CB.Poder

"Quem filma briga também é responsável pelo crime", afirma delegado

Hudson Maldonado, responsável pela investigação da morte de Leonardo Ferreira da Silva, afirmou que responsáveis por gravações podem também ser processados por homicídio

Delegado Hudson Maldonado:
Delegado Hudson Maldonado: "Até o momento, nos leva a crer de que se tratava de uma luta clandestina, o que é algo criminoso" - (crédito: Bruna Gaston CB/DA Press)

O delegado-chefe da 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho I), Hudson Maldonado — responsável pela investigação da briga que resultou na morte de Leonardo Ferreira da Silva, de 19 anos, no último domingo (16/2) —  disse no CB.Poder, que a filmagem da briga que resultou na morte do jovem aponta para um acordo previamente estabelecido antes luta. Ele também defendeu que Wanderson da Fonseca, que filmou e narrou a briga, seja processado por homicídio. Jardel da Nóbrega, 27, o agressor, e Wanderson, 29, foram presos e acusados pelo crime de homicídio contra Leonardo.

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O vídeo mostra Leonardo da Silva e Jardel da Nóbrega brigando, enquanto Wanderson fazia comentários sobre a luta. "A nossa suspeita não quer dizer que eles teriam marcado com uma semana de antecedência. Eles podem ter se encontrado naquela madrugada e decidido travar uma luta", explicou o delegado às jornalistas Ana Maria Campos e Mila Ferreira. 

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De acordo com Maldonado, a investigação seguirá ouvindo testemunhas, inclusive as que se manifestaram em redes sociais e demonstraram saber informações não apuradas pela Polícia Civil. "Mas tudo, até o momento, nos leva a crer de que se tratava de uma luta clandestina, o que é algo criminoso, que não deve ser praticado de maneira alguma", comentou.

O delegado explicou que a pessoa responsável por gravar uma briga de rua, de forma que esteja incentivando e auxiliando a agressão, deva responder pelo crime com as mesmas penas previstas àquele que agride de forma direta. Maldonado também comparou a morte de Leonardo a outro caso similar, o da agressão de Rodrigo Castanheira, 16 anos, também morto em uma briga presenciada por outros jovens: "Se duas pessoas estão brigando e outras estão filmando, sorrindo, há de se analisar até que ponto isso também pode servir de incentivo", disse.

Veja quem são os acusados envolvidos na morte de jovem de 19 anos em Sobradinho
Jardel, autor das agressões (E) e Wanderson, que filmou a luta (foto: Material cedido ao Correio)

Apesar das duas tragédias, Maldonado destacou que cada caso tem a sua particularidade e seria necessário averiguar o caráter da gravação. Ele afirmou que, em alguns casos, uma filmagem seria uma forma de registrar o crime para auxiliar em uma possível investigação, enquanto em outros casos poderia se caracterizar como crime de omissão. "As pessoas acham que, se as mãos dela não estão literalmente sujas de sangue, elas não podem ser responsabilizadas. Mas isso é mentira", ressaltou.

O delegado acrescentou que a divulgação das filmagens de lutas podem propagar prática de crimes semelhantes, contribuindo para o aumento de casos, como o de Leonardo Ferreira e de Rodrigo Castanheiro, que possuem dinâmicas parecidas. Segundo o entrevistado, brigas são praticadas principalmente por adolescentes e jovens do sexo masculino, em busca de pertencimento social; e a gravação desses encontros pode intensificar essa dinâmica, já que os participantes se sentiriam constrangidos em abandonar uma briga e receosos de serem vistos como covardes nas redes sociais.

"Em uma luta de boxe, por exemplo, um competidor que quebrasse as regras e matasse o oponente seria responsabilizado. Mas uma briga de rua não tem regras e não possui previsão legal nenhuma", destacou o delegado. Ele explicou que a integridade física não é um bem disponível, ou seja, caso um jovem mate outro em uma luta de rua, mesmo que os dois estivessem conscientes de possíveis riscos à própria vida, o agressor teria que ser julgado legalmente. 

Segundo o policial, mesmo que o autor de um crime de agressão não tivesse a intenção de matar, apenas de ferir o oponente em uma briga, ele teria que ser apontado por homicídio com dolo eventual, como os investigados em ambos os recentes casos de agressões no DF. "No dolo eventual ele teria o objetivo de ferir, mas ainda assume o risco consciente de matar o algoz. É diferente do dolo alternativo, em que o autor assume o objetivo de ferir ou matar. É algo que é difícil de descobrir a não ser que o próprio agressor fale", disse o delegado. 

Para mostrar como o dolo eventual funciona, ele usou como exemplo um tutor de um cão bravo, que possui o costume de deixar o animal solto: "É quando aquele tutor mostra que assume o risco do cachorro morder alguém, e não se preocupa com possíveis riscos". Neste caso, se o cão matar uma pessoa, o tutor deverá responder por homicídio com dolo eventual.

 

Investigação

Outro ponto que está sob investigação é a exata causa da morte de Leonardo. Segundo o delegado Hudson Maldonado, há duas linhas de investigação para determinar a causa. "Avaliamos que o ferimento fatal pode ter sido provocado tanto pelo mata-leão aplicado por Jardel, como também pela queda, onde ele poderia ter batido a cabeça no asfalto", explicou. A resposta para essa dúvida será definida após conclusão dos exames do Instituto Médico Legal (IML).

Jardel da Nóbrega e Wanderson da Fonseca, envolvidos na morte de Leonardo, foram indiciados e presos por homicídio. O delegado explicou que, dependendo do andamento das investigações, tipificação do crime pode mudar. "Se confirmado o motivo torpe, o indiciamento pode evoluir para um homicídio qualificado", afirmou. Nesse caso, o delegado acrescentou que, mesmo havendo um possível acordo para a briga, não se pode abrir mão da integridade física. "Isso só pode acontecer quando se trata de um esporte com regras e fiscalização como em competições de lutas e artes marciais", explicou.

Leonardo Ferreira da Silva
Leonardo sonhava em passar no concurso e ser policial civil (foto: Reprodução)

 

A dor de uma mãe

A morte do estudante Leonardo Ferreira deixou familiares e moradores de Sobradinho em choque. Abalada, a mãe do jovem, Francisca Mônica Ferreira Soares, falou com exclusividade ao Correio sobre a dor da perda e cobrou justiça. "Eu só quero que as coisas fiquem claras. Ainda não sei o que aconteceu, estou tentando entender. A polícia está investigando, mas eu não entendo o motivo de tanta violência", afirmou.

Segundo ela, a perda repentina agravou mais seu estado de saúde. "Preciso tomar muito remédio para acalmar o coração. Não estou conseguindo dormir, tomo vários calmantes, mas minha cabeça não para de funcionar com pensamentos muito pesados e tristes."

Ela disse que está cercada pelo carinho da família, mas, mesmo assim, a dor é insuportável. "Minha família está aqui comigo, me ajudando, mas não tem como. É uma dor que não sei se vai passar. Eu só queria meu filho de volta. Tenho medo de nunca saber o motivo dessa tragédia", disse.

Ao falar sobre Leonardo, a mãe descreveu um jovem afetuoso e muito ligado à família. "Ele era um menino lindo. Tinha um coração muito puro e sincero. A gente era muito próximo e agora eu não vou mais ter isso. Ele tinha só 19 anos, estava começando a vida. Ainda ia viver muitas coisas, mas teve o futuro tirado dele", afirmou. 

A mãe lembrou que o sonho de Leonardo era estudar para passar em um concurso para policial, seguindo os mesmos passos do avô e de dois tios. "Ele estava terminando o ensino médio agora. Ele falou várias vezes para mim que o sonho era ser policial", relembrou. 

Entre os moradores da região, o clima é de tristeza e insegurança. Uma vizinha preferiu não se identificar, mas disse que a violência abalou toda a rua, principalmente porque um dos envolvidos no crime mora nas proximidades.

"O Leonardo era um menino muito bom. Não era de muito papo, a gente não conversava muito, mas eu sempre soube que ele era do bem", contou.  "Ele passava, me cumprimentava, sempre educado. Nunca tivemos problema nenhum", acrescentou.

 

Memória: Violência gratuita e covarde

O Distrito Federal foi palco de outras tragédias envolvendo brigas que resultaram em óbitos. O último antes de Leonardo, foi Rodrigo Castanheira, que morreu após ser espancado pelo ex-piloto Pedro Arthur Turra Basso na saída de uma festa, na madrugada de 23 de janeiro, em Vicente Pires. O adolescente sofreu um traumatismo craniano grave ao bater a cabeça durante a agressão. Ele foi socorrido e levado ao Hospital Brasília, em Águas Claras, onde permaneceu internado em estado gravíssimo, em coma por 16 dias, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas não resistiu às complicações, morrendo na madrugada de 7 de fevereiro.

Em 10 de agosto de 2000, o estudante universitário João Cláudio de Cardoso Leal, à época com 20 anos, foi morto durante a madrugada após sair de uma boate, na Asa Sul. Um amigo de João, Gilson Leal Meneses, relatou que a agressão teve início após uma discussão com outro grupo de amigos. Leal morreu no local das agressões.

Sete anos antes, no mesmo dia, Marco Antônio Velasco, de 16 anos na data do acontecido, foi espancado até a morte por membros da gangue Falange Satânica, da Asa Norte. O jovem caminhava com dois amigos quando foi abordado por seus assassinos. Marquinho, como era conhecido, caiu ao tentar escapar e foi cercado por pelo menos 10 integrantes da gangue. Velasco sofreu traumatismo craniano e morreu 10 horas depois.

*Estagiário sob a supervisão de José Carlos Vieira

 

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postado em 19/02/2026 04:00
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