
O empresário Ricardo Carneiro e a estudante Isabela Fleury, pai e irmã de Rodrigo Castanheira, falaram ontem, pela primeira vez, sobre a morte do adolescente de 16 anos, agredido por Pedro Arthur Turra Basso, de 19 anos. A entrevista coletiva foi concedida no escritório do advogado da família, Albert Halex. Abatidos e com os olhos vermelhos de quem já chorou por dias seguidos, os familiares explicaram a ausência da mãe do jovem, que não participou. "Ela não tem condições de enfrentar isso agora", justificaram.
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A coletiva foi marcada por lembranças interrompidas, silêncios, frases engolidas pelo choro e pela repetição de uma palavra: justiça.
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Rodrigo morreu na manhã de 7 de fevereiro, após 16 dias internado, em coma, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Brasília Águas Claras. O adolescente foi agredido em 23 de janeiro, na saída de uma festa, em Vicente Pires, e sofreu traumatismo craniano severo. Durante a internação, teve uma parada cardiorrespiratória que durou 12 minutos, além de outras complicações.
Filmado agredindo o jovem, Pedro Turra permanece preso em cela individual na ala de segurança máxima do Complexo da Papuda, por risco à integridade física. Ele responde por homicídio doloso. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios solicitou indenização mínima de R$ 400 mil por danos morais à família da vítima.
Ausência
Desde a morte do filho, Ricardo descreve uma rotina marcada por desvios físicos e emocionais. Ele evita passar em frente à escola onde Rodrigo estudava. "Mudei todos os caminhos que costumava fazer. Dou a volta porque não consigo", contou. O escritório onde o adolescente começou a trabalhar ao lado do pai permanece fechado para ele. "Ele ficava sentadinho comigo, me ajudando. Nunca mais consegui voltar. Tem 40 dias que eu não entro lá."
Rodrigo ensaiava os primeiros passos da independência financeira. Trabalhava com o pai, falava em abrir empresa, comprar carro, morar com amigos. "Ele queria ganhar o dinheiro dele, comprar uma kitnet, construir a vida. Era muito empolgado", disse Ricardo. Para a família, a dor da perda se soma à sensação concreta de um futuro interrompido.
Em casa, os objetos tornaram-se marcos de uma ausência permanente. "Eu não consigo entrar no quarto dele. Não consigo ver a bicicleta na qual ele andava", confessou o pai. A irmã Isabela compartilha da mesma dificuldade. Ela dividia o banheiro com o irmão e decidiu mudar de quarto para um mais distante. "Ele era a metade do meu coração. Perdi a pessoa que cresceu comigo, com quem dividi a infância inteira. Nunca imaginei perder meu irmão", afirmou.
A estudante relatou ter assumido tarefas que, segundo ela, foram profundamente dolorosas, mas necessárias para preservar os pais. "Fui reconhecer o corpo no IML, assinei os termos da cirurgia, fiz tudo que pude para poupá-los." Não foi imposição, explicou, mas uma escolha para tentar proteger a mãe e o pai.
A ausência de Rodrigo se projeta para o futuro. "Este ano vou me formar e meu irmão não estará lá. Quando eu me casar, ele não vai estar. Meu Natal nunca mais vai ser o mesmo. Minha família nunca mais vai ser a mesma", disse Isabela, em meio às lágrimas.
Um dos pontos que mais inquieta a família e o advogado constituído por ela é o fato de um dos envolvidos ser um conhecido. Segundo Ricardo, o menor de idade que dirigia o veículo no dia do crime estudou por anos com Rodrigo e integrava o mesmo grupo social. "Era do meio do meu filho. Não era alguém estranho que apareceu do nada. Eu mesmo levei o Rodrigo duas vezes na casa dele. Nunca vi nada de estranho", comentou.
De acordo com o pai, não havia indício de perseguição ou de conflito declarado. "Vi alguns comentários depois do ocorrido, mas, sinceramente, não acredito que existia algo nesse sentido. Não sei o que pode ter acontecido para chegar a esse ponto." A ausência de explicações torna o sentimento de perplexidade ainda mais forte. "Acho que nenhum deles tinha motivo para fazer o que fizeram", desabafou.
Responsabilização
Ricardo destacou, ainda, a diferença física entre o filho e o acusado. "Meu filho tinha 1,71m e pesava 62 quilos. O outro tem cerca de 1,90m. Não existe comparação", completou. Ele relatou que evita até mesmo olhar fotos do suspeito. "Eu o vi uma vez, na televisão, quando estávamos no hospital. Se ele passar por mim hoje, acho que nem reconheço."
Além do principal acusado, a família cobra a responsabilização dos demais ocupantes do carro. O advogado Albert Halex destacou que cinco pessoas estavam no veículo. Ele sustenta que há indícios de premeditação e questiona o fato de o único menor de idade ser o condutor, justamente um adolescente que é bicampeão de drift. "Será que ele era o mais habilidoso para uma fuga?", questionou.
Ricardo completou que nenhum dos envolvidos foi forçado a estar ali. "Ninguém estava no carro obrigado. Eles foram com uma missão em mente e colocaram em prática."
Após a coletiva, em conversa exclusiva com o Correio, Isabela afirmou temer que o poder econômico dos envolvidos influencie o andamento do processo. "É uma luta de Davi contra Golias. Eles têm muitos recursos. A gente tem Deus", declarou.
Segundo ela, o receio não é apenas pessoal, mas estrutural. "A gente teme falhas no sistema de Justiça quando pessoas com alto poder aquisitivo estão envolvidas." Para a família, o luto permanece suspenso enquanto o processo não avança. "A gente só vai conseguir viver o luto quando a justiça for feita", disse Ricardo.
Esperança
Durante os 16 dias em que Rodrigo permaneceu na UTI, o pai se agarrou a qualquer possibilidade de conexão. "Eu li para ele meu livro favorito, O Homem que calculava. Alguns dizem que pessoas em coma têm a audição preservada, e eu me apeguei a isso", contou.
Ele passava horas ao lado do filho, entre orações e conversas. "Eu sempre afirmei meus sentimentos para meus filhos em vida. No hospital, eu repeti muitas vezes. Abracei muito."
Isabela lembra que a diferença de idade entre os dois era de seis anos, mas que recentemente começaram a compartilhar fases semelhantes. "Agora que a gente estava começando a viver coisas parecidas, eu queria dar mais um abraço nele", disse. Se pudesse dizer uma última frase, seria direta: "Eu te amo muito."
O pai acredita que o episódio poderia ter sido evitado. "Não foi a primeira vez que ele agrediu alguém. E, se não tivesse acontecido o que aconteceu, talvez não seria a última", afirmou, referindo-se ao principal acusado.
Questionado sobre a possibilidade de perdão, Ricardo foi sincero: "Eu não penso nisso. Não sei o que eu falaria para ele."
Apesar da dor ainda recente, a família pretende, no futuro, transformar a experiência em apoio a outras pessoas que enfrentam tragédias semelhantes. "Se eu tiver oportunidade de ajudar alguém que esteja passando por isso, eu e minha família vamos ajudar", disse o pai.
Por enquanto, porém, o sentimento é de ruptura definitiva. "Minha vida acabou com a morte do meu irmão", afirmou Isabela. "Foi tirado de mim metade do meu coração. Enquanto isso, a vida dos envolvidos está intocável."
Ao fim da coletiva, não houve discursos longos. Apenas silêncio. E, nele, uma frase que se repetiu como um resumo de toda jornada: "É preciso ter justiça".

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