O segundo painel do CB.Debate destacou a importância de se valorizar a cultura e os artistas locais. Marcelo Café, compositor e produtor cultural; Thânisia Cruz; produtora e integrante do Comitê da Marcha das Mulheres Negras do Distrito Federal; e Max Maciel, deputado distrital (PSol) nascido e criado na cidade, debateram sobre a falta de valorização à cidade e a falta de oportunidade que Ceilândia seja vista e reconhecida como capaz de produzir uma cultura própria.
A produtora e ativista Thânisia Cruz situou sua fala a partir da própria trajetória na cidade, conectando memória, identidade e expectativa de futuro. "Este debate é o momento para que pessoas como eu tenham a oportunidade de construir novas ideias, de conversar sobre a realidade da nossa cidade e pensar um futuro sustentável que já é hoje", afirmou.
Seu discurso foi marcado por uma lembrança afetiva e histórica do território, construída a partir de experiências pessoais e transformações urbanas ao longo do tempo. "Eu nasci em Ceilândia em 1992. Vi o metrô nascer, quando ainda era tudo brita, e vivi muito a Guariroba, o P Sul e o centro de Ceilândia. Tudo isso que foi falado aqui sobre feiras, escolas e cultura é a minha realidade mais viva", destacou.
Segundo Thânisia, iniciativas culturais e coletivas foram fundamentais para a construção de novas possibilidades na periferia. "Hoje temos espaços como a Casa Akotirene, o Samba na Comunidade e outras coletividades que mostram a força da cultura no território", disse. Ao mesmo tempo, ressaltou que esses avanços convivem com memórias marcadas pela violência. "Eu vivi um período em que a Praça do Cidadão era um espaço de conflito, de guerra armada. E, hoje, ver esse mesmo lugar transformado em um espaço de cultura e mobilização é muito simbólico", relatou. Para ela, a revitalização desses espaços é resultado direto da ação popular. "Foi a própria população que ocupou, que transformou e criou oportunidades a partir do ativismo político", afirmou.
Thânisia também relacionou essas transformações ao conceito de "bem viver", defendido pela Marcha das Mulheres Negras, do qual faz parte. "A gente fala de reparação, memória e justiça, e isso tem tudo a ver com a Ceilândia", disse. Segundo ela, a construção de novos espaços culturais e de convivência amplia, não apenas o acesso à cultura, mas também as possibilidades de existência e dignidade para a população. "Esses espaços mostram que é possível um outro sentir, um outro existir, com mais tranquilidade, mais acesso e mais oportunidades", ressaltou.
Engrenagem cultural
Com três décadas de trajetória artística, Marcelo Café confrontou a "visão romântica" das autoridades sobre a cidade. Para o artista, a exaltação da "potência" da cidade mascara dificuldades estruturais e um abismo de diálogo entre o poder público, o setor empresarial e quem realmente faz a engrenagem cultural girar.
"Não existe escrita, canto ou poesia que não seja atravessada pela vivência. O que você escreve e canta é aquilo que você vive", pontuou o músico, que recentemente lançou o clipe de "Ceilândia Uber". Café, no entanto, lamentou que essa vivência seja ignorada por quem é responsável pelo orçamento público. "Infelizmente, as autoridades falaram de Ceilândia com romantismo, mas quem trabalha no lugar da cultura e faz as transformações está aqui", disse.
O artista denunciou o isolamento dos realizadores locais em relação ao setor produtivo da região administrativa. Segundo ele, há uma resistência dos empresários locais em utilizar mecanismos como a Lei de Incentivo à Cultura (LIC) para fortalecer festivais que reflitam a identidade da cidade. "Fazer cultura não é simplesmente levar grandes nomes de fora para a Ceilândia; isso é espetáculo, é show. Fazer cultura é conversar com o artista da cidade", criticou, mencionando que a diversidade do rap, do samba e do reggae, que foi excluída das cifras milionárias investidas no aniversário da região.
Café também revelou que, apesar de a capital federal ser um dos maiores polos de economia criativa do país, muitos talentos locais são empurrados para fora. "Há mais de 10 anos, faço mais shows na Europa do que em Brasília. O artista precisa sair daqui para trabalhar porque não conversam conosco. O artista come, paga aluguel e precisa de respeito profissional. Não vivemos de luz", desabafou.
A ocupação dos equipamentos públicos também foi alvo de críticas. Café relatou impedimentos burocráticos na Casa do Cantador, onde projetos tradicionais enfrentam restrições morais e falta de entendimento sobre as manifestações afro-brasileiras. Ele defendeu que a revitalização do centro da Ceilândia deve passar pela ocupação cultural para garantir dignidade aos jovens e evitar a precarização.
"A cultura traz questionamento e outras possibilidades de subjetividade. Ocupar o tempo dos jovens com trabalho precarizado de 12 horas não é solução. A cultura é que possibilita transformações profundas e profissionalização", destacou.
Falta de investimento
O distrital Max Maciel iniciou a sua fala fazendo uma breve apresentação de Ceilândia, abordando sua origem de luta e, em suas próprias palavras, "história conflituosa da própria cidade". Ele destacou a falta de um plano de arborização da cidade, quando comparado com o Plano Piloto. "Às vezes, a gente reclama do cidadão que derrubou uma árvore, mas não vemos que as outras árvores foram derrubadas para construir as casas e não foram plantadas de novo para substituir as antigas", afirmou. Durante sua fala, o parlamentar também destacou a grandeza da cidade, que representa 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do DF e se consolida como o maior mercado exportador do Centro-Oeste.
Maciel também comentou sobre a falta de humanização nas obras que chegam à cidade, citando a Caixa D'água — inaugurada em 1977 — como o "primeiro pingo de humanidade da Ceilândia". "O asfalto, o poste e a escola são obras de urbanização, mas falta humanização. Ceilândia foi vendida como uma cidade perigosa e isso afasta os investimentos de fora da cidade. As empresas não querem ir para um lugar que todo mundo fala que é violento", explicou.
O desenvolvimento econômico, segundo o deputado, só veio acontecer após 45 anos de existência da cidade. "Essa demanda não foi atendida pelo governo, e sim, pelos empresários que entenderam que na cidade havia um mercado consumidor gigantesco na cidade", afirmou.
A produção cultural, forte na cidade, também foi uma das pautas abordadas pelo deputado. Segundo Maciel, há um fenômeno conhecido como "paradoxo da periferia" onde há quem produz cultura na cidade, mas não há onde reproduzir ou expor seu trabalho. "Não temos equipamentos culturais para escoar a nossa arte, nós não temos salas de cinema, não temos teatros, mas produzimos muita cultura. Somos exportadores de cultura, mas não temos onde expor a nossa cultura na nossa cidade", desabafou.
O deputado disse que os caminhos para reverter esse cenário será possível por meio de investimentos tanto público como privado na cultura local. "Para o empresário que me assistiu aqui, você está perdendo uma oportunidade de investir na cultura de Ceilândia. Além disso, há a falta de políticas públicas voltadas para a região", finalizou.
