CRÔNICA

Oscar, imbatível: minhas lembranças do 'Mão Santa'

Oscar Schmidt foi gigante em todos os sentidos. O clichê se aplica aqui porque ele merece os superlativos. Brasileiro orgulhoso de seu país, demonstrou essa admiração em seus discursos e também nas ações

Mais um ídolo do esporte nacional nos deixou. Oscar Schmidt foi gigante em todos os sentidos. O clichê se aplica aqui porque ele merece os superlativos. Brasileiro orgulhoso de seu país, demonstrou essa admiração em seus discursos e também nas ações. Defendeu a Seleção por anos e construiu o caminho para chegar ao patamar dos maiores: liderou a vitória do Brasil sobre a seleção dos Estados Unidos, até então imbatível em casa.

Eles eram invencíveis. Mas chegou Oscar, com seus impecáveis arremessos da linha de três pontos, e, ao lado de Marcel, garantiu o feito no Pan-Americano de 1987, em Indianapolis. Ali conseguimos, sem dúvida, montar a receita perfeita. A garra e dedicação que apenas brasileiros como Oscar apresentam e uma mudança recente na regra do jogo. Havia cerca de um ano, a linha de três pontos tinha sido implantada. Aplicado como sempre foi, o nosso jogador treinou como poucos e fez jus ao apelido que marcou a carreira. O Mão Santa converteu sete arremessos de três pontos e terminou a partida com saldo de 46. Foi a partir dessa derrota que os Estados Unidos aprimoraram a estratégia e redesenharam a equipe. Era o nascimento do Dream Team. 

Aprendi isso com meu pai, contemporâneo de Oscar, e quem me ensinou os principais lances do basquete. Aprendi o básico para não passar vergonha, já que minha estatura mediana não permitiria que eu me aventurasse muito além disso. Os esportes nunca foram o meu forte, mas me esforcei ao máximo. Joguei tênis, futebol, basquete, vôlei e só me encontrei de verdade na natação. Meus primeiros nados ocorreram justamente no Clube de Vizinhança da Asa Sul, onde Oscar iniciou a carreira profissional. Amanhã, um Vizi e uma Brasília entristecidos pela perda homenageiam, orgulhosos, o ídolo enquanto celebram seus aniversários.

Dos acertos de Lucio Costa, esse talvez tenha sido um dos maiores. Os clubes de vizinhança são mesmo o que o nome define: um local de convivência entre vizinhos. É lá onde passamos muitas de nossas tardes de domingo com amigos e com cidadãos que compartilham conosco não só o mesmo bairro, mas a vontade de viver uma cidade com mais harmonia e leveza. 

Foi nessa mesma vizinhança onde, certa vez, cruzei com o pai de Oscar na padaria. Lembro-me até hoje do momento. Eu estava na fila do caixa e aquele senhor alto, de cabelos brancos, na minha frente. Logo que ele saiu, chegou a minha vez de pagar. O balconista indagou: "Sabe quem era aquele? O pai do Oscar…" Olhei, surpresa, e acho que não respondi nada. Ele tinha certeza de que eu saberia de quem ele estava falando. "Oscar." Foi tudo o que ele precisou dizer, e eu entendi perfeitamente. Até hoje não sei se a história procede, mas a semelhança entre os dois era inegável e acredito que o atendente estivesse, de fato, certo.

A padaria não existe mais, mas na mesma rua resiste o Beirute, há 60 anos um ponto de encontro guardado na memória e no coração de diversas gerações. Essa Brasília de 66 anos nos permite navegar por oásis assim em meio às características de cidade grande que desenvolveu. Cada canto conta uma história ainda muito presente. É preciso espalhar as boas novas e fazer com que se perpetuem. Para isso, seguimos nós aqui, firmes e fortes, escrevendo a eternidade que gigantes como Oscar merecem.

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