O secretário de Segurança Pública do DF, Sandro Avelar, lamentou o feminicídio da manicure Luana Moreira Marques, 41 anos, que foi assassinada na segunda-feira, em Planaltina. Ele defendeu que a principal forma de combate ao feminicídio é por meio da educação. Para isso, é preciso mostrar às vítimas seus direitos e que estão mais seguras buscando os órgãos de segurança do que se silenciando. "A gente vai mudar a cultura deste país só quando ensinarmos os nossos jovens, desde crianças, para que não cresçam com a mentalidade de que podem dispor da vida de uma mulher, como acontece com tanta frequência", afirmou, nesta terça-feira (10/3), às jornalistas Ana Maria Campos e Denise Rothenburg, no CB.Poder — parceria entre o Correio e a TV Brasília.
Tivemos, logo após o Dia Internacional da Mulher, o caso da Luana, assassinada a facadas, em que o marido chegou a levar o corpo para a delegacia. Quando teremos um basta nesses casos tão escabrosos de feminicídio?
Eu digo que só quando a gente conseguir mudar essa mentalidade da sociedade, esse chamado machismo estrutural, é que a gente vai conseguir realmente não se envergonhar desse tipo de violência que acontece no Brasil, porque o que pode ser feito em termos de segurança pública, no que diz respeito ao feminicídio, é muito limitado. Esses crimes, na grande maioria das vezes, acontecem em ambientes domésticos, onde o homem está trancado com a mulher que ele vai executar e, normalmente, em mais de 60% das vezes, usando armas brancas, ou seja, armas encontradas dentro da cozinha de cada residência. Então, é muito triste e lamentável o que está acontecendo, mas as nossas respostas têm sido muito efetivas, tanto no campo preventivo quanto no repressivo. No que diz respeito ao campo repressivo, não existe nenhum caso de feminicídio que não tenha sido solucionado no Distrito Federal, inclusive, esse caso que a gente acabou de mencionar, todos esses autores estão presos ou estão mortos. Agora, no campo preventivo, a gente tem procurado trabalhar na construção de políticas no sentido de educar a mulher e mostrar a ela que, se buscar a proteção do Estado, está muito mais protegida do que se não buscar essa proteção. Nós temos, por exemplo, um dispositivo chamado Viva Flor, que a gente distribui nas delegacias de polícia. Ele tem o aspecto de um telefone celular, mas, na verdade, trata-se de um botão do pânico. Até o começo de 2023, tínhamos 200 mulheres dispondo desse dispositivo. Agora, a gente completou 2.000 mulheres.
Que tipo de medida pode se adotar? Muitas vezes, essa mulher tem uma dependência emocional e financeira. Como orientar essas pessoas para que elas tenham coragem de denunciar?
Além desse aspecto educativo, é preciso que o Estado também dê meios para que essa mulher possa sair de casa tendo condições de subsistência. Acontece muito de a mulher se colocar nessa condição de, embora sendo constantemente agredida, insistir em residir com aquele que é o seu agressor, porque ela não tem segurança econômica para sair de casa e ter um lugar para morar, não tem uma renda por meio da qual possa se manter independentemente dessa pessoa que a agride. Então, o governo criou um aluguel social para essas mulheres. Nós temos milhares de mulheres hoje que já têm esse aluguel social, que é uma maneira de elas poderem residir em um ambiente diferente daquele onde convivem com os seus agressores. É claro que isso aí é um processo, e não existe uma solução milagrosa. É preciso uma mudança de mentalidade.
Será que é preciso colocar isso também nos currículos escolares, como esse combate à violência?
Eu penso que sim. Se você coloca isso nos currículos escolares para que os meninos já aprendam, desde crianças, a respeitar as meninas, e para que as meninas saibam dos seus direitos e saibam se impor de forma que jamais a força física prevaleça, eu acho que esse é o caminho que o Brasil tem que seguir para poder melhorar.
Entramos no período de desincompatibilização. Essa palavra é grande, mas é quando as pessoas que são candidatas deixam os governos para participarem das eleições. O senhor vai sair da secretaria? Vai ser candidato?
Eu devo sair, eu devo me desincompatibilizar. Tenho me sentido muito provocado a me colocar em condições de ser candidato, porque eu represento a segurança pública, defendo isso, acredito nas coisas que eu falo e nas coisas que eu penso. Gostaria de ter alguém que pudesse realmente me representar, mas eu acho que a gente não pode fugir disso. Têm coisas que parecem surgir no caminho da gente que temos que enfrentar, e eu estou disposto a me desincompatibilizar, para que eu não fique impossibilitado de ser candidato, caso o caminho seja esse.
Assista à entrevista
*Estagiário sob supervisão de Malcia Afonso
Saiba Mais
