SERRINHA DO PARANOÁ

'A Serrinha é nossa': ato reúne mais de mil pessoas em defesa da região

Moradores, participantes de associações e políticos, se reuniram no Eixão para exigir proteção à Serrinha do Paranoá

Ao menos 1.200 pessoas, entre moradores, participantes de associações e políticos, se reuniram no Eixão, na altura da 208 Norte, em um ato em defesa da Serrinha do Paranoá, área incluída no Projeto de Lei nº 2175/2026, que autoriza o repasse de imóveis públicos para a capitalização do Banco de Brasília (BRB) após crises financeiras da instituição.

A chuva não desanimou a mobilização, que contou com a exposição de desenhos feitos por estudantes da Escola da Árvore, localizada na Serrinha. Nathalia Campos, 39 anos, diretora administrativa da instituição, levou a filha, a pequena Elisa, 7, para participar do ato. "Nós ocupamos esse território e temos tentado mostrar às crianças, desde cedo, a importância de cuidar daquele espaço e do cerrado como um todo. Por isso, os motivamos a desenhar animais que já viram nos arredores da Serrinha para ilustrar a riqueza daquela área", conta.

O impasse em torno da Serrinha do Paranoá teve início com a sanção do novo Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) em fevereiro de 2026, que classificou a área de 716 hectares como zona de expansão urbana. Avaliado em R$ 2,3 bilhões, o espaço passou a ser o item central da estratégia de garantia para empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos.

Em resposta, moradores e entidades realizaram a manifestação, alegando a existência de 119 nascentes no local e criticando o risco ao equilíbrio hídrico da região, que integra a Área de Preservação Ambiental (APA) do Planalto Central. No campo político, a oposição questionou a legalidade do uso de terras públicas para cobrir rombos bancários. A Terracap e o GDF negaram a presença de recursos hídricos ou Áreas de Preservação Permanente no terreno, reiterando que a área é apta para urbanização e pode abrigar até 35 mil residentes. 

Carlos Vieira/CB/DA Press -
Carlos Vieira/CB/DA Press -
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"Desprezo ambiental"

A mobilização no Eixão também deu voz à juventude e a especialistas que contestam os laudos técnicos do GDF. Para a bióloga Helena Marques, 23, o que está em jogo é a sobrevivência do ecossistema local diante da especulação imobiliária. "A Serrinha tem mais de 100 nascentes que alimentam o Lago Paranoá; dependemos dessa água para sobreviver. Grandes corporações e interesses econômicos agem como se fossem impunes, e esse movimento de rua é fundamental para mostrar que não aceitaremos esse ataque à nossa qualidade de vida", afirma a integrante do coletivo Juntos Pelo Clima.

Lúcia Mendes, presidente da Associação Preserva Serrinha, reforça a importância estratégica da área, citando dados do Instituto de Pesquisa da Amazônia (IPAM). "[Os responsáveis por esse projeto] Dizem que não há nascentes na gleba A, mas é exatamente lá que a água infiltra para recarregar os aquíferos. Se matarmos o berço das águas, não haverá água para ninguém. Não estamos em uma disputa de narrativas, estamos compartilhando conhecimento técnico contra o desprezo ambiental", pontua Lúcia.

No campo político, o deputado distrital Fábio Felix (PSOL) classificou a medida como um "golpe" para salvar a gestão atual de um escândalo financeiro. "A Serrinha é uma falsa solução para essa crise. O governador Ibaneis Rocha enfiou o DF em um esquema de corrupção com operações bilionárias e agora quer ganhar no 'tapetão', entregando para prédios um território que a população organizou para proteger", declara o parlamentar.

No mesmo tom, a deputada federal Erika Kokay (PT) afirmou que o governo ignora a inteligência da população ao tentar desvincular a área da preservação das águas. "A água precisa de chão para circular e assegurar a vida; não se pode simplesmente arrancar um pedaço do ecossistema e entregá-lo aos barões da especulação", critica.

A viabilidade técnica do zoneamento também foi questionada por Maria Sílvia Rossi, da Comissão de Defesa do Meio Ambiente (Condema). Ela alerta para o colapso do sistema de esgoto e hídrico caso a urbanização avance. "A Gleba A é a caixa d'água da Serrinha. Esse arrobo de especulação é para o rentismo e para a alta renda, ignorando o déficit habitacional real da população pobre. O custo climático de impermeabilizar essa área será altíssimo", observa.

Já o deputado distrital Gabriel Magno (PT) destaca que a pressão popular está fazendo a base governista recuar. "Essa solução não salva o BRB, salva apenas o calendário eleitoral de quem colocou Brasília na maior crise de sua história. Eles acham que podem comprar todo mundo, mas não compram a dignidade de quem está na rua para impedir esse sequestro do patrimônio público", avalia.

Cronologia dos Fatos

Fevereiro de 2026: O novo Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) é sancionado, classificando a área da Serrinha como zona de expansão urbana, permitindo uma densidade de até 35 mil residentes.

3 de março (terça-feira): a Câmara Legislativa (CLDF) aprova o projeto de lei que inclui a Serrinha como garantia para o BRB. O texto segue para sanção do governador Ibaneis Rocha.

Leia também: Listada no PL de socorro ao BRB, Serrinha do Paranoá abastece a água do DF

5 de março (quinta-feira): o governador afirma ao Correio Braziliense que não retirará a Serrinha da lista de imóveis. A Terracap emite nota informando que o terreno não possui nascentes ou recursos hídricos e não integra Área de Proteção Permanente (APP).

8 de março (domingo): moradores e associações, como a Preserva Serrinha, realizam ato público denunciando a existência de 119 nascentes no local. Estudantes da Escola da Árvore também se manifestam contra a inclusão da área no plano de salvamento do banco.

13 de março (sexta-feira): em agenda oficial, o governador Ibaneis Rocha nega a existência de nascentes na região. O chefe do Executivo declarou: "Ninguém fez mais pela proteção ambiental do que eu", afirmando que as críticas fazem parte de uma disputa de grupos contrários à solução financeira para o BRB.

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