Meio ambiente

Os guardiões da floresta: conheça atrativos e desafios da Flona de Brasília

Em 2025, a Floresta Nacional, em Taguatinga Norte, recebeu 79 mil visitas de quem busca por trilhas que chegam até 36km, caminhadas, acampamentos e conexão com a natureza

As cunhadas Denise Souza Braga e Indira Santiago Braga pedalam na área de conservação desde 2019 -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
As cunhadas Denise Souza Braga e Indira Santiago Braga pedalam na área de conservação desde 2019 - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Um paraíso em Taguatinga Norte, a cerca de 25km do Plano Piloto. A Floresta Nacional (Flona) de Brasília é o atual habitat de espécies como o lobo-guará, o tatu-canastra e o tamanduá-bandeira. Preservando a biodiversidade de 5,6 mil hectares de Cerrado, a unidade de conservação atrai milhares de visitantes anualmente, em especial pela fauna local e por atrações como o corrégo Geladeira e a Bica d'Água.

Apesar de ser querido pela população, o parque tem sofrido com constantes tentativas de ocupação e queimadas criminosas. Somente no ano passado, foram registradas 22 queimadas.

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Durante as temporadas de seca, entre maio e setembro, as tentativas de incêndio na região preocupam os profissionais do Manejo Integrado do Fogo da Flona de Brasília. Segundo Hudson Coimbra Felix, coordenador da equipe, são realizadas vigilâncias contínuas por meio de rondas presenciais, "além do uso de tecnologias, como satélites, câmeras e drones, e parcerias com atores locais para comunicação de focos de incêndio", descreve Felix.

As constantes tentativas de redução da área protegida movem os frequentadores do espaço, que se posicionam a favor da proteção da floresta. "Os ciclistas e pedrestes participam ativamente na comunicação e alerta. São os guardiões da Flona", brinca Douglas de Paula, segurança e ciclista, que há mais de 20 anos abraça a causa.

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Goiano, Douglas é morador da região de Taguatinga e frequentador assíduo do parque. "Há 5 anos, eu decidi me voluntariar para auxiliar na proteção ambiental da floresta. Através dos processos seletivos, há dois anos, consegui o cargo como segurança", conta. Um dos problemas mais recorrentes são as represálias contra a fiscalização. Douglas conta que há tentativas de retaliação contra os SMBUs (Serviços de Meio Ambiente e Biodiversidade) por causa das multas aplicadas a infratores.

Cura

O ciclista Luiz Felipe Lima, 28 anos, frequenta o parque semanalmente desde 2017 e defende a tomada de medidas contra ocupações irregulares, para maior preservação da área, de responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Para ele, o local foi a cura para questões emocionais, como ansiedade e depressão. "Aqui é vida. Um lugar onde milhares de pessoas recarregam as energias. Além disso, muitos animais morrem durante as queimadas. Fiscalizar é preciso", defende o estudante, formado em Gestão Pública.

Os dados apontam que a conexão entre o público e o parque tem aumentado. De acordo com informações da gestão local, no último ano, foram registradas mais de 79 mil visitas à Flona. Pessoas que procuram pelas trilhas que variam de 6km, 12km, 18km e 36km, à procura de se reconectar com a natureza.

Entre trilhas de terra e rotinas que se repetem semana após semana, a Floresta Nacional de Brasília virou extensão da vida de Denise Souza Braga, 30 anos, e Indira Santiago Braga, 38. Cunhadas e moradoras de Taguatinga Norte, elas pedalam no local desde 2019 e construíram ali uma relação que atravessa gerações. "A gente é suspeita para falar, porque nossos filhos, com um ano, já andavam de bicicleta de equilíbrio aqui dentro. Faz parte da nossa rotina", contam. Mais do que um espaço de lazer, a Flona representa pausa, encontro e pertencimento.

Nos últimos meses, o que mais chamou a atenção das duas foram os efeitos das queimadas na área. Segundo elas, as trilhas passaram por mudanças visíveis, com perda de vegetação e impactos diretos na paisagem. "As árvores estão fazendo muita falta", afirmam. Para as ciclistas, o problema está menos no uso cotidiano da Flona pelos frequentadores e mais em práticas que colocam o espaço em risco, como incêndios provocados por ação humana.

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Apesar da melhora na segurança — com presença de viaturas, especialmente aos domingos —, Denise e Indira apontam que ainda há desafios importantes para a preservação da área. Para elas, o principal risco, hoje, está fora das trilhas: na pressão por ocupações irregulares no entorno da unidade. "As construções estão muito próximas, é complicado, fica esse risco de invadirem mais."

As duas também defendem mais fiscalização e conscientização, sobretudo, para evitar queimadas causadas por moradores da região. Ao mesmo tempo, fazem questão de ressaltar a importância de manter o acesso gratuito e acessível, como forma de garantir que a população continue ocupando e valorizando o espaço.

Biodiversidade

O crescimento urbano desordenado no entorno da Flona já produz impactos diretos sobre o equilíbrio ambiental da unidade. Segundo o biólogo Bruno Reis Moreira, a principal consequência desse avanço é a fragmentação da mata. "Quando você começa a ocupar áreas que fazem parte do trajeto de animais ou do fluxo hídrico, você passa a isolar trechos da vegetação", explica o professor dos cursos de Biologia e Biomedicina do Centro Universitário Módulo. Esse processo compromete a continuidade dos ecossistemas e interfere em uma dinâmica natural essencial para a manutenção da biodiversidade.

Na prática, essa quebra de conexão entre os ambientes afeta diferentes níveis da cadeia ecológica. O especialista destaca que a fragmentação prejudica desde a fauna e a flora até os recursos hídricos da região. Ele ressalta que o problema não está nos frequentadores da Flona — que, em grande parte, contribuem para a valorização e defesa do espaço —, mas na pressão por ocupação irregular e no avanço urbano sobre áreas sensíveis. "Pode haver aumento de queimadas, já que o Cerrado já é naturalmente suscetível ao fogo, além de impactos diretos como atropelamento de animais e poluição dos recursos hídricos", afirma.

Para evitar a degradação, Moreira defende a adoção de medidas estruturais e de longo prazo. Entre elas, a definição clara dos limites de ocupação, com base em planejamento urbano e ambiental. "É preciso delimitar juridicamente quais áreas podem ser ocupadas e quais devem ser preservadas, a partir de um plano diretor", diz. Ele também reforça a necessidade de fiscalização contínua. "Sem controle efetivo, mesmo as regras existentes acabam sendo desrespeitadas."

  • A Bica de Lata é uma das paradas obrigatórias
    A Bica de Lata é uma das paradas obrigatórias Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • O ciclista Luiz Felipe Lima vai ao local semanalmente
    O ciclista Luiz Felipe Lima vai ao local semanalmente Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  20/03/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -  Flona - Floresta Nacional em Taguatinga. Seriema
    20/03/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Flona - Floresta Nacional em Taguatinga. Seriema Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • O agente do ICMBio Douglas de Paulo atua no parque há 20 anos
    O agente do ICMBio Douglas de Paulo atua no parque há 20 anos Foto: Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Eucaliptos da FloNa de Brasília
    Eucaliptos da FloNa de Brasília Foto: Beatriz Mascarenhas
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postado em 21/03/2026 05:00
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