Pereira, cidade colombiana no departamento de Risaralda, aparece em estudos como uma das mais seguras do país. Nos bastidores do crime, porém, a área abriga disputas silenciosas por território e dinheiro. Na tarde de 31 de janeiro, o movimento em uma oficina mecânica de Pereira seguia lento, quando quatro homens em duas motos atiraram e mataram Jhon Mario Sanchez Giraldo. Sanchez era apontado por investigadores como um dos chefes da agiotagem que opera no Distrito Federal e em Goiás.
A execução ocorreu a milhares de quilômetros de cidades brasileiras onde, segundo a polícia, o dinheiro de devedores é combustível para o financiamento do tráfico de drogas, de armas e a contratação de sicários — assassinos de aluguel — na Colômbia.
Segundo a Polícia Nacional da Colômbia, Sanchez liderava o tráfico de drogas em zonas como El Rocío, La Dulcera, San Nicolás e Boston. Informações de inteligência apontam ligações dele com duas facções locais: La Cordillera e Los Rebeldes.
A atuação não se limitava ao país latino-americano. Em entrevista ao Correio, o comandante da Polícia Metropolitana de Pereira, coronel Oscar Leonel Ochoa, afirmou que Sanchez mantinha vínculos com redes de agiotagem no Brasil e havia retornado à Colômbia pouco tempo antes de morrer, após conflitos com Maurício Rubio Rodriguez, também assassinado em junho do ano passado em Valparaíso (GO).
As investigações mostram que o dinheiro cobrado de comerciantes endividados financia uma cadeia de crimes, incluindo a compra de cocaína, maconha e drogas sintéticas; pagamento de assassinos de aluguel; viagens internacionais de criminosos; e até invasões de propriedades.
“As operações se estendem da Colômbia para países como Brasil e Uruguai e têm incidência direta em fatos violentos registrados recentemente em Pereira e sua área metropolitana. Nossas investigações mostram que membros desta organização instalaram redes de crédito ilegal em várias cidades desses países, onde impuseram juros abusivos e aplicaram mecanismos de intimidação, assédio e pressão psicológica contra aqueles que não cumpriam os pagamentos”, frisou o coronel.
DF e Goiás no epicentro
O esquema de agiotagem colombiana na capital federal e em Goiás é conhecido pelas autoridades. A guerra travada entre eles mesmos resultou, em setembro do ano passado, na morte de Carlos Augusto Medeiros, 36 anos. Carlos era gerente do Bar em Bar, em Taguatinga, e foi assassinado por engano, confundido com um colombiano. No dia do crime, estava sentado na área externa do estabelecimento, quando foi alvo de um ataque a tiros. O assassino confesso é Johny Alexander Saldarriaga Guapache, 28, colombiano e “soldado” da organização criminosa.
A missão de Johny era matar o dono do ponto gastronômico. De acordo com ele, o alvo mantinha uma dívida com um homem conhecido como Mono, posteriormente identificado pela polícia como Jhon Mario Sanchez Giraldo, o traficante colombiano suspeito de comandar o esquema de agiotagem no DF e no Entorno.
Johny recebeu apoio logístico. Parceiros forneceram a moto, a arma e até as passagens de ônibus para a fuga. Foi preso em Fortaleza (CE) pelos policiais da 17ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Norte) e confessou o homicídio. Sete dias antes do ataque, câmeras de segurança registraram o encontro entre Johny e Bryan Danilo Moreno na calçada do restaurante Los Paisas, em Valparaíso de Goiás. Segundo a investigação, Moreno é responsável por articular a execução. Ele segue foragido.
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Johny afirmou à polícia, em depoimento, que aceitou cometer o assassinato para quitar uma dívida de R$ 3 mil contraída na Colômbia com Brahyam Angulo Rendon, aliado de Jhon Sanchez e também procurado. Sem conseguir pagar, disse ter recebido ameaças e sido obrigado a viajar para o DF para executar o crime. “Quando ele vem a Brasília recebe, aqui, as instruções por parte de Bryan para o ataque”, afirma Thiago Boeing, delegado-adjunto da 17ª DP à frente do caso.
Reduto
A Rua 17, no bairro Jardim Oriente, em Valparaíso, atravessa uma sequência de lojas e casas protegidas por muros altos. O vai e vem de comerciantes e clientes começa às 8h e termina às 18h, quando as lojas fecham as portas. Ao lado de uma tapeçaria funciona a Medellin Barber Club. Gerida por colombianos, oferece uma estrutura sofisticada, na contramão das barbearias convencionais: playstation, sinuca, cerveja e ambiente rústico.
Do lado de fora, porém, a cena é outra. A calçada lembra um ponto de mototáxi. Em menos de duas horas em que a reportagem permaneceu no local, quatro motociclistas colombianos chegaram, estacionaram por alguns minutos e partiram. Todos usavam bolsas transversais. Comerciantes da região afirmam que os homens fazem parte da engrenagem do esquema da agiotagem e atuam como “cobradores”.
No verso do cartão entregue a lojistas aparecem os valores disponíveis, entre R$ 500 e R$ 5 mil. Quem aceita o empréstimo tem 20 dias para quitar a dívida. No caso de um crédito de R$ 500, o devedor paga, ao final, com R$ 630. Durante esse período, porém, precisa desembolsar R$ 30 por dia.
Entre 2024 e 2025, ao menos 118 colombianos apareceram como autores de crimes registrados no DF, segundo dados da Polícia Civil (PCDF) obtidos pelo Correio via Lei de Acesso à Informação (LAI). Nas ocorrências, surgem acusações de extorsão, ameaça, crimes contra a economia popular, estelionato, furtos e injúria.
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