O primeiro painel do CB.Debate, com o tema "A escola como espaço de prevenção e consciência", colocou a educação no centro das estratégias de enfrentamento à violência de gênero. A discussão destacou a importância de trabalhar valores, comportamentos e relações desde a infância como forma de romper ciclos históricos de desigualdade e construir uma cultura de proteção mais sólida e duradoura.
Mediado pelas jornalistas Adriana Bernardes e Mariana Niederauer, o painel reuniu vozes de diferentes áreas para discutir como o ambiente escolar pode atuar na prevenção da violência de gênero. Participaram a antropóloga, professora e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher da Universidade de Brasília (NEPeM/UnB), Lia Zanotta Machado; a juíza e presidente do Fórum Nacional de Juízas e Juízes de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (Fonavid), Camila Guerin; e a educadora Katharine Bernardes.
A juíza Camila Guerin destacou a importância de levar o enfrentamento à violência de gênero para dentro das escolas como estratégia para romper ciclos históricos de desigualdade. Segundo ela, a educação tem papel central na transformação cultural e pode antecipar discussões que, hoje, chegam tardiamente ao sistema de Justiça. "Se essa temática for integrada ao ambiente escolar, a mudança ocorrerá em um período significativamente menor", afirmou. Para a magistrada, trabalhar o tema desde a infância contribui para formar jovens mais conscientes, capazes de reconhecer e evitar situações de violência.
Na avaliação da presidente do Fonavid, o debate não deve ser tratado de forma pontual, mas estruturado no currículo escolar. Para ela, é fundamental ensinar a história das mulheres, combater o apagamento feminino e promover reflexões sobre igualdade de gênero e respeito. Nesse processo, destacou, também, a importância de incluir os meninos na discussão, abordando novas formas de masculinidade e ensinando a lidar com frustrações sem recorrer à violência.
"É preciso ensinar os homens a lidar com frustrações sem recorrer à violência e desconstruir conceitos tradicionais de masculinidade", disse. Camila também ressaltou a interligação entre diferentes formas de discriminação. "Homofobia, misoginia e racismo são problemas interligados e precisam ser enfrentados em conjunto", completou.
Na mesma linha, a antropóloga Lia Zanotta defendeu que o enfrentamento à violência contra as mulheres passa, antes de tudo, por mudanças estruturais na sociedade. Para ela, o foco não deve estar apenas no endurecimento de leis, mas na prevenção. "As leis são normativas e devem ser mais preventivas do que punitivas. Não adianta estabelecer penas muito altas. O que adianta é prevenção", afirmou.
A professora também alertou para a persistência de padrões culturais que sustentam a violência de gênero. "Existe uma cultura de longa duração que é violenta em relação às mulheres. A sociedade precisa mexer nas suas bases", disse. Lia Zanotta chamou atenção, ainda, para a desigualdade no acesso à rede de proteção no país. Segundo estudos do NEPeM/UnB, delegacias e juizados especializados ainda estão concentrados em grandes centros urbanos, deixando regiões mais afastadas desassistidas.
Apesar dos avanços, ela destacou que ainda há muito a ser feito, inclusive no Distrito Federal. "O DF ampliou juizados e promotorias especializadas, mas ainda precisamos de mais instituições para que as mulheres possam recorrer a essa rede de proteção", avaliou. Para a antropóloga, a educação continua sendo o eixo central da transformação. "Quanto mais a educação for capaz de ensinar isso desde cedo, melhor, porque muitas vezes as famílias ensinam o contrário", afirmou. Ela defendeu, ainda, a ampliação da presença da Lei Maria da Penha no currículo escolar, com a abordagem de situações cotidianas, como bullying e relações abusivas.
Cultura escolar
Representando o setor educacional, a educadora Katharine Bernardes reforçou que a escola é um espaço privilegiado para a construção de valores. "A escola é rotina, linguagem, vínculo e exemplo. É um lugar onde construímos, com mais força do que qualquer discurso, uma cultura", afirmou. Para ela, a prevenção começa nos primeiros anos de vida, por meio de práticas pedagógicas simples e contínuas.
Katharine destacou que a formação de uma cultura de respeito passa pelo desenvolvimento da empatia, do cuidado e da autorresponsabilidade. Segundo a educadora, atuar na base é a única forma de evitar que comportamentos violentos se consolidem ao longo da vida. "Se eu não for à base, estarei apenas atuando sobre o problema. Quero evitar que ele aconteça", disse.
A diretora também ressaltou o papel da escola na identificação precoce de situações de risco. "Na rotina, observamos mudanças de comportamento, um olhar de socorro. Muitas vezes, percebemos antes das famílias o que está acontecendo com essa menina", afirmou. Para isso, defendeu a adoção de protocolos claros nas instituições de ensino, baseados em etapas como acolher, ouvir, registrar e encaminhar.
Outro ponto destacado foi a necessidade de formação contínua dos profissionais da educação. "É a educação de educadores. Essa é a base", resumiu. Segundo ela, toda a comunidade escolar deve estar preparada, incluindo funcionários de apoio, que, muitas vezes, têm contato direto com os alunos em diferentes momentos do dia.
Katharine também apontou estratégias pedagógicas para envolver os estudantes no debate, inclusive os meninos. O uso de narrativas e histórias, segundo ela, tem se mostrado eficaz para gerar engajamento e reflexão. "Eles se envolvem tanto quanto as meninas, às vezes até mais, e passam a propor soluções de cuidado e prevenção", relatou.
Ao reunir diferentes perspectivas, o painel evidenciou que a construção de uma cultura de proteção às mulheres passa, necessariamente, pela educação. Mais do que um espaço de aprendizagem formal, a escola se consolida como um ambiente estratégico para a formação de valores, a desconstrução de desigualdades e a prevenção da violência.
O CB.Debate reforçou que enfrentar a violência de gênero exige um esforço coletivo e contínuo, no qual educação, Justiça, comunicação e sociedade caminham juntas.
