grande preocupação. Nós vamos ter um documento de posicionamento também das sociedades brasileiras, porque os vírus e as doenças andam de avião. Então, a circulação das pessoas pelo mundo é muito rápida, o sarampo, por exemplo, é uma doença que, quando aparecem as manchas pelo corpo que, até então, as pessoas acham que é uma gripe um pouco mais forte, essa pessoa já conseguiu contaminar 18. Por isso, a nossa preocupação com o sarampo lá de fora, porque vai chegar aqui se a nossa cobertura vacinal não estiver boa.
