Menos de dois anos após uma ação policial que levou dezenas de traficantes à prisão, a Vila Cauhy, no Núcleo Bandeirante, voltou a ser alvo da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF). Nessa quarta-feira (28/1), a corporação executou a segunda fase da Operação Último Comando, com 18 mandados de prisão e 23 de busca e apreensão contra uma rede criminosa que atua na região.
O delegado Bruno Endo, da 11ª Delegacia de Polícia, explicou que a operação está diretamente ligada a uma ação anterior, realizada em dezembro de 2023. "À época, a delegacia deflagrou uma operação de enfrentamento ao tráfico de drogas na Vila Cauhy, na qual cumprimos 35 mandados de busca e 32 mandados de prisão preventiva. Foi uma operação exitosa, com resultados significativos, porque conseguimos retirar de circulação, de uma única vez, dezenas de traficantes vinculados à facção Terceiro Comando Puro (TCP), segunda maior organização criminosa do Rio de Janeiro", afirmou.
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Segundo o delegado, apesar do impacto da primeira operação, a repressão não foi suficiente para cessar a atividade criminosa. "Poucos meses depois, nossa seção de repressão às drogas identificou que outros personagens ocuparam o espaço dos antigos traficantes, retirados de circulação em 2023. Por isso, em meados de 2024 abrimos uma nova investigação", explicou.
Durante o monitoramento, que contou com ferramentas investigativas mais invasivas, como monitoramento por drones com autorização judicial, a polícia conseguiu comprovar a atuação dos criminosos.
Diferenças
Na operação, 14 dos 18 mandados de prisão haviam sido cumpridos até o fechamento desta edição. Outros quatro investigados estavam foragidos. Também houve quatro prisões em flagrante. Armas, celulares, drogas, dinheiro em espécie e balanças de precisão foram apreendidas com os suspeitos.
O delegado destacou que os presos na operação desta quarta-feira (28/1) têm características diferentes do grupo desarticulado há cerca de dois anos. "Os criminosos presos em dezembro de 2023 eram muito mais articulados, tinham liderança, divisão de tarefas. O grupo preso ontem, na verdade, era um amontoado de traficantes que se juntaram para, de maneira colaborativa, se ajudarem no tráfico de drogas. Não existe uma hierarquia de um sobre o outro", detalhou.
Segundo Endo, essa colaboração ficou evidenciada durante a investigação. "Os traficantes instalaram câmeras em algumas casas, e as imagens dessas câmeras passaram a ser disponibilizadas num grupo de WhatsApp, onde só faziam parte os traficantes da região. Ali, era informada a presença de uma viatura policial na entrada da rua, na curva, o que caracterizou essa colaboração entre todos esses traficantes", relatou.
Um dos aspectos mais graves revelados pela apuração foi a coação de moradores da região. "De tudo apurado, essa é a pior situação. Os moradores da Vila Cauhy estavam reféns desses traficantes. Alguns procuraram a Polícia Civil para relatar que estavam sendo obrigados a guardar, a ocultar a droga desses traficantes dentro do seu lote, dentro da sua casa. Eles temiam pela própria vida e acabavam cedendo a esse tipo de situação", contou o delegado.
De acordo com ele, a prática era uma estratégia para dificultar o trabalho policial. "É uma manobra inteligente por parte dos traficantes, porque afasta deles a materialidade do crime e, por outro lado, dificulta ainda mais o trabalho da polícia", disse. Endo ressaltou, ainda, as dificuldades operacionais na região, marcada por ruas estreitas e vielas. "A Vila Cauhy tem uma característica que remete um pouco às favelas do Rio de Janeiro. São centenas de casas, barracos geminados, o que dificulta uma abordagem. Só com trabalho de inteligência para realmente conseguir retirar de circulação esses elementos", ressaltou.
O delegado reforçou a importância da participação da população por meio de denúncias. "A questão da denúncia anônima, do canal 197 da Polícia Civil, é importantíssima. Por vezes, são elas que nos trazem algum norte numa investigação ou fortalecem algo que a gente já sabe", assinalou. Segundo ele, houve, inclusive, denúncias recentes. "Tenho denúncias anônimas da data de ontem (terça-feira), nas quais uma pessoa relata que há cerca de um ano três dos nossos investigados estavam aterrorizando a região, agredindo fisicamente quem não atendia aos seus comandos. A denúncia é sigilosa, é anônima e é um excelente canal de comunicação para ajudar os trabalhos da Polícia Civil", concluiu.
Memória
Em dezembro de 2023, a Vila Cauhy foi alvo de operações da Polícia Civil para prender traficantes vinculados ao TCP. Na época, foram designados 180 policiais civis, incluindo agentes, delegados e escrivães para a operação, que resultou na prisão de 32 pessoas.
A Rua da Glória abrigava um complexo esquema de organização criminosa, com organograma, sistemas de rondas e vigilância para garantir a segurança da rede de tráfico de drogas na região. A rua, apesar de pequena, foi inteiramente marcada com pichações que associavam a atividade criminosa do local à facção carioca.
A investigação, que também foi realizada pela 11ª DP, monitorou os passos dos criminosos durante um ano, determinando o modus operandi e a forma como a organização funcionava para garantir o comando do tráfico na região. Os criminosos utilizavam as redes sociais como principal forma de comunicação, e até promoviam transmissões ao vivo pelo Instagram para realizar conversas.
Luis Gustavo Cardia Vieira foi apontado como chefe da organização da Vila Cauhy. Em sua conta, o acusado postava fotos ostentando armas, dinheiro e drogas. As investigações foram determinantes para revelar a divisão de tarefas do grupo, além de esquemas para monitorar a polícia e a venda de drogas. Em atribuições menores, o grupo possuía fornecedores, soldados e fogueteiros.
Quatro perguntas para
Marivaldo Pereira, secretário Nacional de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça e Segurança Pública
Quais métodos de investigação e ferramentas de inteligência são mais eficazes para mapear e desarticular redes de tráfico que se reorganizam rapidamente?
Há vários métodos que podem ser utilizados, mas o mais importante deles é o estudo das movimentações financeiras. Por isso, a importância de fortalecer o COAF e a integração entre os órgãos de segurança pública e as demais agências de Estado, para que as informações sobre movimentações financeiras atípicas possam chegar rapidamente e ajudar na condução de investigações.
Como a análise de dados e a inteligência geoespacial contribuem para entender a dinâmica do tráfico de drogas em áreas urbanas complexas, como becos e vielas da Vila Cauhy?
A análise geoespecial permite identificar mudanças relevantes no território e permite, também, que os agentes de segurança pública possam se movimentar sem colocar as suas vidas em risco. Daí a sua importância, sobretudo, para orientar a realização de operações com alto risco.
Quais indicadores e alertas a inteligência policial monitora para saber quando traficantes estão tentando se rearticular após uma operação de repressão?
A movimentação financeira e a movimentação de recursos materiais é um indicativo muito importante. Quando um grupo desses começa a se organizar, há movimentação de armas, há movimentações atípicas na região. Todas essas movimentações são importantes de serem monitoradas. É fundamental que as armas eventualmente apreendidas façam parte de bases de dados integradas, porque outros estados podem ter informações importantes sobre elas. Há muitos grupos organizados que se especializaram no aluguel de armas. Então, muitas vezes, uma arma que está circulando no DF é uma arma que já passou por outras cenas de crimes em outros estados e pode ser identificada a partir de uma base de dados integrada.
Como as novas tecnologias (como análise de redes sociais, vigilância por drones e processamento de grandes volumes de dados) estão revolucionando a inteligência policial contra o tráfico de drogas?
Essas novas tecnologias são fundamentais, pois permitem o processamento de um volume gigantesco de informações e a identificação de determinados padrões de conduta de organizações criminosas, como o tipo de armamento e de droga utilizados. Esse avanço tecnológico é fundamental para orientar a atuação dos agentes de segurança pública. A tecnologia é uma grande aliada para o combate ao crime organizado. Aliada à integração da atuação dos estados com a União, ela tem um potencial ainda maior para aumentar a eficiência do Estado no combate às organizações criminosas.
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